Ir ao fundo e voltar

. Quando era pequena não sabia nadar. Mais ainda, tinha um medo da água funda só comparável ao medo que tinha de andar de bicicleta e de fazer a “roda” (aquela coisa de ginasta em que o corpo roda e as mãos ficam no lugar dos pés).

Enquanto o medo de andar de bicicleta ainda perdura (só deus sabe o esforço que faço para não tremer quando um carro, pessoa ou moquito passa por mim a bulir), o da água foi sendo “tratado” à custa de muita paciência, insistência e persistência do meu padrinho, um homem muito à frente do seu tempo.

Dizia-me o meu padrinho, de cada vez que me levava às piscinas do Luso e me tentava fazer nadar: “Moça, não desistas. Bate os braços e as pernas que o ar que tens no corpo faz o resto. E, se fores ao fundo, é bom sinal: é sinal que estás mais perto de bater com os pés e voltar a subir em direcção ao sol”. E tinha razão, o meu padrinho. Nisto como quase em tudo. A não ser que o fundo seja de lodo, e o lodo nos prenda, não há como bater no fundo para ganhar força para voltar a subir.

Ontem foi um dia pesado para todos, e muito pesado para mim. Quem me conhece sabe que sou pessoa que se realiza com o que faz e não com o que ganha, e que o dinheiro, para mim, só tem valor quando é traduzido em coisas que me fazem sentir bem. Mas ontem, ao fim do dia, tive de me enrolar num canto e deixar, durante os 10 minutos que durou o choro, que todas as coisas pesadas desta semana me caíssem em cima com toda a força que conseguiam ter. Por dez minutos desisti, deixei-me ir ao fundo. E depois decidi que já chega.

O dia de hoje não é em nada diferente do dia de ontem: continuo com a corda ao pescoço, a minha família continua com problemas bastante graves, a situação do país continua péssima. Ou está ainda pior, porque hoje as pessoas já não perguntam “porquê?” e começam a pensar no “para quê?”. E isto é mau. Porque o medo vai voltar: o medo de ser assaltado por causa de 5 euros, o medo de ser agredido, o medo de tudo.

Eu continuo a ter medo, continuo a ter receio, continuo a ter vontade de sair daqui e me enfiar no canto escuro da minha alma. Mas decidi que está na hora de esbracejar e de voltar acima.

Nem que seja para bater com a cabeça em algum barco 😛

18 meses

.  A Mariana faz hoje dezoito meses. Dezoito. Muitos dias e muitas horas de uma vida que começou ainda antes de ela nascer, quando era só uma coisa mais pressentida que sentida e na qual tinha medo em acreditar.

Dezoito meses plenos, cheios, vividos de uma forma que quase parecem dezoito anos. Está connosco há poucos meses e parece que fez parte de nós a vida inteira. E está tão grande e tão pequena…

Reconhece as formas e sabe encaixar peças, tem boa memória, gosta de livros e de escrever. Dança quando ouve música, corre a casa toda. Coloca os papéis no ecoponto e gosta de fazer construções com os pacotes de leite que vai buscar à despensa. Sorri – muito. Tem um sorriso que lhe chega aos olhos, feito de mimo e da certeza de ser amada.

Faz asneiras e desafia-me todos os dias. Quando me vê de cara feia (e Deus sabe o esforço que faço para a manter) faz beicinho e vem-me dar beijos cheios das desculpas que ainda não sabe dizer. E gosta de colo. Gosta muito. Quase tanto quanto eu gosto de o dar.

A cama dela continua ali, ao lado da minha, numa persistência que vai contra todas (ou quase todas) as regras que ditam os livros mas que me faz bem ao coração. Adormeço a olhar para ela, e é ela que me acorda ainda antes de o despertador tocar. Dou-lhe colo, muito colo. Dou-lhe beijos, tantos quantos consigo dar. E sento-me com ela, no chão, a aprender como ela descobre as cores e as formas. E quando aqueles olhos que não são verdes nem castanhos me olham a sorrir, sinto um calor na alma que me faz ter a certeza de que estou a fazer um bom trabalho.

Sou mãe há dezoito meses. Há dezoito meses que não tenho uma noite completa, que não vou ao cinema, que não tenho uma refeição descansada. Dezoito meses de reconstrução daquilo que eu pensava que devia ser. E nunca, mas nunca, me senti tão plena e tão feliz.

Parabéns, pequeno amor da minha vida 🙂

coisas de que gosto

.  Gosto de imaginar que os livros acumulam as ideias e os sentimentos das pessoas que os lêem e que, por isso, quanto mais velho for um livro mais emoção consegue transmitir. Gosto de pensar que os livros que tenho no quarto (e que foram escolhidos a dedo e a letra) se abrem durante a noite e que as suas ideias e palavras percorrem o ar enquanto eu durmo. E que é por isso que os meus sonhos têm cores e sinto cheiros e texturas, e que é por isso que, num ou outro sono, sonho com pessoas que nunca conheci.

E gosto de imaginar que, quando sonho com um desconhecido ou conhecido, esse (desconhecido ou conhecido) também sonha comigo. E que, num dos milésimos de segundo que dura o sono, nos encontrámos no mesmo espaço que não é físico e vivemos algo juntos. Algo que recordamos, mesmo sem saber o quê, quando nos encontramos acordados e dizemos “eu conheço-te de algum lado, não conheço?”.

Gosto de imaginar que  há coisas sem nome, ainda à espera de serem. E que os sons que não são palavras são as ideias no seu estado mais puro. E que, se nos esforçarmos um pouco enquanto fechamos os olhos, seremos capazes de conhecer mais do que aquilo que os olhos captam. E que poderemos, enfim, compreender que o mundo e a vida se definem por mais do que as coisas e as palavras que já existem.

Que estas são apenas uma pequena parte, aquela que já foi descoberta.

E que, nos sonhos, temos muito mais para descobrir.

as pequenas coisas que me fazem sentir grande

.  a vida não se compadece dos sentimentos nem das emoções. os dias que se sucedem uns atrás dos outros não esperam para que possamos, por dois ou três segundos, parar para poder sentir. não há tempo nem quase espaço para nos deixarmos aquecer pelas pequenas coisas que tornam grande a nossa vida.

é por isso que dou graças, a Deus e a quem tornou isto possível, pelos dias e noites em que me vou fazendo mãe. o primeiro sorriso da Mariana? recebi-o, num segredo de madrugada, quando o cansaço quase anulava a felicidade que quase temia sentir. a primeira palavra – “mamã” – , ouvi-a da boca dela. e a segunda – “papá”, também.

estive lá da primeira vez que se sentou. da primeira vez que brincou no banho. da primeira vez que comeu sozinha. da primeira vez que gatinhou. e, os primeiros passos que deu – sem apoio e sem ajuda – deu-os em direcção a mim.

ser mãe é um privilégio. uma vida dentro da vida. uma coisa cheia de pequenas coisas.

sou feliz 🙂