medo

.  Há dias atrás uma amiga disse-me que “ser mãe é ter medo. sempre, para toda a vida”. Esta amiga tem 28 anos, ainda não é mãe, mas aprendeu da mãe – dela – o sentimento de recear as ameaças ao bem-estar e felicidade de alguém que nos enche a vida de forma irremediável.

Desde que pensei a Mariana que tive medo. Medo que ela não passasse disso, de um pensamento; medo que ela não fosse uma confirmação; medo que as coisas não corressem bem; medo que eu não corresse bem. Depois, aos bocados – e recorrendo àquele lado racional, forte, sereno, que me orienta quando me desoriento – consegui sufocar esse medo, empurrá-lo, enfiá-lo numa caixa para que não me assombrasse e ensombrasse a felicidade.

Mas esse medo, fechado na caixa, é como aqueles bonecos de mola: está lá, compactado, à espera de uma folga para se poder soltar. E, de vez em quando, salta. E, nessas alturas, luto de novo para não me deixar submergir pela ameaça do que ainda não existe e do que pode nunca existir (um acidente, uma doença).

“Um dia, quando fores mãe, vais perceber”, diziam-me. Agora sou mãe. E percebo.

sobre o amor

.  O nascimento de um filho muda-nos de uma forma que se vai percebendo ao longo do tempo. Depois daquelas coisas básicas como a luta com a alimentação, as horas de sono, o incutir de rotinas… depois dos dentes, e dos choros, e das birras, e de tudo… depois disto, ou ao longo disto, percebemos que mudamos.

E é uma mudança tão boa, uma coisa tão grande e tão autêntica que quase se pode dizer que, com o crescimento de um filho, também nós aprendemos a crescer. Um filho é uma oportunidade de nascer de novo, de viver uma nova infância mas agora de forma mais consciente e plena.

A Mariana – 9 quilos e pouco de gente – mudou tanto, mas tanto a minha vida, que não há formas de descrever o que eu era antes e o que eu sou agora. E sentir o calor daqueles olhos que não são castanhos nem verdes, e receber aquele sorriso cheio de dentes pequeninos, e deixar-me envolver naquele abraço tão pequeno que consegue abarcar o mundo… é uma coisa pela qual vou ficar grata o resto da minha vida 🙂

18 meses

.  A Mariana faz hoje dezoito meses. Dezoito. Muitos dias e muitas horas de uma vida que começou ainda antes de ela nascer, quando era só uma coisa mais pressentida que sentida e na qual tinha medo em acreditar.

Dezoito meses plenos, cheios, vividos de uma forma que quase parecem dezoito anos. Está connosco há poucos meses e parece que fez parte de nós a vida inteira. E está tão grande e tão pequena…

Reconhece as formas e sabe encaixar peças, tem boa memória, gosta de livros e de escrever. Dança quando ouve música, corre a casa toda. Coloca os papéis no ecoponto e gosta de fazer construções com os pacotes de leite que vai buscar à despensa. Sorri – muito. Tem um sorriso que lhe chega aos olhos, feito de mimo e da certeza de ser amada.

Faz asneiras e desafia-me todos os dias. Quando me vê de cara feia (e Deus sabe o esforço que faço para a manter) faz beicinho e vem-me dar beijos cheios das desculpas que ainda não sabe dizer. E gosta de colo. Gosta muito. Quase tanto quanto eu gosto de o dar.

A cama dela continua ali, ao lado da minha, numa persistência que vai contra todas (ou quase todas) as regras que ditam os livros mas que me faz bem ao coração. Adormeço a olhar para ela, e é ela que me acorda ainda antes de o despertador tocar. Dou-lhe colo, muito colo. Dou-lhe beijos, tantos quantos consigo dar. E sento-me com ela, no chão, a aprender como ela descobre as cores e as formas. E quando aqueles olhos que não são verdes nem castanhos me olham a sorrir, sinto um calor na alma que me faz ter a certeza de que estou a fazer um bom trabalho.

Sou mãe há dezoito meses. Há dezoito meses que não tenho uma noite completa, que não vou ao cinema, que não tenho uma refeição descansada. Dezoito meses de reconstrução daquilo que eu pensava que devia ser. E nunca, mas nunca, me senti tão plena e tão feliz.

Parabéns, pequeno amor da minha vida 🙂

as pequenas coisas que me fazem sentir grande

.  a vida não se compadece dos sentimentos nem das emoções. os dias que se sucedem uns atrás dos outros não esperam para que possamos, por dois ou três segundos, parar para poder sentir. não há tempo nem quase espaço para nos deixarmos aquecer pelas pequenas coisas que tornam grande a nossa vida.

é por isso que dou graças, a Deus e a quem tornou isto possível, pelos dias e noites em que me vou fazendo mãe. o primeiro sorriso da Mariana? recebi-o, num segredo de madrugada, quando o cansaço quase anulava a felicidade que quase temia sentir. a primeira palavra – “mamã” – , ouvi-a da boca dela. e a segunda – “papá”, também.

estive lá da primeira vez que se sentou. da primeira vez que brincou no banho. da primeira vez que comeu sozinha. da primeira vez que gatinhou. e, os primeiros passos que deu – sem apoio e sem ajuda – deu-os em direcção a mim.

ser mãe é um privilégio. uma vida dentro da vida. uma coisa cheia de pequenas coisas.

sou feliz 🙂

sobre fé

.  ter fé é acreditar sem provas. acreditar que sim, que vai correr bem, que não nos vamos estampar nem cair. a fé é uma coisa que se embrulha na alma e no coração e que desfaz, um a um, todos argumentos e provas de que “não” que a razão vai buscar.

fé é antónimo de cinismo. é olhar para as coisas e para as pessoas com olhos limpos, não turvos. fé é quando a Mariana olha para mim e me agarra o dedo, sabendo – acreditando – que eu não a vou largar. é quando o Gonçalo me diz “isto vai passar”, numa pergunta sem interrogação. é quando alguém me pede “lês isto? sei que vais perceber e dizer o que pensas”, mesmo que só me conheça há dois ou três meses.

fé é acreditar. em nós e nos outros. e, se é bom ter fé, é melhor ainda sentir que os outros têm fé em nós.

é coisa para encher o coração. e para partir todos os argumentos e porcarias que a razão nos tenta enfiar na alma.