sentimentos

.  “Não devemos deixar de demonstrar os nossos Sentimentos Hoje…porque amanhã pode ser tarde demais…”

li esta frase num fórum que sigo há mais de cinco anos, e no qual não tenho participado por falta de disponibilidade (não tenho tempo. ponto. continuo a participar via msn ou facebook, mas não tenho tempo para ler os tópicos com a atenção que eles merecem). um fórum que é uma autêntica comunidade, onde as pessoas são acolhidas, bem tratadas, apoiadas, e onde – se a vida assim o deixar – passam a acolher, a bem tratar, a apoiar.

não sei em que curva da estrada a humanidade decidiu que os sentimentos eram exposição, que manifestar o que vai na alma é sinal de fragilidade. contextualizaram excessivamente expressões como “amo-te”, frases simples como “gosto de ti”. e passou-se a enviar abraços em vez de beijos, e a acenar em vez de distribuir abraços.

isto custa. custa-me. e é por isso que admiro (e imito) as crianças quando dizem “gosto de ti”, quer seja a amigos quer a pais e mães, quer a coisas ou criaturas pequenas ou grandes.

porque naquele “gosto de ti” conseguem incluir o afecto, a ternura, o carinho que se experimenta pelas criaturas por quem sentem empatia. porque gostar nem sempre é amar. porque, às vezes, gostar é apenas isso.

a minha mãe

.  a minha mãe tinha 10 anos quando começou a trabalhar.

no dia em que passou no exame da 4ª classe, com distinção e louvor, tinha à espera dela – à porta da escola – um carro quase novo. não era nenhuma prenda por ter terminado os estudos, nem mesmo o meio de trasporte para o jantar de comemoração do sucesso minutos antes obtido.

no dia em que terminou a 4ª classe, a minha mãe partiu no carro que a levaria à casa onde, com 10 anos, começou a trabalhar como gente grande. 10 anos. responsável por uma casa que não era a dela, cozinhando para uma família que não era a sua, chorando de saudades, à noite, numa cama que não conhecia.

quando a minha mãe fez dez anos e terminou a 4ª classe, a minha avó abraçou-se a ela a chorar. de tristeza. de saudades. porque a filha tinha dez anos e tinha passado no exame da 4ª classe e, agora, ia para longe, ganhar o dinheiro que em casa não havia.

dez anos.

deve ser por isso que entendo a revolta dos jovens de agora mas não consigo aceitar quando dizem que vivem pior que os pais. porque a minha mãe terminou a escola aos 10 anos, e eu estudei até aos 21. porque ela foi trabalhar a sério quando terminou a 4ª classe, e eu só soube o que era um horário de trabalho quando fiz 16 anos. porque ela era uma criança quando teve de sair de casa, e eu só saí aos 25.

o futuro é incerto, está difícil, há contas para pagar e pouco dinheiro para o fazer. aceito que me digam – porque eu também digo – que devemos estar preocupados com os tempos que aí vêm.

mas não aceito que me digam que estamos pior que os nossos pais.

porque a minha mãe começou a trabalhar com dez anos.

coisas

_ podes casar aos 25. podes ter uma filha aos 34. podes mudar de emprego aos 35. mas se dizes à tua mãe que queres cortar o cabelo, a resposta é sempre a mesma: “Mónica Sofia, lembra-te que já não tens 20 anos!!!”

eu sei, mamã. eu sei 🙂

sem título

_ admiro o Pedro Tochas. já fui a três espectáculos dele e, por isso, sei um pouco do que a casa gasta: se abusarmos nos comentários podemos virar motivo de gozo o resto da sessão, se estivermos na primeira fila (e eu já estive) podemos ser atingidos com objectos ou ser convidados a subir ao palco, se sairmos a meio para ir ao WC, comprar água ou o que quer que seja ele pára o espectáculo e espera – falando nisso – que regressemos à sala.

são espectáculos interactivos, semi-estruturados, com piadas fáceis e difíceis. são espectáculos que tornam suportáveis estar a apanhar pingos de chuva na cabeça, enquanto se ouve um “é men (expressão de guerra), esta sala é das melhores onde já actuei”.

quando, no final de uma sessão, fica na sala para “responder e falar convosco sobre o que quiserem”, dá ao público a possibilidade de falar com o artista – não o personagem – que tem orgulho em ser palhaço. que gosta do que faz. que gosta de correr mundo, viajar, que gosta de actuar na rua e receber moedas pelo seu trabalho. que trabalhou para  a Frize, é certo, e que “nunca tanta água se vendeu às custas de um gajo como eu”.

não é (só) pelos espectáculos que gosto dele. é, sobretudo, pela paixão que coloca naquilo que faz, o amor que tem à sua arte. é coisa que se nota, que se sente, que se respira. é coisa que (quase) contagia.

e é isso que me falta.

paixão. amor tenho, e de sobra: pela Mariana, pelo papá dela, pela minha família, pelo mundo em geral e pelas flores em particular. mas falta-me paixão. aquela quente, que mexe, que motiva, que faz avançar. aquela agitação que nenhum copo (ou copos) de café consegue substituir.

por isso vou procurá-la. à paixão. que não pode ser só de escrever mas tem também de ser. de sentir. de viver.

quando a encontrar volto. até lá, fiquem bem. e leiam livros 🙂