terça-feira

.  fechar a porta. desligar o intercomunicador. almoçar em meia hora e comer a sobremesa noutra meia. respirar o silêncio.
ouvir a água que cai do chuveiro. tomar banho de olhos fechados, sem tentar adivinhar um choro ou um chamamento.

saudades de uns olhos castanhos.

– Olá pequenino. Ainda por Gaia?
– O que queres, chata.
– Nada, deu saudades.
– Chata.
– Chato. (pausa) Amo-te muito.
– Eu também.

saudades de outros olhos

– Sou eu, a Mariana está bem?
– Está, está. Já comeu a papa, dormiu muito, e agora está a brincar. Mariana, diz olá à mamã
(silêncio)
– Está a olhar para o telefone mas não fala nada.
– Deixe, era só para saber se estava bem. Até logo, daqui a pouco estou aí.
– Está bem, está descansada, ela está bem. Até logo.

(ouço um “mamamamamama” enquanto desligo)

sorrio. respiro.

hoje encontrei-me um bocadinho.

hoje é um daqueles dias…

.  … em que receio a noite que aí vem :(.

a Marianinha tem dormido mal, acorda aos gritos, só sossega embalada. e, no meio de tudo isto, o que mais me custa é ver que algo lhe dói e eu não posso fazer nada para o evitar.

quem disse que ser mãe/pai era um mar de rosas esqueceu-se de falar das abelhas…

coisas simples

.  já sentia a falta de escutar música. de me deixar embrulhar nos sons, de sentir o ritmo percorrer a pele e misturar-se com o pulsar do sangue. em casa não é possível, uma vez que todos os meus sentidos estão ajustados à Mariana (é engraçado como, no meio do som da TV, dos monólogos “com” o GT e do som do ventilador, consigo ouvir os murmúrios ou gemidos da pequenina, duas divisões ao lado. a ligação wireless é mesmo boa 🙂 )

sabe bem ouvir música, senti-la crescer. ouvir de novo, perceber outro ritmo, uma nova base, é um exercício que me dá prazer e enche os sentidos. fechar os olhos por segundos. fingir que não existe mais nada. ou, quando se proporciona, encostar a mão às colunas e deixar que as vibrações dos graves percorram os dedos, braços e ombros, e se espalhem naquele espaço entre o pescoço e o crânio onde os sons fazem a festa.

esta é uma música que me faz sentir pequenina. insignificante perante a grandeza do som.

hoje está a ser um dia bom 🙂

hoje foi um dia bom :)

. há muitos anos – mais precisamente em 93 – trabalhei como monitora na colónia de férias da Torreira. para quem na altura tinha 18 anos os 50 contos que se ganhava em 15 dias de trabalho era uma fortuna. para quem na altura tinha 18 anos, estar responsável por um grupo de 12 meninas vindas de famílias desestruturadas era um desafio, uma angústia e uma fonte de grandes preocupações. mas também de grandes alegrias.

nunca me vou esquecer das férias que lá passei a trabalhar, a dar um pouco – e às vezes tudo – de mim àquelas crianças. da forma como lhes ensinei a usar os talheres, a brincar, a dar beijos e abraços. da forma como consegui, junto com as outras monitoras, fazer com que se esquecessem – pelo menos durante duas semanas – da vida mais escura e triste que tinham em casa.

hoje percebi que também não fui esquecida. há pouco, via facebook, uma daquelas meninas de olhos grandes pediu desculpa pela ousadia de me pedir “amizade” e perguntou se eu era a Mónica Aresta que tinha brincado com ela há tanto tempo atrás.

de um momento para o outro a minha tarde ficou cheia de sol, de luz, de saudades e de alegria.

e isto sabe tão bem… 🙂

Marianices

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_ a Mariana gosta:

– de arroz, massa, batatas e nabo aos bocadinhos; que se sentem com ela; que lhe leiam livros; de brinquedos onde pode enfiar o dedo indicador; de cores; que cantem para ela; que a embalem; de andar ao colo, no sling; que dancem para ela; de bater palminhas; do papá e da mamã; de canções com gestos, como a dos “olhinhos vermelhos”; de andar de carro; de pessoas com óculos; de um biberão às três da manhã; da girafa pequenina; das gotinhas de Vigantol; de fazer cócegas, com o indicador, no meu polegar; de brincar na mantinha dela; de comer; de rosnar; de gatinhar para trás; de livros com cores e sons; da música do Pingo Doce; de pão; da minha mão na dela.

A Mariana não gosta muito:

– de homens com barba; quando aparecem animais na televisão / quando aparecem pessoas na televisão; de dormir; que lhe vistam camisolas; de meias; da chupeta; de ficar sozinha.

A Mariana não gosta mesmo:

– do barulho do aspirador.

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(Mónica, a acordar cedo desde Abril de 2010)