Dia 19

. (dia de acordar mais tarde. a hora mudou, mas o corpo não sabe disso e pede o descanso nas horas a que está acostumado)

Acordar, beber café, ouvir e ver o que se passa no mundo.
São dez minutos importantes, que estabelecem a ligação entre o real de dentro e o de fora, entre a vida dentro de portas e o resto que continua do outro lado dos vidros.

Ontem foi um dia menos fácil de aguentar, o dia em que o sofrimento e a dor dos outros se tornou mais presente, quase físico. É a preocupação connosco e com o outro, o imaginar “e se fosse comigo?”, o tentar evitar a todo custo que o cérebro entre numa espiral de onde será complicado sair. E sair desta luta cansada.

Hoje é segunda, e a vida continua.
As meninas acordam, dizem “hoje é férias”, perguntam se podem ficar de pijama mas falam em mudar de roupa.
Pedem torradas quentinhas, sentam-se no sofá enquanto vêem o Zig Zag. Estão de férias.
E ainda que este dia seja idêntico ao de ontem, e ao de antes de ontem, e ao dia que o precedeu, para elas é diferente: um período terminou, uma etapa foi concluída, é tempo de limpar e arrumar e preparar os meses que aí vêm.

Tenho aprendido muito com elas, nestes 19 dias.
E não falo só de aprender o que são pentaminós, ou de como se calculam quocientes com aproximação às décimas: falo de saber viver o tempo e no tempo presente, saber gerir o esforço, saber respirar fundo, serenar a ansiedade, controlar a frustração.
É um regressar a uma altura em que cada aprendizagem era uma descoberta, cada coisa uma coisa nova.
Fazer este caminho com elas, ainda que nestas circunstâncias, tem sido um privilégio.



(a Magui pediu para limpar os vidros. diz que está de férias, e como não tem de fazer trabalhos pode cuidar da nossa casa. não é “limpar”, é cuidar.
se calhar, aquilo que eu lhes vou dizendo – que devemos agradecer todos os dias o que temos, e que a nossa casa é mais do que paredes, é o lugar onde encontramos abrigo – vai entrando de alguma forma)

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