Sábado, igual a todos os sábados.
Acordar e tomar o pequeno-almoço, acordar a Mariana, ajudá-la a preparar as coisas para a aula de música que irá começar dali a nada. Acordar a Magui, fazer-lhe cócegas nos pés e dar-lhe beijinhos até ouvir “já cheeeega!”.
Dar os bons dias ao Gonçalo, dizer-lhe “devias dormir mais um bocado”, perceber que ainda está cansado do ir e vir desta semana que parecia não terminar (se eu sou dos que ficaram em casa, ele é dos que saíram para trabalhar todos os dias; foi preciso – é preciso – coragem e força de vontade para, dia após dia após dia, sair de máscara e viseira para fazer o seu trabalho, para fazer o país andar).
Depois, limpar, arrumar. Cuidar da casa, cuidar dos meus.
À tarde nova aula de música. Na hora em que as aulas coincidem, aproveito para brincar com o Mimos e para ler um bocado. Guardo a leitura para estes pedaços de tempo, em que a minha ajuda não é precisa e me posso sentar no sofá sem ter de me esconder. “1984”, já li metade, e percebo que valeu a pena ter esperado estes anos todos para o ler.
Acaba a aula, acaba o sossego: “Mãe, vem cá para fora!”.
“Mas chove…” – digo. E depois forço-me a recuperar a máxima que com chuva também se brinca, deixo o que estou a fazer, saio para o alpendre e fico a olhar a chuva que volta a cair com força. Troveja, o portão grande vibra com a força do trovão, e eu olho para o jardim como se fosse a primeira vez. “Mariana, olha só que verde…”
Ela encosta-se a mim, “gosto tanto destas tardes…”, e ficamos assim uns segundos, sem falar e só a sentir, até sermos interrompidas por um cachorro tonto que nos quer roer os pés.
“Para dentro, a mana ainda tem de fazer trabalhos de casa”.
E volto ao escritório, e a Magui volta ao meu colo, e volto a repetir “vá lá, só faltam duas folhas”, e volto a ouvir “mas são taaaaaaantas frases”. E convenço-a a brincar às frases pequenas, cada uma com uma cor. E assim avançamos mais um pouco nesta espécie de trabalhos forçados que é fazer os deveres de casa ![]()
Ao jantar, caldo verde e depois pizza. Massa do Lidl (o meu fermento ainda não está no ponto), molho do Intermarché. “É boa”, dizem. “Podíamos fazer sempre assim, um jantar destes todos os sábados”. E eu, que não gosto de cozinhar, começo a achar que é boa ideia.
Amanhã é Domingo. Há bolos de chocolate a arrefecer no balcão, e a cozinha ainda cheira a forno. Um cheiro bom, de casa cheia. E eu, que não gosto de cozinhar, percebo que vou ganhando um certo gosto por isto, por esta coisa de pensar no que eles gostam, de pensar em algo que torne um dia diferente do outro.
Hoje foi pizza, amanhã serão bolos de chocolate.
Um dia destes, atrevo-me a fazer arroz doce ![]()