. No primeiro dia que passámos em casa a Margarida fez a mala.
Pegou na mala de cabine e colocou lá dentro tudo o que considerou importante colocar: mudas de roupa, calçado, bandoletes; um boneco; verniz laranja e roxo; perfume, escova, e um saco com pipocas para micro-ondas.
Disse-lhe que não entendia, que não era preciso e que tão cedo não iríamos sair de casa. Respondeu que sabia, e que assim quando se pudesse sair/quando fosse preciso, já estava pronta.
Confesso que por vezes me assustam estas convicções de gente ainda tão pequena. Parece que sabem mais que nós, que anteveem o futuro, que têm um sétimo sentido ainda não desbotado pela idade que os deixa ver um pouco mais além.
Nesse dia, nessa primeira semana de um tempo que não se sabia – e ainda não se sabe – quanto iria durar, fiquei a pensar nesta ideia de estar preparado, de ter consigo tudo o que se precisa para continuar noutro lado qualquer.
Hoje o dia foi relativamente tranquilo, e correu melhor do que eu esperava: três birras e dois amuos, pouco mais. Uma vontade de terminar todos os trabalhos, um querer fazer as coisas bem feitas. Um escrever, apagar, voltar a escrever.
Ao início da tarde, unhas pintadas e “mãe, faz-me uns totós”. Na parede ao lado da mesa de trabalho, a foto dos amigos e os desenhos de figuras onde se leem alguns nomes: Lara, Rodrigo, Margarida… obra do quinto dia quando, percebendo que não voltaria à escola e não encontrando a foto de turma, pegou numa pasta de trabalhos manuais e reconstruiu, na parede do quarto-escritório, a companhia de todos os dias.
Hoje a Magui teve a sua primeira aula online. Viu os amigos, contou-os, disse “ainda falta um”, pôs a mão no ar para responder, disse “professoooooora, ó professoooooora” quando sabia a resposta. No fim, deu-me um abraço do tamanho do mundo e disse “este foi o melhor dia de sempre”. E eu tive a oportunidade de a ver naquele mundo onde se canta o H mudo, onde se passeia na Aldeia dos Tracinhos, onde se aprende com gestos e se festeja a escola com palmas.
Quando elas entraram na Escola, o meu medo era que o formalismo e o rigor lhes retirassem a vontade de aprender. Que lhes secasse a sede de saber mais. Que se sentissem tão apertadas e carregadas que a escola – que para mim sempre fora um espaço mágico – fosse fonte de angústia, medo, preocupação.
É tão, mas tão bom, saber que não é assim 🙂