Dia 40


. Hoje a manhã acordou com chuva.

E houve a escola desde as nove, e os trabalhos recebidos no e-mail da mãe, e um teste de video-chamada, e fichas para fazer. E foi preciso insistir para que uma ficha cheia de “um, um, um, um” fosse terminada em tempo útil.

A Magui continua a não gostar de fazer cópias, e vai buscar à terceira costela do lado direito aquelas lágrimas gordas que apresenta quando está a avisar “mais dois minutos e faço birra”. E é preciso aplacar a fera antes que ela se solte. E é preciso tirar os fones e dizer “anda lá que a mamã ajuda”. E respirar fundo (tão, mas tão fundo) para manter o tom baixo mas firme a que estão habituadas.

A cada hora, a cada minuto, esforço-me por recordar que a vida delas também mudou.

De um dia para o outro foram-lhes retirados colegas, amigos, professoras, sala de aula, recreio, bilhetes, flores, beijos, esfoladelas. De um dia para o outro passaram a aprender em casa, por folhas e fichas. De um dia para o outro, passaram a usar internet para aprender e não para brincar.

E a cada hora, mas não a cada minuto, tenho de lhes ir lembrando que do lado de cá (dos pais, dos professores) a coisa também está diferente. Que já não temos as oito horas seguidas de trabalho. Que nos faltam os colegas, os amigos, as flores e até alguns beijos.

Hoje cumprimos cronologicamente a quarentena. São quarenta dias em casa, a tentar gerir o que se consegue e a resolver o que é possível.

À tarde, quando o sol abriu, mandei-as para fora brincar.
“Mas está molhado!”, “Calcem botas”.
“Mas está frio!”, “Vistam casaco”.

E saíram para brincar. E por meia hora o alpendre foi o recreio, e houve risos e brincadeira, gargalhadas e um joelho esfolado que se tentou esconder do pai.
E o Mimos, que toda a tarde se perguntou porque é que hoje ninguém brincava com ele, descansa agora cansado e pede para ir dormir 🙂

Não está a ser fácil gerir tudo, não vai ser fácil gerir tudo.
Vamos indo, um dia de cada vez, adaptando-nos às novas realidades que vão surgindo.

Hoje foi a Telescola.

Amanhã… quem sabe?

Dia 39


. Domingo, acordamos todas antes do papá.

“Venham cá, que vos quero tirar uma foto. Já não tiramos uma há muito tempo”

E elas fizeram a pose, e fizeram beicinho (acho que é assim, nas poses, que se percebe que a filha está a crescer). E quiseram ver como ficou, “oh mãe, eu fiquei despenteada”, e “podemos tirar outra?, por favor diz que sim”.

E enquanto percorriam as fotos tiradas, a ver qual ficava melhor, percebi que elas estão bem. Que estão a aguentar isto como mulheres, reconhecendo o que sentem falta e ajustando a vida para tudo o resto que continuam a ter.

Estão a aguentar-se bem.
Não viraram as costas à mudança, enchem o peito de ar e dizem “podes ligar a câmara”. Saltam de um trabalho ou de uma aula para outra, respiram fundo, e continuam.

Não sei como vai ser o futuro, ninguém sabe.

Mas, pelo menos para já, estão a conseguir lidar muito bem com tudo isto.

Dia 38


. Não sei se é de ter acordado cedo, ter estado com o Mimos, ter voltado para casa e (porque era mesmo muito cedo) ter ficado meia hora a re-adormecer no sofá.
Não sei se é por ter mudado os lençóis, ter lavado as toalhas. Ou se é por ter estado um dia bom para secar roupa.

Não sei se é por ter visto as duas garotas a falar com as professoras de música, a tentar desbravar – tão mais cedo que a mãe – este mundo do ensino que agora se faz à distância.
Não sei se é por ter ouvido a Magui a dizer à professora que o melhor da Páscoa foi ter recebido um cão, ou se foi por ter escutado a Mariana enquanto tocava flauta de uma forma quase perfeita.

Não sei se é por ter a casa limpa, as miúdas de banho tomado. Não sei se é por estar cansada dos sábados que cansam o corpo mas aliviam o espírito, não sei se é por a cozinha cheirar a pão.
Não sei se é por faltar pouco para ser noite-noite, e daqui a nada estarmos as três no sofá a ver Vaiana e a comer pipocas.
Não sei se é por ter morangos. Se é por abrir a porta do frigorífico e ver as coisas adiantadas para a semana. Se é por ver que, felizmente, do que é preciso nada falta.

Não sei se é por ter acordado cedo, se é por ter estado um dia bom para secar roupa, se é por lhes ter lavado os cabelos ou por sentir que hoje cuidei dos meus.
Talvez seja por tudo isto.
Não sei.
Mas sei que agora, quando o dia se despede e a noite chega,
sinto o coração cheio de luz

Dia 37


. “Mãe, anda brincar!”
Agora não, não dá. Tenho trabalho para fazer, preciso aproveitar a manhã, daqui a pouco são horas de almoço e aí, então, paramos.

“Mãe, anda cá para fora brincar!”
Agora não, não dá. Venham para dentro almoçar, daqui a pouco são duas horas, ainda queria pôr roupa na máquina e nem sei se hoje volta a chover.
Espera só mais um bocadinho. Só me faltam três pontos deste texto, mais uma hora e fica fechado, e se parar agora amanhã tenho de voltar a fazer quase tudo de novo.

“Mãe… anda brincar!”
Já fizeram os trabalhos? Está tudo feito, ficou alguma coisa para amanhã?
Amanhã há música às nove, vais aprender a usar o moodle, e à tarde há classe de conjunto. Estamos em casa, mas agora a casa é a escola e temos de ter as coisas em ordem para ter tempo para fazer tudo.

“Mãe, anda cá para fora só um bocadinho…”
Está bem, vou.
Está sol, parou de chover e daqui a nada chove de novo, e preciso aproveitar este tempo em que estamos juntos. Saio de casa, ando de baloiço. O Mimos corre atrás da bola, a Mariana corre atrás do Mimos, a Magui quer sentar-se ao meu colo e eu rio enquanto vejo os meus pés a subir em direção ao céu.

“Mãe, ficas cá fora connosco?”
Não dá… preciso mesmo acabar aquele trabalho, para mais tarde poder estar convosco.
Já são quase horas de jantar, hoje é buffet. “quem quer massa com carne? quem quer massa com atum?”
Não janto com eles, vou antes tomar um banho, o corpo dói de ter estado sentada quase todo o dia e a cabeça estoura de tanto pensar.

O alívio que normalmente se segue ao ter uma tarefa fechada ainda não encontrou o seu caminho, perdeu-se entre o fazer jantar e o “vai já lavar as mãos”, entre este fim de dia e início de noite.
Estou cansada, e dói-me a cabeça.

Mas hoje andei de baloiço, e vi os meus pés tocar no céu 🙂

Dia 36


. No primeiro dia que passámos em casa a Margarida fez a mala.
Pegou na mala de cabine e colocou lá dentro tudo o que considerou importante colocar: mudas de roupa, calçado, bandoletes; um boneco; verniz laranja e roxo; perfume, escova, e um saco com pipocas para micro-ondas.
Disse-lhe que não entendia, que não era preciso e que tão cedo não iríamos sair de casa. Respondeu que sabia, e que assim quando se pudesse sair/quando fosse preciso, já estava pronta.

Confesso que por vezes me assustam estas convicções de gente ainda tão pequena. Parece que sabem mais que nós, que anteveem o futuro, que têm um sétimo sentido ainda não desbotado pela idade que os deixa ver um pouco mais além.
Nesse dia, nessa primeira semana de um tempo que não se sabia – e ainda não se sabe – quanto iria durar, fiquei a pensar nesta ideia de estar preparado, de ter consigo tudo o que se precisa para continuar noutro lado qualquer.

Hoje o dia foi relativamente tranquilo, e correu melhor do que eu esperava: três birras e dois amuos, pouco mais. Uma vontade de terminar todos os trabalhos, um querer fazer as coisas bem feitas. Um escrever, apagar, voltar a escrever.
Ao início da tarde, unhas pintadas e “mãe, faz-me uns totós”. Na parede ao lado da mesa de trabalho, a foto dos amigos e os desenhos de figuras onde se leem alguns nomes: Lara, Rodrigo, Margarida… obra do quinto dia quando, percebendo que não voltaria à escola e não encontrando a foto de turma, pegou numa pasta de trabalhos manuais e reconstruiu, na parede do quarto-escritório, a companhia de todos os dias.

Hoje a Magui teve a sua primeira aula online. Viu os amigos, contou-os, disse “ainda falta um”, pôs a mão no ar para responder, disse “professoooooora, ó professoooooora” quando sabia a resposta. No fim, deu-me um abraço do tamanho do mundo e disse “este foi o melhor dia de sempre”. E eu tive a oportunidade de a ver naquele mundo onde se canta o H mudo, onde se passeia na Aldeia dos Tracinhos, onde se aprende com gestos e se festeja a escola com palmas.

Quando elas entraram na Escola, o meu medo era que o formalismo e o rigor lhes retirassem a vontade de aprender. Que lhes secasse a sede de saber mais. Que se sentissem tão apertadas e carregadas que a escola – que para mim sempre fora um espaço mágico – fosse fonte de angústia, medo, preocupação.

É tão, mas tão bom, saber que não é assim 🙂