sobre o amor

.  O nascimento de um filho muda-nos de uma forma que se vai percebendo ao longo do tempo. Depois daquelas coisas básicas como a luta com a alimentação, as horas de sono, o incutir de rotinas… depois dos dentes, e dos choros, e das birras, e de tudo… depois disto, ou ao longo disto, percebemos que mudamos.

E é uma mudança tão boa, uma coisa tão grande e tão autêntica que quase se pode dizer que, com o crescimento de um filho, também nós aprendemos a crescer. Um filho é uma oportunidade de nascer de novo, de viver uma nova infância mas agora de forma mais consciente e plena.

A Mariana – 9 quilos e pouco de gente – mudou tanto, mas tanto a minha vida, que não há formas de descrever o que eu era antes e o que eu sou agora. E sentir o calor daqueles olhos que não são castanhos nem verdes, e receber aquele sorriso cheio de dentes pequeninos, e deixar-me envolver naquele abraço tão pequeno que consegue abarcar o mundo… é uma coisa pela qual vou ficar grata o resto da minha vida 🙂

post politicamente incorrecto

.  Gosto da minha sogra.

A minha sogra é uma pessoa fantástica. Humilde, trabalhadora, generosa, daquelas pessoas que não esfrega na cara dos outros o que tem, mas que em cada dia mostra o que vale. A minha sogra, dentro da sabedoria que lhe deu a vida e para a qual a escola só contribuiu com seis anos de “ensino”, tem uma frase que vale ouro mas que demorei a compreender: “Estou farta desta merda”.

Só isto. Diz isto quando, no Verão, as notícias sobre os incêndios enchem e preenchem os noticiários de hora a hora. Diz isto quando o bolo, pela décima vez, teima em não crescer. Diz isto quando, à hora de jantar, as notícias repetem até à exaustão coisas sobre a austeridade, e o IVA, e os políticos que se enchem e o país que está mau. E, quando diz isto, di-lo com a consciência de que sim, que estamos mal. Que sim, que não vamos ficar melhor. Mas, simplesmente, está farta que lhe repitam isso.

Gosto da minha sogra e, sobretudo, admiro-a. Talvez pela sua capacidade de gerir, pela sua generosidade, pela maneira como levanta a cabeça sem medo de enfrentar as coisas más que estão para vir. Ou, talvez, porque também eu “estou farta desta merda”.

coisas de que gosto

.  Gosto de imaginar que os livros acumulam as ideias e os sentimentos das pessoas que os lêem e que, por isso, quanto mais velho for um livro mais emoção consegue transmitir. Gosto de pensar que os livros que tenho no quarto (e que foram escolhidos a dedo e a letra) se abrem durante a noite e que as suas ideias e palavras percorrem o ar enquanto eu durmo. E que é por isso que os meus sonhos têm cores e sinto cheiros e texturas, e que é por isso que, num ou outro sono, sonho com pessoas que nunca conheci.

E gosto de imaginar que, quando sonho com um desconhecido ou conhecido, esse (desconhecido ou conhecido) também sonha comigo. E que, num dos milésimos de segundo que dura o sono, nos encontrámos no mesmo espaço que não é físico e vivemos algo juntos. Algo que recordamos, mesmo sem saber o quê, quando nos encontramos acordados e dizemos “eu conheço-te de algum lado, não conheço?”.

Gosto de imaginar que  há coisas sem nome, ainda à espera de serem. E que os sons que não são palavras são as ideias no seu estado mais puro. E que, se nos esforçarmos um pouco enquanto fechamos os olhos, seremos capazes de conhecer mais do que aquilo que os olhos captam. E que poderemos, enfim, compreender que o mundo e a vida se definem por mais do que as coisas e as palavras que já existem.

Que estas são apenas uma pequena parte, aquela que já foi descoberta.

E que, nos sonhos, temos muito mais para descobrir.

as pequenas coisas que me fazem sentir grande

.  a vida não se compadece dos sentimentos nem das emoções. os dias que se sucedem uns atrás dos outros não esperam para que possamos, por dois ou três segundos, parar para poder sentir. não há tempo nem quase espaço para nos deixarmos aquecer pelas pequenas coisas que tornam grande a nossa vida.

é por isso que dou graças, a Deus e a quem tornou isto possível, pelos dias e noites em que me vou fazendo mãe. o primeiro sorriso da Mariana? recebi-o, num segredo de madrugada, quando o cansaço quase anulava a felicidade que quase temia sentir. a primeira palavra – “mamã” – , ouvi-a da boca dela. e a segunda – “papá”, também.

estive lá da primeira vez que se sentou. da primeira vez que brincou no banho. da primeira vez que comeu sozinha. da primeira vez que gatinhou. e, os primeiros passos que deu – sem apoio e sem ajuda – deu-os em direcção a mim.

ser mãe é um privilégio. uma vida dentro da vida. uma coisa cheia de pequenas coisas.

sou feliz 🙂