não gosto de dias de chuva

.  no mundo em que só fazemos o que nos apetece, hoje estou em casa.

bebi café de cevada acompanhado de torradas de broa – aquecidas duas vezes para ficarem mais trincáveis -, e daqui a pouco vou comer pão barrado com mel (no mundo em que só fazemos o que nos apetece podemos comer à vontade que nunca engordamos).

a Mariana já comeu e está a dormir no meu colo (neste mundo especial isto acontece com regularidade) e estamos as duas no sofá, sem manta mas com meias, a ver um filme com meninos e música e chuva miudinha.

no mundo em que nós só fazemos o que nos apetece consigo mudar de canal com um piscar de olhos e as coisas vêm-me ter à mão quando penso nelas. o equilíbrio também é fácil e, por isso, consigo ter a Mariana a dormir no braço esquerdo enquanto desfolho, com a mão direita, algumas páginas de algum livro que só tem figuras e ideias. não tem história, nem enredo, só tem coisas. coisas que se vão fazendo à medida que vamos pensando nelas, que é assim que os livros – todos os livros – são neste mundo.

quando parar de chover vou fechar e abrir os olhos e vou estar sentada no fundo do meu quintal, no único bocadinho seco – o resto está tudo molhado, afinal acabou de chover – enquanto a Mariana está a brincar com as folhas vermelhas e castanhas que estão no chão. depois, num saltinho, vou a casa da minha mãe dar-lhe o beijo que já não lhe dou há dois dias e regresso de novo a casa.

como neste mundo há sempre a música e as coisas que queremos, decidi que hoje o vento canta Cat Stevens e que há um rio pequenino que vai nascer e desaparecer do meu lado direito, apenas durante um bocadinho para que não haja salpicos e tudo continue perfeito. como não gosto de ter os pés molhados, a relva vai secando à medida que caminho – agora já não estou de meias – e como me apetece um abraço a manta que estava no quarto já veio ter connosco e enrolou-se à nossa volta.

olho para a Mariana, ela olha para mim, e com os seus olhos cheios de luz diz-me baixinho: gosto de te ter comigo. eu respondo-lhe com um segredo: gosto de ti, e voltamos as duas para o cantinho onde as mães e as filhas ficam enroladinhas como gatos enquanto a chuva cai, de mansinho, do lado de fora da janela.

pensando melhor… acho que, afinal, até gosto de dias de chuva =)

200.9

.  quando a Mariana entrou nas nossas vidas sob a forma de um número, a primeira coisa que fiz – depois de respirar, me acalmar e quase chorar – foi prometer, baixinho, que nunca iria perder a paciência com ela. que não deixaria que as coisas e os problemas do dia-a-dia, e que não faziam parte do mundinho dela nem por ela seriam controláveis, mexessem ou interferissem na forma como nos relacionaríamos. que sempre teria tempo para ela, mesmo que isso implicasse não ter tempo para mim. e que, acima de tudo, a ia amar independentemente do comprimento dos dias e dos escuros das noites.

quando a Mariana chegou às nossas vidas na forma de uma surpresa, um ouricinho tão pequenino quanto exigente, não sabia ainda – nem estava preparada – para todas as mudanças, todas as alterações que trazia com ela.

a Mariana ensinou-me que nem todos os bebés são como os descrevem nos livros. que há aqueles que não dormem 16 horas por dia, que há aqueles que não se acalmam com música, com bonecos, com fraldas. ensinou-me que as relações se constroem aos bocadinhos, em cada toque, em cada olhar. ensinou-me que um bebé pode chorar um dia inteiro e dar o seu primeiro sorriso às 4 e meia da manhã. que cada segundo conta, que cada minuto é importante, que cada hora é cheia de tempo tão breve que sabe a eternidade.

até agora tenho conseguido cumprir a promessa que lhe fiz, promessa que renovo cada dia. estes últimos cinco (quase seis) meses têm sido cheios de música, de sons, de toques. enche-nos de paz, encontrar alguém que responde ao nosso beijo com um sorriso, que adormece quando cantamos baixinho, alguém cujos olhos brilham quando ouve a nossa voz. a quem podemos dizer “gosto de ti” vezes sem conta. e, mesmo que agora a separação doa mais, não me arrependo de lhe ter dedicado cada segundo destes cinco meses da minha vida. porque não é por não nos entregarmos que ficamos mais resistentes. porque não é por a anteciparmos que a dor dói menos.

a Mariana vai crescer e vai chegar o dia em que não vai precisar tanto de mim, eu sei. mas também sei – tenho a certeza – que vou precisar sempre dela.

mariana

.  a mariana fez-se de pedaços de um sono sonhado em segredo,
de um sonho a medo. murmúrio meigo e suave.
mariana é luz. quente. é toque, é dedos, é pés, é beijo e riso.

é sal e sol, é sabor a quase tudo e um cheiro a coisa boa.
é sopro.
é brisa leve, arrepio que sabe bem.
é abraço que se recebe dos olhos e sorriso que apenas se pede.

é sono, é pele, é cheiro.
entranha-se, sente-se, vive-se.

mariana é fechar os olhos e respirar baixinho.

é sentir os gestos e as coisas nas palmas das mãos…
e desejar que esse segundo permaneça para sempre.

a máquina dos sonhos

. sempre fui daquelas pessoas que dizia “quando tiver um filho não serei daquelas mães chatas que só sabem falar do bebé, e que fazem uma festa quando o pequeno espirra”. agora, digo que só não muda de opinião quem não tem abertura de espírito para deixar entrar novas ideias 😛

o projecto Mariana vai já com três meses “no campo” :). nestes três meses vi a minha pequena passar de um bichinho cabeludo e exigente para uma criaturinha que quer saber, explorar, que comunica e que pede interacção, e que me demonstrou que o ensino e a aprendizagem são duas dimensões do mesmo processo: crescer.

com a Mariana, aprendi a adormecer em cinco minutos e a rentabilizar as minhas horas de sono. descobri o mundo de uma nova perspectiva (visto do chão :D) e aprendi que as coisas levam o seu ritmo e que não é só pela nossa força de vontade que o mundo anda mais depressa. comigo, a Mariana aprendeu a diferença entre o dia e a noite, aprendeu a brincar com os bonecos, a agarrar nas coisas. e há-de aprender muito mais.

ultimamente, estou a (re)aprender o valor do tempo e da simplicidade das coisas :). aprendo que não é preciso gastar dinheiro em bonecos complicados quando as figuras que faço com as mãos a levam a olhar, a rir e a agarrar. aprendo que uma coisa simples, como uma fralda, dá mais conforto que dois ou três doudous.

aprendi ainda – e depois de tentar música clássica, embalo, canções infantis, maquinetas da chicco – que o som que adormece a Mariana é, pura e simplesmente, o som de um aspirador a trabalhar. uma autêntica “máquina dos sonhos” 🙂

um dia a Mariana gostará de Mozart e Beethoven. gostará de Jonsi/Sigur Rós. mas, para já, o que ela grama mesmo, mas mesmo, é o som do aspirador 🙂

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a tal maquineta da chicco, que projecta estrelas no tecto, foi comprada mais para mim do que para ela :P. o dia pode correr menos bem, posso andar mais cansada, mas o certo é que não me importo.

à noite, quando o sol se põe, ouço a leve respiração da Mariana… e tenho um quarto cheio de estrelas 🙂

ch-ch-changes

.  desde há três semanas que o meu cabelo anda, dia sim dia sim, apanhado num rabo de cavalo; desde há três semanas que como sopa, saladas, verduras, fruta, todos os dias; desde há três semanas que me tornei fã de iogurtes com aroma a coco; desde há três semanas que não leio twitts, nem comento posts, nem descarrego músicas;

já não vejo séries – onde anda o “24”? – e começo a saber de cor o preço dos aparelhos de ginástica promovidos nas televendas. vejo os noticiários a partir das 6 da manhã, tomo o pequeno almoço quando posso e não quando quero, e os banhos de meia hora passaram a duches de 10 minutos.

há três semanas nasceu a Mariana e as noites e os dias nunca mais foram os mesmos: durmo pouco e aos pouquinhos, passo os dias e as noites a mudar fraldas, e o perfume que usava foi substituído por um cheiro a leite e a creme para bebés que não se vende em lado algum.

há três semanas nasceu a Mariana. e correndo o risco de ser lamechas, digo que não há um dia em que não agradeça a Deus pela vinda dela 🙂