slow down

.  porque há dias em que sentimos o peso do mundo nos nossos ombros. porque há dias em que não conseguimos entender porque ainda insistimos. porque há dias em que sentimos que a distância entre o choro e o riso não se mede em segundos mas num encher de pulmões.

porque há dias em que nos dizem para abrandar, para sentir, para avançar. porque hoje foi um dia comprido, grande, interminável. e porque ainda só é quarta feira…

por tudo isto e mais tanta coisa, sinto-me cansada.

porque sim

.  por vezes, nos minutos que antecedem o sono, percorro lugares que não visito há muito. sei de cor alguns lugares, as divisões de algumas casas. da casa do meu padrinho – onde passei muito tempo há muito tempo – conheço a entrada, com o banco vermelho ao lado da janela, e a porta grande e branca. o corredor, com o escritório numa ponta e a sala de jantar na outra.

avanço, abro a porta da casa de banho debaixo das escadas (com um espelho pequeno, redondo e alto, ao qual só acedia quando me esticava até doer), depois regresso. sei a cozinha e as escadas que dão acesso ao primeiro andar. e as que dão acesso ao sótão. sei os quartos (seis), os corredores, sei onde o papel de parede lasca e onde estão pendurados os quadros trazidos das viagens mundo fora. sei todos os espaços. tivesse eu os cheiros, e a memória seria completa.

são poucos os lugares que recordo assim, tão bem e tão claramente. uns porque foram mudando, outros porque ainda existem e não há necessidade de os guardar. com esta casa é diferente, sempre foi diferente. talvez porque quem lá habitava era diferente e enchia cada minuto, na sua presença, com relatos de outros lugares e experiências. um homem que atravessava a ria (bestida-torreira) a nado, que já falava e fazia ioga antes do ioga ser moda, que respeitava todos porque era com respeito que todos deveriam ser tratados.

é das pessoa que mais saudades me deixa. gostava que, um dia, alguém pensasse assim a meu respeito.

sobre sorrisos

.  há uns tempos atrás escrevi um post – que depois editei, simplesmente porque gosto de editar aquilo que escrevo – onde falava da importância do sorriso no dia a dia. lembro-me que o comparava a exercício, a algo que fazia bem, essas coisas pseudo-inspiradas e pseudo-inspiradoras.

continuo a defender isso – normalmente defendo o que escrevo 😛 – mas hoje acrescentaria algo mais. o sorriso é algo que nasce de dentro. é um canto sem voz, que começa não se sabe bem onde e que só termina nos olhos. no meu caso, quase sempre em lágrimas.

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hoje não me reconheceram na fotografia que tenho no messenger. um colega meteu conversa, perguntando: “quem é a moça da foto?”, e quando respondi “eu”, disse que não me reconhecia. porque não estava a sorrir.

senti, como já não sentia há algum tempo, que o sorriso não é só meu: é também parte daqueles que convivem comigo, que a mim se habituaram e que comigo contam. e isso, por si só, é já um motivo para sorrir 🙂

sobre a insegurança

.  o facto de ter crescido com dois irmãos mais novos mas mais fortes teve profundas consequências na forma como, hoje, me comporto no dia-a-dia. cheguei a essa conclusão há pouco quando, antes de publicar um comentário a um post, andei à procura de alguém (é sábado, está tudo offline) que validasse e autorizasse a minha mensagem.

não por insegurança relativamente ao conteúdo (era uma opinião, por isso tão válida quanto qualquer outra) ou à forma (tive o cuidado de utilizar maiúsculas), mas por receio de estar a mexer em algo que não era meu. por receio de estar a entrar em território alheio, por receio de querer “brincar” com os mais fortes. e de vir a apanhar por causa disso 😛

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adoro os meus irmãos. na dedicatória da minha dissertação de mestrado, agradeço-lhes dizendo “obrigado por me terem ensinado a crescer”. e ensinaram. à força de porrada, mas ensinaram 🙂

deve ser por isso que, hoje, ouço mais do que falo. leio mais do que escrevo. assisto mais do que participo. devo ter criado algum mecanismo de defesa contra potenciais reacções adversas, ou coisa que o valha.

é, sou uma pessoa marcada por uma infância traumática. agora só me falta entrar num concurso estranho e depois já posso escrever um livro 🙂

manos

it’s nice to be here

.  gosto de bibliotecas. sempre gostei. lembro-me de ler “O Hobbit” (creio que o primeiro livro grande que requisitei), sentada no chão alcatifado daquela sala sem janelas, a cheirar – a sala – um pouco a mofo e a livros velhos. só se podiam levar três livros de cada vez, fazia-se o caminho a pé de casa até à biblioteca (20 minutos em pernas pequenas), e contavam-se os dias até poder fazer nova troca.

lembro-me do som do carimbo a marcar a caderneta (?) e lembro-me de pensar que, um dia, gostaria de trabalhar num local daqueles. um lugar que cheirasse a livros. um lugar onde os volumes conversassem à noite e onde, em cada livro, repousasse um pouco da emoção de quem o leu.

continuo a gostar de bibliotecas. continuam a cheirar a livros antigos, silenciosas, repousantes. continuam a ter os “produtos” ordenados num sistema particular que quebra as harmonias das cores e das alturas dos volumes. continuam a respeitar o espaço de quem as frequenta e que quer, apenas, estar.

se me pudesse sentar de novo no chão… sim, seria perfeito 🙂