. Acordar, beber café, lavar alpendre, limpar janelas.
Limpar vidros, puxadores, interruptores.
Há um cheiro a lixívia que se agarra à “roupa de andar por casa”. É o cheiro a limpezas da Páscoa, quando expulsamos o inverno e nos preparamos para acolher dias maiores.
As miúdas acordam. Venho para dentro, “um beijo, mamã”, e eu fico de alma cheia porque no meio de tudo isto – que dentro de casa, dentro de muros, pouco mais é que quase nada – ainda há espaço para beijos e abraços, para Ioga de pés descalços, para colo de colos pequenos.
A Mariana afina os planos da festa de anos (vão ser 10, daqui a dias), que incluem bolo de chocolate e um dia sem trabalhar. “Tens pasta de açúcar, não tens, mãe?”
E eu digo que sim, e faço um esforço para me lembrar de quantas gotas de água se misturam em açúcar em pó, e quanto tenho de mexer até que a mistura se forme em creme.
Tudo se faz, tudo se resolve. Tudo se (re)inventa.
A avó Lúcia trouxe bolachas, “de baunilha”, “as que nós gostamos”,
e eu percebo que para elas as bolachas de baunilha são como os biscoitos de limão que eu comia quando era pequena: sabem a casa da avó, a abraços apertados.
Digo-lhe “tenha cuidado”, e sinto no peito o orgulho de ser sua nora.
Agora é fim do dia, hora de banhos.
O ar cheira a noite e a relva cortada, e na cozinha há biscoitos.
Falei com os meus, e o coração serenou.
Por hoje basta, o corpo está cansado de se ter mexido.
Não preciso de mais para ser feliz.