Dia 35

. Manhã.
O escritório-quarto-estaleiro onde trabalho todos os dias está confuso de vozes e do som das ventoinhas dos computadores. Há música calma a sair da coluna, pela janela ouve-se a chuva, elas trabalham ou fingem que sim.
Têm sido pacientes comigo, como eu tenho sido paciente com elas.

Para quem gosta de silêncio, não é fácil trabalhar com tanto som misturado.
Desisto dos auscultadores ao terceiro “mãe”, digo que sim, que podem fazer uma pausa, vigio o tempo até ser hora de regressar.

Querem fazer os trabalhos mas pedem ajuda.
Não se lembra como se escreve o G maiúsculo, quer o telemóvel para ver como se desenha um leão.
Pergunta se pode fazer o texto mais tarde, não se recorda do nome dos oceanos, diz que é matéria nova que já estão a aprender.

Por volta da uma, o toque curto da campainha.
“É a avó Lúcia!!!”.
E, debaixo de chuva que teima em cair espaçada, recebo um saco com um almoço acabado de fazer.
“Adoro o sabor da comida da avó”, dizem.
E eu respondo que sim: que a sopa dela é das melhores que conheço, e que as ervilhas que ela fez só para nós são a coisa mais deliciosa que comi esta semana.

À tarde, sentada no meu colo, a Magui fala com a professora e com os amigos.
Ri ao ver quem não vê há muito, rosto rosado e olhos brilhantes.
“Falta ainda o meu amigo”, diz. E salta quando vê a imagem do amigo a aparecer.

A Mariana faz mais uma ficha, trabalha no meu computador “que é tão lindo e tão moderno”, diz que posso ir tratar da vida enquanto ela termina o que está a fazer.
E eu olho para ela, tão crescida em tão pouco tempo (dez anos não é nada), a tentar aprender esta coisa de estudar sem ser na escola, de num repente poder trabalhar com as mesmas ferramentas dos pais.

E estes, agora, são os meus cinco minutos. Aqueles que separam o dia intenso da noite calma. Aqueles em que eu digo que “já volto” mas em que me demoro mais um bocado.
Aqueles em que me sento, coloco os auscultadores, escolho a música, viajo um bocadinho, bebo chá ainda quente, coloco as coisas e as ideias em ordem.

Daqui a pouco regresso à sala, digo “são horas de dormir”, finjo que não ouço os protestos, cedo ao “ainda não estiveste aqui connosco”, sento-me uns minutos no sofá.
A Magui vai-se sentar ao meu colo enquanto esconde os pés sem meias, a Mariana vai-se encostar ao meu ombro e pedir que lhe dê a mão.
E dia que começou calmo e continuou agitado até se tornar calmo outra vez
vai docemente terminar.
Para, daqui a nada, começar um novo dia.


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