inquietudes


.  Acordei inquieta. Não sei explicar porquê, não quero pensar nisso, não tenho vontade de tentar saber. Acordei inquieta. E é tudo.

O António falava, como poucos o souberam fazer antes ou depois, deste estado que nos enrola e se enrola no peito e traz, aos dedos e aos lábios, a vontade de fazer algo que ainda não sabemos bem o que é. Uma vontade de olhar para o lado, de tentar ser super-homem e ver mais além do que as paredes e as nuvens que nos limitam o horizonte.

Inquietude.

Começa no peito, não é? Assim como uma coisa. Orgânica. Feita de vontades e desejos daquilo que ainda não se sabe mas que já se sente.
E depois passa para os ombros. Gosta das curvas, a inquietude (talvez seja por isso que nós, mulheres, somos mais inquietas e inconstantes que os homens: amamos a curva e a descida súbita, como se – na vertigem da curva e da descida – conseguíssemos gritar aquilo que nos consome).
E passamos a mão pelo cabelo, e detemos os dedos no pescoço (como a carícia que desejamos não sabemos de quem), e mordemos os lábios por dentro enquanto o nosso rosto – e o nosso corpo – se mantém sossegado escondendo, nesse sossego, a agitação que sentimos por dentro.
Agitação. É isso.
Será?

(cerro as mãos com força. nunca, mas nunca, deixarei que a inquietude que me arde passe para as teclas que tenho debaixo dos dedos)

Respiro fundo. Respiramos. Respiremos, portanto.
E elevemos os olhos com a tranquilidade que sabemos ter quando é preciso, e respondamos com sorrisos, e sejamos afáveis e cordiais.
A inquietude, essa – aquela que se enrola no peito na vontade de fazer ainda não se sabe o quê – fica. Sempre. Como o segredo que guardamos e que nos faz, a nós mulheres, ser diferentes de todos os outros.

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(David Fonseca. Um outro inquieto. Aposto)


[num livro que li, diz-se para mantermos apenas aquilo que brilha, aquilo que nos traz alegria. “Inquietudes”, não sendo um post do coração, foi um post de emoção. escrito num daqueles momentos em que só nas letras seria capaz de acalmar a agitação. “Inquetudes” é um post de Maio de 2012 e está aqui porque é a super-nova, o post que catalizou tudo, o post que deu origem a conversas e abriu olhos a outras possibilidades. “Inquietudes” foi publicado originalmente na Obvious em Maio de 2012, e é a prova que quando consigo canalizar o caos que cresce em mim… coisas giras podem acontecer 🙂 ]


vamos envelhecer juntos?


. Vamos envelhecer juntos?
Quero experimentar, contigo, todas as coisas boas e más que a vida tem. Saborear o mel e o fel, rir e chorar quando tiver(mos)vontade, cansar e descansar quando sentirmos que é preciso.

Vamos envelhecer juntos?
Quero fazer, contigo, uma vida que já não é a minha e também não é a tua. Quero usar “nosso“, “nossa“, quero que “sejamos“. Quero reservar lugar “para dois“. Quero criar um novo espaço, onde eu e tu sejamos nós.

Quero envelhecer contigo.
Para trocarmos, um com o outro, as declarações inflamadas dos 16 anos; e os amores certos dos 20; e as dúvidas e as crises dos 30. E a serenidade dos 50.
Quero ser, contigo, a avó dos nossos netos. Junto a ti, um rosto cheio de rugas.
E ver, nos teus olhos ainda que turvos, as memórias que guardarei no fundo dos meus.

Vamos envelhecer juntos. Um dia, três dias, cinco, um cento.
Duas pessoas que são uma e que se repetem, num futuro, nos passos pequenos dos que virão depois.

Quero envelhecer contigo. Queres envelhecer comigo?



[“vamos envelhecer juntos?” chamou-se inicialmente “declaração de amor”. no dia-a-dia, é fácil perder a noção daquilo que é importante; o olhar embota; as rotinas tornam vulgares o que é especial. Esta declaração de amor nasceu quando, ao olhar para a Mariana e para a bisavó – amparando-se mutuamente, uma segurando e segurando-se na outra – pensei (senti) que é assim que a vida tem de ser vivida. em longitude, ao longo dos dias, ao longo do tempo. “vamos envelhecer juntos?” foi publicado originalmente na Obvious, em Julho de 2012]


A vida à superfície


. Se um dia me pudesse sentar contigo, por dois segundos que fossem – tirados de um tempo que, não sendo já teu nem meu, seria por fim o “nosso” – dir-te-ia que nem tudo se mede e classifica, e que não é preciso uma tabela ou um dicionário para encontrar significado para tudo o que a vida encerra.

(a vida. um presente. o tempo presente. dois segundos que qualquer coisa que ainda não está resolvida e que, sem ser o que já foi nem o que ainda poderá ser, nos define durante um espaço e um tempo que não se voltam a repetir)

E se me pudesse sentar contigo nesse momento que seria só nosso, repetir-te-ia vezes sem conta que “o essencial é invisível aos olhos” e que, para saberes e te saberes, terás de ir mais fundo e olhar com mais atenção para tudo o que te rodeia e que – de forma mais ou menos acertada – te define e te contextualiza.

E dir-te-ia que a vida é mais do que esse conjunto de listas e categorias que adoras. Que nem tudo o que conheces e o que virás a conhecer pode ser guardado numa dessas caixas ou gavetas que carregas contigo e que te ocupam espaço, e que há coisas que, não tendo razão de ser, simplesmente são.

Deixa as listas. O que tens feito e o que ainda tens por fazer. Deixa os planos, e os esquemas, e as normas e as condutas. Deixa. Deixa-te.

Aproveita estes dois segundos de presente, tão únicos e irrepetíveis que – ainda que tu queiras e eu queira – nunca mais voltarão a acontecer. São o meu presente para ti.
Dois segundos que te entrego e em que desapareço, para que possas ganhar espaço e tomar, como teu, o tempo e o espaço em que estás agora. Para que respires. Para que te (in)definas.
Para que sejas capaz de olhar mais fundo e mais longe do que aquilo a que te habituaste, e percebas, de uma vez por todas, que a vida à superfície encerra muito mais do que aquilo que os teus olhos conseguem ver.


[“A vida à superfície” foi escrito a 28 de Julho de 2012. É “O” texto. Um princípio e fim de tudo. Um mantra. Um texto-mensagem que escrevi para uma pessoa em particular mas que gostava que tivesse sido escrito para mim.  “A vida à superfície” foi publicado originalmente no Obvious em Julho de 2012]


sobre a amizade


.  Sabes que alguém é teu amigo quando, deixando-te o espaço e o tempo que precisas para te encontrares, te vai mostrando em pedaços de carinho – que podem ser grandes ou pequenos – que está lá, presente, perto enquanto longe, para te dar – quando quiseres – o abraço que te faz falta.
E sabes que alguém é teu amigo quando, não se intrometendo nem forçando nem dizendo a toda a hora que “o pior já passou”, te diz – mesmo sem palavras – que a tua dor é a sua dor, e que as tuas lágrimas são as suas lágrimas, e que mesmo não podendo saber aquilo que sentes o peso que sente no seu peito é o mesmo peso que tu sentes no teu.

Sabes que alguém é teu amigo quando te respeita. Quando não te força a avançar. Quando não minimiza a dor que sentes, forrando-a com palavras cheias de nada. Sabes que alguém é teu amigo quando não te força a rir, mas fica feliz quando vê que já consegues não chorar.
Sabes que alguém é teu amigo quando, sem saber bem o que te dizer, diz apenas que “o amor vale sempre a pena”. Ainda que doa, ainda que esmague, ainda que te tenha deixado no peito uma coisa que é felicidade e saudade daquilo que foi e já não é.

E sabes que alguém é teu amigo quando sabes que – ainda que sintas que não tens jeito com as palavras e te pareça que não consegues pôr para fora tudo aquilo que sentes – ele vai entender exatamente o que queres dizer, mesmo que não sejas capaz de dizer uma única palavra.

Porque um amigo é assim. Leva consigo e guarda em si o pedaço de alma que lhe demos emprestado, para nos devolver quando a vida – como ela é – nos eleva ou nos sacode sem aviso.

São amigos.
E isso basta.


[para a Cátia. que me ajudou a encontrar o caminho. “sobre a amizade” foi publicado originalmente na Obvious, em Março de 2012]


sobre o amor


. Tenho pensado muito nisto, no amor. Um pensamento estranho – contudo incontrolável e incontornável -, quando as notícias só falavam de crise, de solidão, de falta de afecto… não é?

Num destes fins-de-semana, num dos projetos em que me envolvo uma vez por mês, tive acesso a uma lista de nomes de pessoas que, este ano, fazem 50 anos de casados. 50 anos. Cinquenta. Casados em 1962, quando o namoro era pouco mais ou muito menos que um beijo, quando não se gostava – porque não se conhecia nem se sabia – dos mesmos filmes, dos mesmos livros, das mesmas viagens ou da mesma música.

E foi isto mesmo que me fez pensar no amor. Que amor é este, que amor foi este, como surgiu este amor num tempo em que o namoro (como nós o conhecemos) não existia? O que terá levado estas pessoas a gostarem uma da outra, e a decidirem construir – ao longo de uma vida felizmente longa – uma vida feita de duas vidas?

Na segunda, a visualização de um vídeo partilhado por um amigo no Facebook fez-me de novo pensar nestas coisas. Lembrei-me de um casal que tenho o privilégio de conhecer: os dois na casa dos 70, ele com o corpo dobrado pelo tempo e ela com a mente quebrada pelo alzheimer.
Passeiam os dois, de braço dado, ela a perguntar – de cinco em cinco, de dez em dez minutos – o nome das pessoas com quem se cruzam. E, de todas as vezes, ele aperta-lhe a mão e responde com doçura: “é a Mónica, é o Carlos, é…”. Vez após vez. Repetição após repetição. Sorriso após sorriso. Sem nunca se cansar, sem nunca se irritar. Uma tarde inteira.

E eu pergunto, na ignorância dos meus 36 anos: que amor é este, paciente e que nunca se enerva? Que afecto é este que dura e se renova enquanto as memórias se apagam?

E lembro-me, ainda, daquela senhora que aos vinte e poucos anos fica viúva, com quatro filhos pequenos, aos quais não deseja impor o amor de um novo pai. E de como – vinte anos depois – recebe com doçura e gratidão o amor de um homem que a amou toda a vida, que respeitou o desejo dela e esperou, durante todo esse tempo, pela retribuição e confirmação do amor que sempre sentiu. E que viveu, com ela e junto dela, 16 anos de uma felicidade imensa.

E eu pergunto: que amor é este, feito de fé, que perdura ao longo de duas décadas, alimentando-se do desejo e da promessa de vir a ser – um dia – aquilo que durante esse tempo foi só uma esperança?

São histórias que conheço, que me são próximas e para as quais olho com carinho.
Porque um dia gostava de responder às questões que coloco hoje. Porque olho para mim, para nós…
e penso que nos faz falta amar assim…



“Sobre o amor” foi escrito em Fevereiro de 2012. Dois anos de Mariana, fase muito introspectiva, tempos de reflexão. Hoje, 5 anos volvidos, continuo a sentir que o amor deve ser assim: paciente, feito de pausas, de sossego. Vivemos no rápido e no imediato, e o amor precisa de tempo. Precisa, não precisa?
“Sobre o amor” foi publicado originalmente na Obvious em Fevereiro de 2012]