Numa noite igual às outras


. Numa noite igual a tantas outras levanta-se baixinho,
afastando sem um ruído o sono que ainda não dormiu.
Percorre a casa em silêncio, de olhos fechados,
sorvendo de cada porta entreaberta
o respirar leve dos sonhos de quem já descansa.

Precisa de si. Precisa de ser.

Recolhe em gestos lentos um livro aberto e embrulha-se,
no tempo de um sopro,
na manta que cheira a quem ama.

Respira. Inspira.
Sonha. Sonha-se.

E por breves instantes, tão breves que quase não são,
passa a mão pelo rosto numa memória antiga que a leva ao tempo
em que o eu era tudo, e o nós uma ideia em que ainda não pensava.

Do quarto chegam os murmúrios que o silêncio torna maiores.
O momento passou.
Num tempo mudo de sons,
atravessa os metros que vão d’ela-eu a ela-nós e procura, com um pé,
o calor quente do corpo que dorme tranquilo.

Sorri.
E adormece em paz.


6 de novembro

. Hoje faz um ano que morreu um homem bom. Um ser não-perfeito, teimoso, com falhas como todos os seres. Mas um pai fantástico, um avô orgulhoso, um bom amigo.

Sinto falta dele, todos os dias, como nunca pensei sentir falta de alguém com quem não cresci. Mas é(ra) daquelas pessoas que deixam a sua marca por onde passam. Não a forçam, não a impõem, mas deixam.

Sinto a falta do meu sogro. Do homem que me trazia castanhas e medonhos que roubava pelo caminho; do homem que dividia comigo as bolachas de baunilha, porque eu não gostava do creme e ele não gostava da parte da bolacha que não o tinha. Do homem de dedos grossos, a escolherem as maiores e melhores castanhas para me dar. Do homem que me trazia, sexta sim sexta não, uma sandes de leitão só porque sabia que eu gostava. Do homem que, quando pensou que eu estava grávida, correu a Costa Nova à procura de caranguejos, só porque eu disse que me apetecia.

Sinto a falta do avô da Mariana. Do avô orgulhoso, inchado, que dizia “a minha neta” como quem dizia um poema. Que chamava “Mariana, ó Mariana!” de cada vez que aparecia em casa. Do avô que se embaraçava a contar histórias e que raramente pegava na neta ao colo, mas que a colocava no trator e a deixava fingir que conduzia; do avô que se molhava todo, só para a deixar regar.

Sinto a falta do meu amigo das manhãs de sábado, aquelas em que conversávamos enquanto se descarregava a lenha; ou se acarinhava a fruta; ou se podavam as árvores. Do amigo que plantou uma amora no meu jardim só porque eu gosto de amoras, e que fez um espantalho que não assustava ninguém só para afastar os pardais que nos comiam as cerejas.

Sinto falta de todos eles. Sinto falta dele.

Muita.

Hoje faz um ano que morreu um homem bom.

E a vida continua.

Tanta coisa para e por dizer…

… e tão pouca vontade de o fazer.

Os dias vão passando, devagar ou depressa, calmos ou agitados, um de cada vez. No tempo que separa o tempo em que escrevia quase sempre deste agora, em que escrevo quase nunca, muita coisa se transformou.

Aprendi que se pode amar exclusivamente e em dobro, num amor que são dois ao mesmo tempo: a Mariana, o amor que me enche a vida de uma alegria que quase dói, e a Margarida, com a sua doçura calma, um anjo que nos veio dizer a todos que a vida continua. Sou mãe duas vezes, amo duas vezes, multiplico-me duas vezes. E sou feliz duas vezes. Junto delas volto a ser eu – tal como sou e não como a “vida” me leva a ser. Elas são o meu chão e o meu céu, as minhas raízes e os meus ramos, são o meu tudo. Nunca fui tão “eu”.

No meio de todas as caixas grandes e pequenas que carrego, aprendi a encaixar mais uma: o avô das minhas filhas é uma falta que se sente todos os dias. Continuo a chorar, sobretudo quando as vejo a rir, nesta felicidade incompleta que dá vida e dói ao mesmo tempo. O  post do SAPO Campus, escrito no ano passado no Algarve numas férias com os avós que “sendo as segundas, sabem a primeiras”, será o último. Pelo menos até ao dia em que já seja capaz de sorrir de saudade, em vez de chorar de dor.

E assim correm os dias, um de cada vez. Calmos ou agitados. Devagar ou depressa.

Tal como deve ser.

A caixa

. Este espaço não se chama “A Caixa” por acaso. Há alguns tempos que – de tão distantes – se tornaram anos, escrevi num outro espaço que

“a minha casa está cheia de gavetas, e as minhas gavetas cheias de caixas. em cada caixa de cada gaveta desorganizo as minhas memórias, as minhas lembranças e e tudo o que pretendo esquecer, o importante e o dispensável: uma vez por outra, abro uma gaveta, tiro uma caixa, e admiro-me com a quantidade de coisas que fugiram para lá…

tenho caixas de madeira, pequenas, para os bilhetes de autocarro das viagens inesquecíveis, para os de cinema das sessões que marcaram aqueles 120 minutos da minha vida, e para as tampas das garrafas bebidas em boa companhia.
tenho caixas de cartão para as fotografias – que me recuso a pôr em álbuns, organizadinhas por datas ou acontecimentos; para os negativos e os rolos ainda não revelados (gosto sempre de ter fotografias por revelar… gosto de tentar adivinhar que imagens estarão gravadas naquelas películas); para os desenhos mal-amanhados, feitos num bocado de papel roubado à toalha do restaurante… para os versos sem rima, ou para as rimas sem verso…
por tudo isto adoro as gavetas e as caixas que estão lá dentro… porque como não são organizadas, nem catalogadas, nem identificadas, cada dia que passo numa delas é uma surpresa.
e o melhor não é o lugar onde se quer ir, mas sim o caminho que se fez para lá chegar.”

Já nessa altura escrevia em minúsculas, coisa que gostava e ainda gosto mas que, à força da persistência, acabei por abandonar.

Este espaço é uma caixa cheia de caixas, cheias de memórias que correspondem a um período de crescimento nem sempre fácil. Na escrita como na vida, arrumo as coisas em caixas, compartimentos, para conseguir manter a sanidade suficiente para continuar. Só assim se consegue viver, não é? Quando não se consegue ultrapassar, aprende-se a gerir. A arrumar. A ordenar.

Este ano foi pesado. Sinto-me amassada, moída. Foi um ano tão pesado que, se não fosse a luz da Mariana e o (ainda) pequeno brilho da Margarida, seria um ano em que teria desistido. De tudo ou quase tudo. Mesmo daquilo que gosto de fazer.

Agora resta esperar. Aguardar. Não desistir só porque estou “na curva da estrada”, ainda que me sinta nesta curva há mais tempo do que aquele que deveria estar.

Não estou triste. Estou cansada. Muito cansada.

É. Está na altura de criar novas caixas. Tenho muito que arrumar.