porque sim

.  por vezes, nos minutos que antecedem o sono, percorro lugares que não visito há muito. sei de cor alguns lugares, as divisões de algumas casas. da casa do meu padrinho – onde passei muito tempo há muito tempo – conheço a entrada, com o banco vermelho ao lado da janela, e a porta grande e branca. o corredor, com o escritório numa ponta e a sala de jantar na outra.

avanço, abro a porta da casa de banho debaixo das escadas (com um espelho pequeno, redondo e alto, ao qual só acedia quando me esticava até doer), depois regresso. sei a cozinha e as escadas que dão acesso ao primeiro andar. e as que dão acesso ao sótão. sei os quartos (seis), os corredores, sei onde o papel de parede lasca e onde estão pendurados os quadros trazidos das viagens mundo fora. sei todos os espaços. tivesse eu os cheiros, e a memória seria completa.

são poucos os lugares que recordo assim, tão bem e tão claramente. uns porque foram mudando, outros porque ainda existem e não há necessidade de os guardar. com esta casa é diferente, sempre foi diferente. talvez porque quem lá habitava era diferente e enchia cada minuto, na sua presença, com relatos de outros lugares e experiências. um homem que atravessava a ria (bestida-torreira) a nado, que já falava e fazia ioga antes do ioga ser moda, que respeitava todos porque era com respeito que todos deveriam ser tratados.

é das pessoa que mais saudades me deixa. gostava que, um dia, alguém pensasse assim a meu respeito.

sobre sorrisos

.  há uns tempos atrás escrevi um post – que depois editei, simplesmente porque gosto de editar aquilo que escrevo – onde falava da importância do sorriso no dia a dia. lembro-me que o comparava a exercício, a algo que fazia bem, essas coisas pseudo-inspiradas e pseudo-inspiradoras.

continuo a defender isso – normalmente defendo o que escrevo 😛 – mas hoje acrescentaria algo mais. o sorriso é algo que nasce de dentro. é um canto sem voz, que começa não se sabe bem onde e que só termina nos olhos. no meu caso, quase sempre em lágrimas.

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hoje não me reconheceram na fotografia que tenho no messenger. um colega meteu conversa, perguntando: “quem é a moça da foto?”, e quando respondi “eu”, disse que não me reconhecia. porque não estava a sorrir.

senti, como já não sentia há algum tempo, que o sorriso não é só meu: é também parte daqueles que convivem comigo, que a mim se habituaram e que comigo contam. e isso, por si só, é já um motivo para sorrir 🙂

sobre a diferença entre cães e gatos

.  neste momento, para além da passarada que anda a comer a fruta do pomar, tenho lá em casa uma cadela e doze gatos – mais concretamente, duas (as mães-) e quatro gatas e seis gatos. são muitos, e é por isso que nestas alturas dou graças por ainda conseguir contar até dez. mas adiante…

os anos que tenho lidado com elas (Petra, a cadela, e Reca I e II, as gatas) ensinaram-me que há diferenças intransponíveis entre cães e gatos. os cães gostam de atenção. fazem festa e querem festas. que ficam tristes quando os descuramos. e depois há os gatos. personalidade forte, vontade mais forte ainda. querem festas quando querem, não quando as queremos dar.

a Petra, rafeira grande e tosca, quer ser amiga das recas. não entendeu, ainda, que há coisas que não acontecem só porque se quer. que a vontade dela, mesmo sendo forte (doze quilos de personalidade)  não é suficiente. a culpa não é dela, nem delas. é, simplesmente, assim.

nos últimos tempos tenho percebido que há muita coisa que não acontece só porque nós queremos ou só porque nos esforçamos. há coisas que simplesmente não acontecem, outras falham, outras deixar de acontecer. e outras ficam para mais tarde.

não é culpa nossa. nem das coisas. é, simplesmente, assim… 🙂

sobre a insegurança

.  o facto de ter crescido com dois irmãos mais novos mas mais fortes teve profundas consequências na forma como, hoje, me comporto no dia-a-dia. cheguei a essa conclusão há pouco quando, antes de publicar um comentário a um post, andei à procura de alguém (é sábado, está tudo offline) que validasse e autorizasse a minha mensagem.

não por insegurança relativamente ao conteúdo (era uma opinião, por isso tão válida quanto qualquer outra) ou à forma (tive o cuidado de utilizar maiúsculas), mas por receio de estar a mexer em algo que não era meu. por receio de estar a entrar em território alheio, por receio de querer “brincar” com os mais fortes. e de vir a apanhar por causa disso 😛

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adoro os meus irmãos. na dedicatória da minha dissertação de mestrado, agradeço-lhes dizendo “obrigado por me terem ensinado a crescer”. e ensinaram. à força de porrada, mas ensinaram 🙂

deve ser por isso que, hoje, ouço mais do que falo. leio mais do que escrevo. assisto mais do que participo. devo ter criado algum mecanismo de defesa contra potenciais reacções adversas, ou coisa que o valha.

é, sou uma pessoa marcada por uma infância traumática. agora só me falta entrar num concurso estranho e depois já posso escrever um livro 🙂

manos

rituais

.  costumo pensar (estas coisas não se dizem) que as pessoas se definem um pouco pelos rituais que praticam.

no semestre passado, quando falava aos meus alunos sobre a importância dos rituais nas culturas, descobri com eles que há um conjunto de acções – mais ou menos mecânicas – que compõem o nosso dia-a-dia.

o meu dia começa às oito. o ritual de passagem do sono ao estado de alerta inclui um acordar lento, um pequeno-almoço sossegado (na companhia do “Bom dia Portugal”) e só termina quando atravesso a porta de casa.

no final do dia, agradeço a distância que me faz percorrer não sei quantos quilómetros em cerca de vinte minutos. na quinta-feira passada percebi que esses minutos, comigo e com o meu carro, são indispensáveis para o meu equilíbrio e sanidade mental (poderia ainda desenvolver a minha teoria da “curva dos 80”, mas isso fica para mais tarde). vinte minutos a ouvir música, a cantar ou a chorar, a descobrir novos sons (que depois procuro no blip), a lavar a alma do dia que passou e a preparar o espírito para a noite de trabalho que se aproxima.

depois, por volta da uma, volto à cama. antes aproveitava para ler. agora, enquanto aguardo a chegada do livro que espero há semanas, aproveito para pensar – ou escrever – sobre quase tudo e coisa nenhuma.

não sei se são rituais. mas sei que servem para trazer tranquilidade e paz ao meu dia. e isso para mim basta 🙂