Dia 42


. Há dias em que parece não termos tempo nem para respirar.

Em que se coloca uma máquina de roupa a lavar enquanto o café aquece. Em que se toma o pequeno-almoço num fôlego e com olhos de sono, em que se bebe o café enquanto se acorda o computador.
Dias em que nos sentamos à mesa-secretária e só de lá saímos para dar almoços.

Dias em que não se brinca com as filhas, nem se dá mimos ao Mimos. Dias em que a a telescola é vista a partir do sofá, com o caderno no colo. Dias em que não se acompanha os trabalhos, se deixa a mais velha orientar a mais nova, e se pensa “amanhã dou conta dos outros recados”.
Dias em que se come (mais uma vez) massa com atum, porque a carne não descongelou a tempo e não há tempo para inventar mais nada.
Dias em que a tarde é passada sentada, e à noite os músculos doem do esforço de estarem inativos.

Mas é também nestes dias que se fica satisfeito por a roupa de manhã lavada já estar seca, no cesto e pronta a ser dobrada.

Que se fica contente por as feveras-febras do jantar terem saído melhor que o costume. Que se fica um bocadinho feliz ^-^ por ver que a tarefa-missão de se tentar fazer massa-mãe está a correr bem, e que já se veem bolhinhas a espreitar pelo vidro do frasco.

Foi um dia de grande trabalho e de pequenas conquistas.

Sim… foi um bom dia 🙂

Dia 41


. Dia de sol e vento.

Dia de ter muito trabalho e de dar graças por isso, ainda que esteja cansada e o dia (de trabalho) ainda vá durar mais umas horas.
Dia de as deixar assistir à telescola no sofá, e de as fazer sentar à mesa do escritório para fazerem os trabalhos.
Dia de lhes pedir muita, muita paciência. E de almoçar sopa e massa com atum.
Dia de ver a Mariana a ajudar a irmã.

De a ver a falar com a professora e os colegas.
De sentir um pequeno orgulho em ver esta gente que trabalha em casa e a partir de casa, ou que sai para trabalhar todos os dias; que trabalha e luta, e faz sopa e trata da roupa e tenta não desistir.
E orgulho em fazer, de certa forma, parte desta gente.
Mesmo que o cansaço seja grande, mesmo que não se saiba quando vamos poder entrar no novo-normal.

Chegámos até aqui. E isso já é uma vitória.

Dia 40


. Hoje a manhã acordou com chuva.

E houve a escola desde as nove, e os trabalhos recebidos no e-mail da mãe, e um teste de video-chamada, e fichas para fazer. E foi preciso insistir para que uma ficha cheia de “um, um, um, um” fosse terminada em tempo útil.

A Magui continua a não gostar de fazer cópias, e vai buscar à terceira costela do lado direito aquelas lágrimas gordas que apresenta quando está a avisar “mais dois minutos e faço birra”. E é preciso aplacar a fera antes que ela se solte. E é preciso tirar os fones e dizer “anda lá que a mamã ajuda”. E respirar fundo (tão, mas tão fundo) para manter o tom baixo mas firme a que estão habituadas.

A cada hora, a cada minuto, esforço-me por recordar que a vida delas também mudou.

De um dia para o outro foram-lhes retirados colegas, amigos, professoras, sala de aula, recreio, bilhetes, flores, beijos, esfoladelas. De um dia para o outro passaram a aprender em casa, por folhas e fichas. De um dia para o outro, passaram a usar internet para aprender e não para brincar.

E a cada hora, mas não a cada minuto, tenho de lhes ir lembrando que do lado de cá (dos pais, dos professores) a coisa também está diferente. Que já não temos as oito horas seguidas de trabalho. Que nos faltam os colegas, os amigos, as flores e até alguns beijos.

Hoje cumprimos cronologicamente a quarentena. São quarenta dias em casa, a tentar gerir o que se consegue e a resolver o que é possível.

À tarde, quando o sol abriu, mandei-as para fora brincar.
“Mas está molhado!”, “Calcem botas”.
“Mas está frio!”, “Vistam casaco”.

E saíram para brincar. E por meia hora o alpendre foi o recreio, e houve risos e brincadeira, gargalhadas e um joelho esfolado que se tentou esconder do pai.
E o Mimos, que toda a tarde se perguntou porque é que hoje ninguém brincava com ele, descansa agora cansado e pede para ir dormir 🙂

Não está a ser fácil gerir tudo, não vai ser fácil gerir tudo.
Vamos indo, um dia de cada vez, adaptando-nos às novas realidades que vão surgindo.

Hoje foi a Telescola.

Amanhã… quem sabe?

Dia 39


. Domingo, acordamos todas antes do papá.

“Venham cá, que vos quero tirar uma foto. Já não tiramos uma há muito tempo”

E elas fizeram a pose, e fizeram beicinho (acho que é assim, nas poses, que se percebe que a filha está a crescer). E quiseram ver como ficou, “oh mãe, eu fiquei despenteada”, e “podemos tirar outra?, por favor diz que sim”.

E enquanto percorriam as fotos tiradas, a ver qual ficava melhor, percebi que elas estão bem. Que estão a aguentar isto como mulheres, reconhecendo o que sentem falta e ajustando a vida para tudo o resto que continuam a ter.

Estão a aguentar-se bem.
Não viraram as costas à mudança, enchem o peito de ar e dizem “podes ligar a câmara”. Saltam de um trabalho ou de uma aula para outra, respiram fundo, e continuam.

Não sei como vai ser o futuro, ninguém sabe.

Mas, pelo menos para já, estão a conseguir lidar muito bem com tudo isto.

Dia 38


. Não sei se é de ter acordado cedo, ter estado com o Mimos, ter voltado para casa e (porque era mesmo muito cedo) ter ficado meia hora a re-adormecer no sofá.
Não sei se é por ter mudado os lençóis, ter lavado as toalhas. Ou se é por ter estado um dia bom para secar roupa.

Não sei se é por ter visto as duas garotas a falar com as professoras de música, a tentar desbravar – tão mais cedo que a mãe – este mundo do ensino que agora se faz à distância.
Não sei se é por ter ouvido a Magui a dizer à professora que o melhor da Páscoa foi ter recebido um cão, ou se foi por ter escutado a Mariana enquanto tocava flauta de uma forma quase perfeita.

Não sei se é por ter a casa limpa, as miúdas de banho tomado. Não sei se é por estar cansada dos sábados que cansam o corpo mas aliviam o espírito, não sei se é por a cozinha cheirar a pão.
Não sei se é por faltar pouco para ser noite-noite, e daqui a nada estarmos as três no sofá a ver Vaiana e a comer pipocas.
Não sei se é por ter morangos. Se é por abrir a porta do frigorífico e ver as coisas adiantadas para a semana. Se é por ver que, felizmente, do que é preciso nada falta.

Não sei se é por ter acordado cedo, se é por ter estado um dia bom para secar roupa, se é por lhes ter lavado os cabelos ou por sentir que hoje cuidei dos meus.
Talvez seja por tudo isto.
Não sei.
Mas sei que agora, quando o dia se despede e a noite chega,
sinto o coração cheio de luz