sinto falta…

.  … de beber café. não de um, ou dos três que bebo por dia. mas de café, muito café, tanto café.

… de decidir que afinal não vou já para casa e vou antes ao cinema. ou que vou fazer um desvio pela beira-mar.

… dos hamburguers do MacDonalds. dos swirls que servem de almoço. de francesinhas. de fast-food, de farturas, de natas do céu, de algodão-doce. e de pipocas. daquelas que se colam aos dentes.

… de ler na cama (eu sei que há coisas mais interessantes para se fazer na cama, como dormir, mas eu gosto de ler na cama). um livro, com muitas letras e poucas figuras (mas lido na cama, antes de dormir. no sofá ou na casa-de-banho não vale)

… de sair para ver casacos, de passear no fórum. de ouvir música com os fones nos ouvidos. de ver séries, pelo menos uma série.

… de dormir. uma noite inteira. sem que um choro umas vezes mais umas vezes menos meigo me acorde. sem ter de preparar um biberão. sem ter de esperar que o leite arrefeça. sem ter de me levantar.

… de mim.

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tirando isto, não sinto falta de mais nada 🙂

sobre memórias

.  as nossas memórias também estão ligadas aos objectos que fazem – ou fizeram – parte da nossa vida. como objectos que são – esses que nos trazem memórias – são por nós considerados como secundários, frios, coisificados, até ao dia em que os deixamos de ter.

como o meu anel de curso, que os meus pais me ofereceram com tanto orgulho quanto esforço.

como o meu anel de noivado, oferecido pelo meu marido no dia em que, finalmente, acedeu a casar comigo.

como a minha aliança de casamento.

como o anel de noivado da minha mãe, uma jóia que eu usava com tanto orgulho quanto devoção.

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quando assaltaram a minha casa – umas semanas antes da Mariana ter nascido – não invadiram apenas o meu espaço. não me deixaram, apenas, com uma sensação de violação. não desfizeram, apenas, a ideia de invulnerabilidade que todos temos, em maior ou menor dose. não roubaram, apenas, ouro.

levaram com eles pedaços das memórias que fazem a minha vida.

e isso não lhes perdoo. e isso não esqueço.

e isso dói.

quando eu for grande

.  quando eu for grande quero reunir os meus amigos e a minha família na mesma festa de anos. quando eu for grande, quero rir às gargalhadas sem me preocupar se inclino a cabeça demasiado para trás. quando eu for grande, quero poder sentar-me no chão, em cima da mesa e no lancil do passeio.

quando eu for grande quero apontar para as núvens e dizer que tanto consigo ver a água a condensar-se como um coelho a fugir de um ovo gigante. quando for grande quero não ter vergonha de dizer que gosto quando o chocolate se derrete nos dedos, porque os dedos de chocolate são o chocolate mais gostoso que existe.

quando for grande quero dizer que ainda gostava de escrever cartas ao pai natal e que, se dependesse de mim, todos os animais abandonados dormiriam debaixo da minha cama.

quando eu for grande quero  fazer estas coisas todas.

mas ainda sou pequenina 🙂

por ela

.  ultimamente ando um pouco repetitiva. mais conversa menos conversa, mais post menos post, acabo por falar da Mariana com aquele entusiasmo e aquela dedicação que – não duvido – deve levar o meu interlocutor a considerar-me, no mínimo, idiota.

enquanto que na oralidade me contenho e só falo quando me perguntam (e aí é como uma barragem a descarregar água), na escrita a coisa é mais difícil. ora isto é, no mínimo, idiótico… é que sempre disse que não queria ser daquelas pessoas cujo mundo e universo e arredores andava à volta de uma criança. queria ter espaço para o resto, para outros interesses, para outros desafios.

e tenho. leio, escrevo, discuto, falo sobre redes e identidades, mas não posso negar que, no fim no fim, vai tudo ter a ela :).

se estou num dia menos bom, penso que dali a pouco tenho a Mariana nos braços. se estou triste penso nos minutos que faltam para sentir o cheirinho dela. se não me apetece almoçar nem jantar digo para mim mesma que ela ainda precisa da minha energia. se me questiono se valerá a pena todo o esforço nos estudos, penso que quero que ela tenha orgulho em mim.

são estes pensamentos que enchem o meu dia de sorrisos e os meus olhos de humidade. quando chego a casa e ela olha para mim – e, invariavelmente, começa a chorar pelo meu colo -, é como se num instante todo o dia se desfizesse e só aquele momento interessasse. pegar nela, cheirá-la, encostar a sua cabeça ao meu pescoço, são gestos que faço todos os dias e que, mesmo assim, continuam únicos.

esta coisa de ser mãe tornou-me um pouco idiota. deve ser por isso que me emociono com imagens como a que está no final do post. e que é tão verdadeira. porque quer tenhamos ou não a certeza de estarmos no bom caminho percebemos que, no fim de contas, sabemos bem porque o percorremos. mesmo que pareçamos idiotas. mesmo que sejamos repetitivos. é que, por ela, vale tudo.

a diferença entre ser inteligente e ser esperta

.  há uma diferença entre ser inteligente e ser esperta.

independentemente dos diferentes tipos de inteligência (académica, emocional, etc etc etc), do meu ponto de vista todos partilham um atributo comum: são assentes na gestão, na reflexão, na consciência. têm a ver com organização, método, limpeza. a esperteza, pelo contrário, tem a ver com sobrevivência.

enquanto que a inteligência é um dom, a esperteza – seja ela saloia ou de primeira classe – é uma competência: podemos nascer sem ela mas, a qualquer altura da vida, podemos investir e trabalhar até ficar esperto. ficar, não ser. é-se inteligente, aprende-se a ser esperto.

os meus pais sempre trabalharam no sentido de desenvolver, em cada um dos filhos, o dom da inteligência (intelectual, emocional) com que cada um nasceu. deviam, pelo contrário, ter-nos ensinado a ser espertos.

os meus pais, quando eram crianças, eram pobres. a minha mãe, em particular, era muito pobre. aos dez anos teve de saír da escola para ir trabalhar (chamava-se “servir”) para casa de desconhecidos e, desta forma, poder ajudar a família. aos três filhos – eu, o meu irmão e irmã – ensinou sempre o valor do trabalho e do esforço, e crescemos com a consciência de que tínhamos o privilégio de estudar e crescer com coisas e experiências que ela nunca teve.

nunca recebemos – NUNCA – quaisquer recompensas ou incentivos por termos boas notas. sempre nos exigiu o cumprimento das tarefas domésticas e o respeito pela hora das refeições mesmo quando estávamos em época de exames ou provas. ensinou-nos o valor do tempo, da organização, do definir prioridades. ensinou-nos que não nos devemos vender por cargos, por posições, ensinou-nos a andar de cabeça levantada por não devermos nada a ninguém.

são valores importantes, que ficam. a nossa vida sempre se regeu pela inteligência, pelo respeito pelo outro, pela dignidade. ainda hoje somos incapazes de colocar um papel no chão, nem que seja preciso andar dez metros até achar um caixote do lixo. ainda hoje damos lugar a pessoas de idade, mesmo que elas não o peçam. ainda hoje pedimos “por favor”, dizemos “com licença” e “obrigada”.

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os meus pais sempre cultivaram, em nós, o dom da inteligência.

acho que, agora, está na altura de aprendermos a ser espertos.