Hoje não me apetece escrever. Disseram (li) que não se vai poder ir à praia, que vamos ter de ficar em 9m2 e eu, que nem gosto de praia e no ano passado só lá fui três vezes, fiz birra e fiquei como o tempo: cinzenta, chata, aborrecida.
Há dias, quando falava com a minha mãe sobre estes dias de clausura voluntária, dizia-lhe que nunca tínhamos passado por isto. E ela recordou que, no tempo dela, passou fome e frio; que muitas vezes não havia que comer em casa; não tinham calçado, andavam descalços. Mas que podiam correr, podiam subir e descer montes. Não havia dinheiro, não havia quase nada, mas havia o sentimento de liberdade de não estar preso, de poder correr.
É certo que eram crianças – a minha avó, adulta, devia achar a privação de liberdade algo muito inferior à fome ou ao frio. Mas a minha mãe, que passou muito e passou por muito, diz-me que “pelo menos podíamos brincar”.
Esta ideia de não saber o que aí vem, de não saber como vai ser, é assustadora. O modelo que temos agora – pais em casa com os filhos, quando tal é possível – não é sustentável a longo prazo. Estamos a aguentar porque entretanto chegam as férias e há uma pausa. Mas imaginar este sistema no início do ano, e durante um ano letivo inteiro? Assusta. Da mesma forma que assusta pensar em deixá-las na escola, entregues à sua ainda pequena responsabilidade.
É. Hoje não me apetece escrever. Estou de birra, como as crianças.
Acho que vou amarrar o burro, beber chá, e esperar que o sono cure o mau humor.