raízes

.  todos nós temos raízes. eu tenho, pelo menos. todos temos um chão, um espaço, uma terra, que mais do que nos prender à vida nos dá a energia e a força que precisamos para aguentar, dia após dia, as coisas boas e menos boas que nos acontecem.

sei que há quem consiga viver sem raízes, mas eu não consigo. fiz casa numa terra que não é a minha, estou perto – muito perto – das pessoas que agora fazem parte da minha vida mas, por vezes, sinto que me falta alguma coisa. faltam-me aquelas pessoas que me conhecem antes de eu me conhecer, que sabem sobre mim coisas que eu não me lembro, que me recordam de gestos e gostos que eu não consigo recordar. pessoas que, pouco a pouco, vão desaparecendo no tempo e no espaço naquela que é ordem natural das coisas. pessoas que nos dizem que “quando eras pequenina gostavas tanto de dançar”, ou de cantar, ou de fazer outras coisas – não importa o que digam, são importantes pelas memórias que têm de nós e que nos ajudam, em cada pedacinho, a construir as páginas do diário da nossa vida.

a minha família é o meu chão, o meu espaço, a minha terra. é nela que tenho as minhas raízes e a minha alma, é a ela que vou buscar aquela força que não se consegue com vitaminas, ou descanso, ou café. é nela que me encosto, que me apoio ou que me escondo.

todos nós precisamos de raízes. eu preciso. e tenho muito orgulho nisso.

não gosto de dias de chuva

.  no mundo em que só fazemos o que nos apetece, hoje estou em casa.

bebi café de cevada acompanhado de torradas de broa – aquecidas duas vezes para ficarem mais trincáveis -, e daqui a pouco vou comer pão barrado com mel (no mundo em que só fazemos o que nos apetece podemos comer à vontade que nunca engordamos).

a Mariana já comeu e está a dormir no meu colo (neste mundo especial isto acontece com regularidade) e estamos as duas no sofá, sem manta mas com meias, a ver um filme com meninos e música e chuva miudinha.

no mundo em que nós só fazemos o que nos apetece consigo mudar de canal com um piscar de olhos e as coisas vêm-me ter à mão quando penso nelas. o equilíbrio também é fácil e, por isso, consigo ter a Mariana a dormir no braço esquerdo enquanto desfolho, com a mão direita, algumas páginas de algum livro que só tem figuras e ideias. não tem história, nem enredo, só tem coisas. coisas que se vão fazendo à medida que vamos pensando nelas, que é assim que os livros – todos os livros – são neste mundo.

quando parar de chover vou fechar e abrir os olhos e vou estar sentada no fundo do meu quintal, no único bocadinho seco – o resto está tudo molhado, afinal acabou de chover – enquanto a Mariana está a brincar com as folhas vermelhas e castanhas que estão no chão. depois, num saltinho, vou a casa da minha mãe dar-lhe o beijo que já não lhe dou há dois dias e regresso de novo a casa.

como neste mundo há sempre a música e as coisas que queremos, decidi que hoje o vento canta Cat Stevens e que há um rio pequenino que vai nascer e desaparecer do meu lado direito, apenas durante um bocadinho para que não haja salpicos e tudo continue perfeito. como não gosto de ter os pés molhados, a relva vai secando à medida que caminho – agora já não estou de meias – e como me apetece um abraço a manta que estava no quarto já veio ter connosco e enrolou-se à nossa volta.

olho para a Mariana, ela olha para mim, e com os seus olhos cheios de luz diz-me baixinho: gosto de te ter comigo. eu respondo-lhe com um segredo: gosto de ti, e voltamos as duas para o cantinho onde as mães e as filhas ficam enroladinhas como gatos enquanto a chuva cai, de mansinho, do lado de fora da janela.

pensando melhor… acho que, afinal, até gosto de dias de chuva =)

só damos valor às coisas quando pensamos que as podemos perder

.  quando eu era pequena diziam-me que nada se consegue sem esforço, ou que só quando lutamos por alguma coisa é que ela sabe bem.

não é, de todo, verdade. há coisas que quase nos caem no colo e que, nem por isso, têm o seu valor diminuído por terem sido alcançadas de forma mais ou menos fácil. são, simplesmente, acasos felizes – e tão felizes – que nos fazem acreditar que Deus existe, que o destino é uma coisa linda ou que nascemos, realmente, com o dito virado para a lua.

há também quem defenda que só damos valor às coisas quando as perdemos. sou forçada a concordar, uma vez que só me apercebi da importância que tinha para mim a aliança de casada e o anel de curso quando um jovem, de certeza para pagar a prestação ao banco ou para ajudar um necessitado, se lembrou de arrombar uma janela e fazer um tour pela minha casa sem a minha autorização. neste caso, vi como o “vão-se os anéis, fiquem-se os dedos” é uma máxima cheia de sabedoria e com certeza desenhada por alguém que já passou pelo mesmo. mas adiante…

respeito muito a sabedoria popular, pensando mesmo que os ditados e os provérbios se deviam ensinar na escola como se ensinam os nomes dos rios e dos reis: são parte da nossa cultura, na nossa história, da nossa alma enquanto povo e enquanto pessoas. seria uma espécie de “base” para a formação da consciência, um pacote a ser discutido, debatido, analisado. algo que não fôssemos obrigados a aceitar mas que nos fizesse pensar e descobrir os valores e as crenças que são dos outros, de outros, e que podemos querer tomar ou adaptar como nossos.

é por isso que quando me dizem que só damos valor às coisas quando as perdemos franzo um pouco a testa e observo que “só sabemos como as coisas são importantes quando pensamos que as podemos perder”. como quando percebemos que uma amizade que não cultivámos se perdeu ao longo dos anos. como quando vemos que não abraçámos os nossos pais todas as vezes que podíamos. como este verão, quando pensei que alguém que faz parte do meu passado e do meu presente poderia não estar no meu futuro.

hoje apanhei um susto, quando tentei aceder a esta caixa e a vi, por segundos, vazia. por momentos que pareceram uma eternidade vi uma parte dos meus pensamentos escritos, daquilo que me faz e me ajuda a ser “eu”, desaparecer no vazio das redes e das ondas e dos fios. e percebi que este blog não é apenas um conjunto de textos: é o registo de uma parte da minha pessoa, um espaço onde as letras e as palavras me ajudam a descrever aquilo que sou.

“só sabemos como as coisas são importantes quando pensamos que as podemos perder”. é… a partir de agora vou sempre fazer backup 🙂

para memória futura :)

.  No dia 21 de Julho de 1974 os nossos pais decidiram deixar de ser duas pessoas e passar a ser um casal. A partir desse dia formaram uma sociedade, com quotas iguais, que dura há 36 anos.

Mas 36 anos de casados significa muito mais do 36 anos de amor e casamento.

Significa que souberam ser capazes de fazer as pazes de cada vez que se zangaram. Significa que souberam respirar fundo. Que souberam negociar e chegar a acordo. Que souberam ver o que era importante e deixar, para outras conversas, aquilo que não interessava.

Significa que souberam gerir os bens imóveis e os móveis – os filhos.

Sabemos que fomos fáceis de criar – eu nunca amuei, o mano nunca deu noites sem dormir, a mana nunca se zangou 😛 – mas mesmo assim devemos ter dado algum trabalho. Durante grande parte destes 36 anos fomos uma bagagem às vezes um pouco difícil de arrumar.

.Agora, que já somos crescidos, são os nossos filhos que amuam, que não dormem, que se zangam. Estes pequenos milagres – nossos e por isso também vossos – são a melhor maneira de vos demonstrar que ser filho é bom. Que nos deram o melhor do mundo: pais que souberam e sabem ser pais, pais que sabem mostrar o que é o amor.

.Os nossos pais são o melhor exemplo daquilo que um dia poderemos ser. E é por isso que vos agradecemos, todos os dias.

200.9

.  quando a Mariana entrou nas nossas vidas sob a forma de um número, a primeira coisa que fiz – depois de respirar, me acalmar e quase chorar – foi prometer, baixinho, que nunca iria perder a paciência com ela. que não deixaria que as coisas e os problemas do dia-a-dia, e que não faziam parte do mundinho dela nem por ela seriam controláveis, mexessem ou interferissem na forma como nos relacionaríamos. que sempre teria tempo para ela, mesmo que isso implicasse não ter tempo para mim. e que, acima de tudo, a ia amar independentemente do comprimento dos dias e dos escuros das noites.

quando a Mariana chegou às nossas vidas na forma de uma surpresa, um ouricinho tão pequenino quanto exigente, não sabia ainda – nem estava preparada – para todas as mudanças, todas as alterações que trazia com ela.

a Mariana ensinou-me que nem todos os bebés são como os descrevem nos livros. que há aqueles que não dormem 16 horas por dia, que há aqueles que não se acalmam com música, com bonecos, com fraldas. ensinou-me que as relações se constroem aos bocadinhos, em cada toque, em cada olhar. ensinou-me que um bebé pode chorar um dia inteiro e dar o seu primeiro sorriso às 4 e meia da manhã. que cada segundo conta, que cada minuto é importante, que cada hora é cheia de tempo tão breve que sabe a eternidade.

até agora tenho conseguido cumprir a promessa que lhe fiz, promessa que renovo cada dia. estes últimos cinco (quase seis) meses têm sido cheios de música, de sons, de toques. enche-nos de paz, encontrar alguém que responde ao nosso beijo com um sorriso, que adormece quando cantamos baixinho, alguém cujos olhos brilham quando ouve a nossa voz. a quem podemos dizer “gosto de ti” vezes sem conta. e, mesmo que agora a separação doa mais, não me arrependo de lhe ter dedicado cada segundo destes cinco meses da minha vida. porque não é por não nos entregarmos que ficamos mais resistentes. porque não é por a anteciparmos que a dor dói menos.

a Mariana vai crescer e vai chegar o dia em que não vai precisar tanto de mim, eu sei. mas também sei – tenho a certeza – que vou precisar sempre dela.