vou ali e já volto


Vou ali e já volto.

Vou deixa-te um beijo escondido no vão da escada, e um sorriso pendurado no beiral da porta.
E naquele frasco de bolachas (que deixas vazio quando a brincadeira te faz comer mais do que aquilo que tens vontade) vou guardar pedaços de música enrolados em frases feitas, daquelas que começam por “amo-te” e terminam em “és tudo para mim”.
Nos chinelos aos pés da cama esconderei o silêncio que te trará o sono,
e na almofada onde repousarás, o cheiro de sonhos felizes.

E quando regressar, e te tiver de novo nos braços, vou esconder o rosto no teu cabelo e fingir que não se passou nada, para que não adivinhes e percebas o sorriso que disfarço com beijos e canções.

Vou ali e já volto.
Sao dois segundos, um instante de quase nada.
Mas que guardam quase tudo.


[há textos assim, que saem quando menos se espera. os textos mais bonitos – os que para mim são mais bonitos – são aqueles que nascem do amor que tenho por elas. “Vou ali e já volto” foi publicado originalmente na Obvious em Setembro de 2013]


para a Margarida


Gosto de ti.
Baixinho, como um segredo, ainda sem te conhecer.

Gosto-te nos movimentos que sinto e nos que adivinho.
Nos toques vagarosos e suaves com que me encantas e que me trazem,
aos olhos,
os sorrisos que há muito trago nos lábios.

Acho que já te amo. Devagar, num sopro.
Um e num pedaço feito de mim em ti, de um nós que me enlaça e encanta.

Chegaste de surpresa, como chegam as coisas que nos mudam por dentro.
Tiraste-me o chão, mas dás-me o céu.
Guardas-te e cresces-te em mim.

Por ti nascerei de novo, não mais eu-mãe mas eu mãe e mãe.
Serás filha, e irmã.
Juntarás ao amor que fizeste nascer e crescer o amor que trarás contigo,
nuns olhos cor de chumbo e numa pele que ainda não cheira a ser
mas que já sabe a desejo feito verdade.

Gosto de ti. Baixinho, como um segredo.

Ainda falta muito para te conhecer?


[Se na Mariana encontro a serenidade, a Margarida é luz e força. Um amor – escrevo sempre sobre o amor – que brota em torrentes, feito de riso e de sabor a sol. Esperar por um amor assim vale a pena, vale a espera. Esperar por um amor assim vale tudo.]


Despertar


. Gosta de acordar cedo. De vaguear pela casa, em silêncio, enquanto os outros dormem, num sossego que até pode não ser paz…
mas que lhe deixa, na alma e no corpo, a sensação que ela e o mundo são um só.

Acorda cedo, um pouco mais que os outros.
Sem empurrões, sem obrigações. Porque gosta e quer, porque sabe bem.

Recebe da casa os primeiros sons e cheiros, aqueles que se criam e guardam no escuro da noite, e que só o primeiro – aquele que decide que o quer ser – tem o direito a receber.
Um sussurro de pés descalços, sombra escondida nas sombras, cheiro misturado no cheiro.
Um “eu” invisível, ainda que por um instante.

O café cheira a grão e água, o pão a trigo e ao trabalho daqueles que acordaram (muito) antes de si: sabe a sono que foi pequeno, às mãos que o amassaram e ao fermento que o fez crescer.

A casa ainda dorme o sono que os outros dormem.

Está frio.
Aquece um pé no outro, dedos contra dedos;
fecha os olhos e respira o fumo feito de cheiro escuro que o café lhe oferece como um segredo.
Ela, o mundo, pouco ou nada mais.
Uma comunhão única embora diária.
Um momento só, parado num espaço e num tempo que lhe pertence.

Aos poucos, a casa acorda.

Arruma a chávena, alisa a roupa, prepara a mesa para os outros seres cujos pés – dali a pouco – correrão no mesmo chão que por momentos foi só seu.
Nos dois segundos que separam a mulher-só da esposa, da filha, da mãe, atira o olhar pela janela e recebe, como uma oferenda, aquele instante em que o mundo ainda lhe pertence.

O dia começa.
Mais uma vez.
E – apesar de gostar do cheiro do silêncio e do som da casa que ainda dorme – sorri.
E isso é bom.

O amor hesita


O amor é pequenino. Ou, pelo menos, começa assim.
Nas mãos da mãe que nos tocam devagar enquanto nos afagam o cabelo ainda fino.
E nos olhos.
Começa também nos olhos.
Naquele olhar doce e cansado que quase ainda não vemos, mas que sentimos no coração que bate ao ritmo dos pássaros e que sabe – e sente – que aquele amor é para sempre.
Depois cresce. Fica grande, invade tudo.
E amamos um boneco e uma manta, e um desenho e um novelo de lã.
Amamos tudo. Tudo cabe no nosso espaço.
Amamos quem nos ama, sobretudo.
Somos heróis sem capa nem espada, centro daquele mundo que sabemos ser só o nosso.

(ninguém nos disse que é assim: mas as certezas que nascem no coração, mesmo naquele que ainda bate ao ritmo dos pássaros, são mais fortes que quaisquer argumentos trazidos pela razão que ainda não conhecemos nem queremos conhecer)

Passa o tempo. Passamos no tempo.

As mãos da mãe já não guardam tudo, o mundo já é mais do que aquilo que os nossos olhos conseguem alcançar.
E num segundo de curva, devagar, disfarçado de ruído ou de silêncio, chega o amor.
Simples mas tão complexo, belo mas tão trágico,
capaz de arrancar
ao mesmo instante
as lágrimas e os sorrisos que guardamos e queremos soltar.
Hesitante, firme, arrebatador.
Como só o amor consegue ser.

Passa o tempo, passamos no tempo.

Os olhos sorriem cansados, enquanto cheiramos a pele doce que é parte de nós.
Do nosso amor.
Aquele que já não arrebata (ou ainda sim, não sei) mas que agora aquece;
que já não é ruído mas sim sopro;
que já não hesita mas é seguro.
Imenso. Forte. Firme.
Lágrimas e os sorrisos misturam-se, e já não os desejamos guardar:
preferimos sentir.
E é bom.

Passa o tempo, passamos no tempo.

Hesitamos em pedir amor.
Não sabemos se ainda temos direito a ele, se é justo desejar – será que demos o suficiente? – aquilo que só entregámos algumas vezes.
As mãos pequenas da carne da nossa carne afagam-nos o cabelo já fino, e o nosso olhar ainda doce mas já cansado sorri com a força que o corpo já não tem.
O coração já não bate ao ritmo dos pássaros. É lento, calmo, sossego.
Chegámos àquele segundo de curva, e podemos por fim descansar.
O amor?, esse, sereno. Seguro. Tranquilo.
Como só uma vida
nele e com ele vivida
poderia dar.


[“O amor hesita” nasceu em Março de 2013. Mariana com três anos, Margarida quase a aparecer. Nasceu quando, sentada à mesma mesa onde me encontro agora, olhei para pai e filha e senti – naquele segundo – a necessidade de transformar em palavras o amor que me inundava o peito. “O amor hesita” é a história deste amor que nasceu a medo, que de tão forte cresceu escondido e com receio de se mostrar. “O amor hesita” é a Mariana, e a declaração do amor eterno que lhe faço todos os dias. “O amor hesita” foi publicado originalmente na Obvious, em Março de 2013]


bem aventurados os mansos

Sou pelo bem comum.
Pelo dar um passo atrás para que todos possam dar um passo em frente.
Sou pelo ‘se faz favor’, pelo ‘com licença’ e pelo ‘obrigado’.
Num mundo que se atropela, que grita, que vive ao segundo, que reage e que partilha, sou pelo silêncio.
Num universo em fast-forward, sou pelo pause.

[borbulho . agito-me . fervo . inspiro . acalmo . prossigo]

Gelo fino protegendo o mundo da corrente da água, a mansidão faz-se em camadas.
Ao longo do tempo. Ao longo da vida.
É uma maratona, não um sprint.
É uma opção de vida, não uma fraqueza. É caráter, não ausência dele.

Bem Aventurados os mansos, porque um dia herdarão a terra.
É que até lá, os outros – os agitados, os sôfregos, os belicosos…
… já terão perecido todos.


[“Bem aventurados os mansos” é um grito (manso) contra os sinais exteriores de vontade. Contra o imperativo do barulho, do ruído, da proactividade estridente. É um manifesto, uma entrada no “press-pause”. “Bem aventurados os mansos” foi publicado originalmente na ©Obvious em Dezembro de 2012. Cinco anos depois… continuo fã do pause… 😉 ]