. Acordar, beber café, deixá-las dormir mais um pouco.
O sono não encontrou o caminho, e esta foi uma noite de acordares curtos e sonos leves.
E o dia começa.
Dez horas, pés leves, “mãe, bom dia”.
E faz-se a pausa para o beijo, e “hoje queria torradas quentinhas”, e eu pauso por dez minutos para tratar destas pessoas pequeninas – as mesmas que se enroscam nos meus braços durante a noite, que se sentam no meu colo durante o dia, que perguntam “estão a ver-te?” quando do outro lado riem que sim.
Fim do dia.
Trouxeram-me abacates, há bolachas no armário, há linhas e tecidos espalhados pelo chão.
“mãe, juraste que hoje fazias vestidos”
“eu não jurei, eu disse”
E saio da secretária, e pego na tesoura, e lembro-me de quando era pequena e queria ser costureira como a minha mãe.
“Este é o meu instrumento de trabalho”, respondia de cada vez que eu pedia para usar a máquina de costura. E eu afastava-me, derrotada mas não vencida, e esperava até que ela saísse para me poder sentar e experimentar um pouco daquele mundo mágico, feito de linhas e rendas.
Por isso peguei na máquina, e fui buscar a caixa de panos, e sentei-me na sala arrumada à pressa “porque a mãe vai costurar”. E tentei fazer um pijama, e tentei fazer um vestido.
E elas ignoram as mangas apertadas, e fingem não ver as costuras mal feitas, porque a mãe costurou para elas e isso é o mais importante.
Do dia de hoje, retenho uma frase proferida por alguém que sabe (muito) mais do que eu: não vamos ficar parados, não podemos ficar parados.
A vida – diferente, é certo, mas a vida – continuará daqui a uns dias, ou semanas, ou meses ou quem sabe um ano. E se há uns que saem para cuidar, outros para trabalhar, outros para proteger, outros para fazer com que nada falte a quem cá está, nós – dentro de casa, dentro do que nos é possível – também não devemos parar.
