Terça-feira, dia de aulas minhas, dia de aulas delas.Dia em que elas têm de se orientar (quase) sozinhas, em que desligo o micro para perguntar “está tudo bem?”, em que a hora de almoço é uma corrida porque dali a nada é preciso estar de novo “on”.
Dia que passa rápido. Dia em que se aquece o almoço que se fez depois do jantar, em que se ouve pela quinta vez “mãe, posso fazer uma pausa?”. Dia em que se responde que sim, sabendo que estas pausas se vão estender pela tarde toda e que logo, quando o dia de trabalho pago terminar, há todo um outro que se inicia.
A Mariana já usa o computador como se fosse o telefone, e desconfio que aquele “Bom” a tecnologias já está desatualizado.
Escreve textos, descarrega imagens, pesquisa “casotas para cães pequenos” e faz contas à vida, tentando perceber quanto dinheiro tem e de quanto dinheiro precisa. Matemática, com euros e cêntimos. Assim também se aprende ![]()
Diz que não é boa a desenho mas vejo-a mais vezes a desenhar. Diz que não é boa a escrever textos sozinha, mas vai anotando o resumo do dia num caderno.
A Magui, que não gosta de escrever só porque sim, entusiasma-se quando a escrita é sobre coisas da vida, coisas que acontecem, coisas com as quais se identifica. Escreve sobre o dia da mãe – “dez linhas, mamã…”, suspira – e na letra direitinha vejo que o recado que a professora enviou por mail, que “és capaz de fazer melhor” soou a desafio. E com o seu ar de “faço melhor porque EU quero fazer melhor”, desenha letra a seguir a letra, todas alinhadas e (quase) todas do mesmo tamanho.
Fim de dia, vamos comer pescada à brás.
Peixe é peixe, o bacalhau é melhor com natas, e depois do jantar há bolo. Eles vão-se sentar no sofá, eu vou-me sentar no chão, a Magui vai-se sentar no meu colo, eu vou dar-lhe beijinhos no pescoço até ela dizer “mamã, pára!!”
e vou fechar os olhos e inspirar o cheirinho a bebé que ainda tem.
Elas estão a crescer, cada uma a seu ritmo e à sua maneira tão especial.
E é tão bom vê-las crescer.