Dia 49


. Levantei-me cedo, mas demorei a acordar. Estes últimos dias – em que ligo às 8 e desligo às 23 – estão a deixar mossa, o corpo já pesa e pede descanso.
Amanhã descanso. Hoje ainda há coisas para terminar.

As meninas andaram à solta de novo.
Assumo, sem orgulho nem vergonha: não tem sido fácil misturar, no mesmo espaço e nos mesmos tempos, os papéis de tutora e trabalhadora, de cozinheira e guarda roupas, de eu Mónica e eu mãe. E há dias em que deixo andar.
Estes dias cansam, pesam, ficam nos ombros e puxam-me para baixo. Salvam-se as noites (que aqui começam depois das 11), em que nos enroscamos enquanto esperamos que o sono chegue.
A Magui diz que não consegue dormir, eu respondo “então relaxa”, ela retruca que “dizes sempre isso”, eu insisto “não precisas de querer dormir, deixa que o sono encontre a tua almofada”.
E ela encosta-se a mim, esconde o rosto no meu braço, e o sono vem. É assim todos os dias, todas as noites.

O dia da mãe está quase a chegar. Ainda que não tivesse percebido do aproximar da data, o estado em que o escritório-estaleiro está não deixa ninguém no engano: há papéis e fitas, há tubos de cola, pedaços de cartolina, “ó mãe, gostas mais de laranja ou branco?”.Não há purpurinas porque as escondi, quando soube que eram de plástico. Com o brilho colado à cara, à roupa e ao cabelo eu vivia bem. Mas pedacinhos de plástico colados a todo o lado, isso já me incomoda.
E assim hoje fizeram caixas, e bilhetes que guardam na sala, bem à vista, enquanto avisam “não podes ver!!”. E eu finjo que não vejo, a Mariana finge que não vejo, a Magui sabe que vejo. Mas brincamos assim, às zonas desfocadas, aos espaços onde os olhos pousam mas não veem.

Ontem (ou segunda? já nem sei, os dias são tão parecidos…) fizeram-me um chupa-chupa. Há açúcar por todo o lado, pedaços de caramelo na bancada, por muito que limpe aparecem sempre mais.
Mas isso, sinceramente – e ainda que ande cansada, que andemos todos cansados – não tem grande importância.
O chupa-chupa sabe a caramelo, sabe àqueles que se vendiam nas festas e que o meu avô comprava pelo São Vicente.
Pode haver açúcar por todo o lado, mas não tem mal.
Neste chupa, que era uma estrela mas já se partiu, está o amor das minhas filhas e a memória do meu avô.

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