25 de Julho

.  Hoje é um dia muito especial: há três anos, mais ou menos a esta hora (meio dia e cinco) a Mariana entrava nas nossas vidas. Ainda nada de certo, apenas uma esperança, um desejo que – desta vez – as coisas corressem como o nosso coração desejava.

Foi uma entrada discreta, partilhada com não mais de cinco pessoas, um segredo cheio de medo e de esperança. A vida – essa malvada – já nos tinha ensinado que ainda que Deus queira e o homem sonhe, às vezes a obra não nasce. A vida – essa que magoa – já nos tinha convencido que teríamos de nos habituar a viver assim, juntos mas ao mesmo tempo sós, completando com coisas e viagens aquele espaço que pertencia, por direito, àquela que nos fazia falta.

Lembro-me de tudo, como se fosse ontem: da viagem ao som da mesma música da outra vez (ai os homens, e a sua falta de tacto), da conversa que já conhecia… e de ver aquela luz, pequenina, a brilha no monitor ao mesmo tempo que o Dr. Teixeira dizia sorrindo “melhor é impossível”.

E, depois, o regresso a casa. A segurar no ventre como quem carrega um tesouro. E os dias seguintes, catorze, cheios de uma racionalidade que – soube-o enquanto a sentia – não convencia ninguém. A espera, longa. E o olhar em volta e perguntar “para quê tudo isto”.

E, depois, a notícia que vinha aí alguém. E, depois, o medo de não acreditar. E, por fim, o bater do coração.

Se tiver de escolher O dia em que me fiz eu, em que fui feliz como nunca fui antes nem depois, foi naquele dia em que, num outro monitor e com outro médico, ouvi o coração da minha filha a bater pela primeira vez. “Há coração? O coração bate?” “Então não há! Ora ouça!”

E o tumtumtumtum, aquele som maravilhoso que ainda hoje, quando o recordo, me faz chorar sabendo porquê: a Mariana estava ali. O nosso amor, do nosso amor, tinha finalmente encontrado o caminho para as nossas vidas.

Muito aconteceu depois. Coisas boas, coisas menos boas, coisas que magoam e que, meses passados, ainda causam dor. Mas, por muita coisa que passe, e muita coisa que viva, nunca esquecerei aqueles segundos de felicidade em que soube, finalmente, que o nosso sonho era real.

Parabéns, Mariana. Ainda que não o saibas, e ainda que não entendas, foi nesse dia que te comecei a amar :).

Fim-de-semana em grande :)

.  Este foi um fim-de-semana daqueles que nos enchem a alma e o coração 🙂

No Sábado fomos a Guimarães, conhecer – com os nossos olhos e com o coração da Marta – a bela capital da cultura. Um dia cheio de sol, de namoro e de Mariana, que teve o seu primeiro grande passeio (o primeiro em que teve noção do que estava a ver) e o seu primeiro piquenique. Comer sentada numa manta, correr na relva, ver o “caté-o”, caminhar muito, abraçar o coração vermelho da praça da cidade… orgulho de mãe.

Domingo, na festa de anos da tia Nini, brincou às escondidas, contou “u noi tê”, escondeu-se e correu, aprendeu a dar cambalhotas, comeu a sopa dos primos, riu com eles. Ver e estar com a minha família – a pequena e a grande – trouxe-me uma felicidade e uma paz como há muito não sentia. A felicidade constrói-se assim, nestas coisas quentes.

A minha menina está a crescer. Como as plantas, ao seu ritmo, com o respeito e a admiração dos pais.

Dois dias. É o suficiente para me trazer a tranquilidade que preciso 🙂

Amanhã é dia da mãe

.  Não o que está no calendário – esse é só para a semana – , mas o meu dia da mãe.

Amanhã vai ser dia de mãe e filha, daqueles que tínhamos antes e dos quais já sinto falta: eu e ela, a passear, a brincar, a correr, a ver livros e a fazer desenhos. Um dia nosso. Uma prenda minha. Da minha prenda. Para mim 🙂

Post ainda sem título

.  “Há já algum tempo que não escrevo neste espaço” é uma frase que aparece com frequência naqueles blogs cheios de leitores e seguidores, e que normalmente vem seguida de uma interessante justificação-explicação que envolve projectos profissionais, pessoais, mudança de casa, adopção de um cão, mudanças na gaiola do canário, you name it.

Pessoalmente, gostaria de ter começado esta mensagem com essa mesma frase – porque tenho necessidade, na maior parte das minhas aventuras, de por por escrito o “antes” e o “depois”, o “até hoje” e o “a partir de agora”. Sou assim, pronto. Mas como não comecei dessa forma, não seguirei nessa linha e salto directamente (não, aqui o acordo ortográfico não manda) para aquilo que me fez escrever o post: o que eu queria ser /como eu queria viver um dia. E seria assim: mãe de filhos, dias que passam devagar, crianças a brincar no chão de madeira, apanhar pinhas e folhas secas.

É parvo/idiota? Talvez. Pelo menos para quem não me conhece ou me conhece mal. Quem me “sabe”, sabe que para mim isto é tudo, que ver crescer as coisas que a natureza cria e as crianças que a vida nos dá a honra e o privilégio de ter me dá uma paz e uma satisfação/realização que nenhuma carreira brilhantemente fulgurante seria capaz de dar.

Há quem se realize nas/pelas grandes coisas. Eu faço-me com as pequenas 🙂

a culpa é dos filmes

.  Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. A reserva que instintivamente se coloca nos relacionamentos – aquela que vai sendo negociada, gerida, até chegar à entrega confiante – deixou de ter sentido com a chegada deste ser pequenino e exigente.

Ao longo da vida – por muito curta que ainda seja – vamos acumulando experiências que, de uma forma mais ou menos clara, influenciam a maneira como nos comportamos em relação aos outros. A experiência da perda, por exemplo, pode-nos levar a erguer barreiras aos sentimentos mais intensos: tomámos consciência da fragilidade da vida, o que amamos pode-nos ser tirado. E o cérebro aprende, e a alma guarda. E tornamo-nos defensivos. Cautelosos. Tristes. E, como um caminho que ainda não conhecemos mas achamos que já sabemos onde vai terminar, recusamo-nos a percorrer a estrada potencialmente cheia de alegrias. Mais vale não amar do que sofrer por amar demais, não é?

Foi então que a Mariana chegou. E ensinou-me – aos bocadinhos – que viver com medo não é tão romântico quanto parece nos filmes. Que a consciência do efémero não é sempre sinal de maturidade ou experiência, mas que pode ser uma cadeia, uma zona de conforto desconfortável. Ela, pequenina, foi-me vencendo aos poucos. E foi-me ensinando a confiar nela, e a acreditar que coisas boas acontecem.

Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. E sabe bem amar assim.