Dia 56


Ontem respondi a um questionário sobre “exaustão parental”. Entre muitas outras questões importantes, questionava-se se estava a ser mais ou menos difícil coordenar o trabalho com a família; se havia a sensação de não estar a dar aos filhos a atenção que se achava dever dar; se se estava a entrar em modo sobrevivência.
Responder a este questionário, para além de estar a contribuir para o conhecimento, fez-me sobretudo avaliar aquele que tem sido o meu desempenho enquanto profissional, mãe, esposa, amiga, irmã, colega de trabalho nestes dias.
No geral, e de uma forma global, acho que as coisas têm corrido bem: ainda não gritei nem fritei, tenho conseguido respirar para não subir o tom quando explico pela quinta vez como saber quantas dezenas cabem no número 53; os trabalhos e exercícios enviados pela professora estão *finalmente* up-to date, nada em atraso, e até já consegui digitalizar todos os trabalhos de casa e enviar por e-mai, separados por datas e em PDFs levezinhos.
A casa tem estado mais ou menos arrumada, cama feita todos os dias, a máquina de lavar louça tem trabalhado intensamente (é nestes dias que dou graças por a termos comprado) e não fosse a panela da sopa ser pequena, ridiculamente pequena, e até comeríamos sopa a todas as refeições.
Mas estou cansada de cozinhar. Estou cansada de YouTubers. Estou cansada de imprimir fichas. Estou cansada de dizer pena enésima vez “por favor, não mexam nisso”. Estou cansada de estar em casa, dia a seguir a dia a seguir a dia a seguir a dia, e a tentar – nestes resumos que não sei quanto tempo mais irão ser feitos – encontrar em cada dia algo novo, algo sobre o qual valha a pena escrever.

Nos dias como o de hoje, em que a cabeça dói mais um bocado, faço questão de olhar para fora, para a vida lá fora.
Na Branca, no terreno em frente à minha casa, corta-se o azevém (pelo menos é o nome que lhe dou). No ano passado, vi apenas as ervas colhidas quando cheguei a casa no final do dia.
Mas hoje vejo o trator ao fundo, os vizinhos a atravessar o campo. No ar paira o cheiro a palha meio seca, e eu dou graças por não ter alergias e poder inspirar, fundo e sem medo, este cheiro a trabalho de campo.
E lembro-me que a minha oliveira (que é do tempo dos avós do Gonçalo) está cheia de bolinhas e que em breve estará em flor. E que as hortenses estão a abrir. E que já consigo dar duas voltas à casa, a correr ao lado do Mimos, sem perder o fôlego e sem parar para descansar. São só duas voltas, mas são mais duas voltas que há cinquenta e seis dias, lá atrás.

Há sempre algo a descobrir, se eu tiver vontade de olhar. Hoje, foram as flores da oliveira e o cheiro à palha cortada.

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