Dia 48


. Do meu portão ao contentor do lixo são 173 passos.
Sei disso porque os dei há pouco, quando fui colocar o lixo no local devido.

Foi a quarta vez que saí de casa nestes 48 dias.
Vi os terrenos lavrados. Senti o cheiro da terra fresca. Vi o azevém cortado.
Durante a tarde, ouviram-se máquinas agrícolas a desbravar matos atrás de minha casa. A natureza é alheia a quarentenas, e quando ninguém a incomoda tem o seu ritmo que engole tudo.
E é preciso limpar, é preciso lavrar, é preciso cuidar.
Vivo numa terra de agricultores. De pessoas que saem de casa quando os dias nascem e regressam quando eles se despedem. De pessoas semelhantes a tantas outras que, nestes dias de isolamento, têm trabalhado para que à nossa mesa nada falte.

Agora é noite, ouvem-se grilos, e enquanto as nuvens do norte não chegarem às terras da Branca ainda é possível ver as estrelas.
Na minha cama, ocupada por coisas que não me pertencem, estarão daqui a nada duas pessoas que são tudo para mim.
Assim têm sido as nossas noites.
Acho que não me posso queixar 🙂

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