Dia 56+13


Uma das grandes lutas deste confinamento tem sido convencer uma garota de 7 anos que os trabalhos de casa são para se fazer. Que são para se fazer no dia, não dois dias depois. Que se não os fizer, não sou eu que vou explicar isso à professora: se decide não fazer, é uma decisão dela, depois que lide com o que aparecer.
É pesado para uma criança tão pequena, fazê-la pensar que terá de lidar com as consequências (boas e más) das suas escolhas?
Talvez.
Mas entre lágrimas e risos e subidas para a mesa, entre um lápis que tem mesmo mesmo de ser afiado e que só pode ser afiado pela afiadeira rosa, ou a letra que tem mesmo se ser apagada pela borracha do unicórnio porque as outras não apagam bem (mentiram, apagam todas), esta é uma das estratégias que vou usando. Tem resultado. Dá-me cabo da cabeça, mas tem resultado.

No final de semana os trabalhos foram alguns. Matemática na boa, Estudo do Meio marcha bem, mas o Português – as frases, as regras, a escrita – tem sido coisa para quase me tirar do sério. É porque dói a mão. É porque são muitas. É porque ainda não aprendeu aquela regra. É porque não apetece. E eu lá vou negociando, balançando o mimo com a voz mais séria, dando colo sempre que é pedido (isso nunca nego) e fingindo não rir quando a vejo a rabiar.

Ontem de manhã foi assim. Uma frase de cada vez, tirada a ferros, com histórias e brincadeiras pelo meio.
Depois, à tarde, teve ATL. E aquilo que comigo levou horas (horas? dias…) com a Sandrine levou minutos. Sempre a rir, a “palhaçar”, a dizer “sei mais uma, sei mais uma”.
E eu com cara de idiota aliviada, erguendo as mãos ao céu e pensando que se fosse assim todos os dias eu teria, ao dia de hoje, menos 10 cabelos brancos.

Mais tarde, contei este episódio a uma grande amiga. Entre as gargalhadas que soltou, conseguiu dizer “é bom, Mónica, é bom. É sinal que continuas a ser ‘a Mãe’ “.
E eu pensei que ela tem razão (como sempre, aliás). Eu sou a mãe. Não sou a professora, não sou a educadora, não sou outra coisa a não ser *a mãe*.
E com as mães é suposto ser assim mesmo: negociar, fingir que se chora, fazer birra, pedir colo, dar mimo, dizer que não, agora sim, mas é muita coisa, então está bem.
O facto de, nestes dias, se estar a ser professora de apoio, explicadora, educadora, cozinheira, arrumadora, o facto de se estar a trabalhar em casa e na casa, de sobrepor às oito horas de trabalho todas as outras camadas que caíram em cima estes dias, não pode anular o que representa, para elas, a mãe.

Hoje houve de novo trabalhos. Ainda não estão todos feitos (claro), mas a esta hora essa é uma guerra que não me está a apetecer comprar.
Vou dizer para arrumarem os brinquedos que estão no chão da sala.
Vão reclamar, vão negociar, vão vencer.
São dez horas. E o que eu quero, agora e até elas irem dormir, é ser apenas mãe.

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