Dia 37


. “Mãe, anda brincar!”
Agora não, não dá. Tenho trabalho para fazer, preciso aproveitar a manhã, daqui a pouco são horas de almoço e aí, então, paramos.

“Mãe, anda cá para fora brincar!”
Agora não, não dá. Venham para dentro almoçar, daqui a pouco são duas horas, ainda queria pôr roupa na máquina e nem sei se hoje volta a chover.
Espera só mais um bocadinho. Só me faltam três pontos deste texto, mais uma hora e fica fechado, e se parar agora amanhã tenho de voltar a fazer quase tudo de novo.

“Mãe… anda brincar!”
Já fizeram os trabalhos? Está tudo feito, ficou alguma coisa para amanhã?
Amanhã há música às nove, vais aprender a usar o moodle, e à tarde há classe de conjunto. Estamos em casa, mas agora a casa é a escola e temos de ter as coisas em ordem para ter tempo para fazer tudo.

“Mãe, anda cá para fora só um bocadinho…”
Está bem, vou.
Está sol, parou de chover e daqui a nada chove de novo, e preciso aproveitar este tempo em que estamos juntos. Saio de casa, ando de baloiço. O Mimos corre atrás da bola, a Mariana corre atrás do Mimos, a Magui quer sentar-se ao meu colo e eu rio enquanto vejo os meus pés a subir em direção ao céu.

“Mãe, ficas cá fora connosco?”
Não dá… preciso mesmo acabar aquele trabalho, para mais tarde poder estar convosco.
Já são quase horas de jantar, hoje é buffet. “quem quer massa com carne? quem quer massa com atum?”
Não janto com eles, vou antes tomar um banho, o corpo dói de ter estado sentada quase todo o dia e a cabeça estoura de tanto pensar.

O alívio que normalmente se segue ao ter uma tarefa fechada ainda não encontrou o seu caminho, perdeu-se entre o fazer jantar e o “vai já lavar as mãos”, entre este fim de dia e início de noite.
Estou cansada, e dói-me a cabeça.

Mas hoje andei de baloiço, e vi os meus pés tocar no céu 🙂

Dia 36


. No primeiro dia que passámos em casa a Margarida fez a mala.
Pegou na mala de cabine e colocou lá dentro tudo o que considerou importante colocar: mudas de roupa, calçado, bandoletes; um boneco; verniz laranja e roxo; perfume, escova, e um saco com pipocas para micro-ondas.
Disse-lhe que não entendia, que não era preciso e que tão cedo não iríamos sair de casa. Respondeu que sabia, e que assim quando se pudesse sair/quando fosse preciso, já estava pronta.

Confesso que por vezes me assustam estas convicções de gente ainda tão pequena. Parece que sabem mais que nós, que anteveem o futuro, que têm um sétimo sentido ainda não desbotado pela idade que os deixa ver um pouco mais além.
Nesse dia, nessa primeira semana de um tempo que não se sabia – e ainda não se sabe – quanto iria durar, fiquei a pensar nesta ideia de estar preparado, de ter consigo tudo o que se precisa para continuar noutro lado qualquer.

Hoje o dia foi relativamente tranquilo, e correu melhor do que eu esperava: três birras e dois amuos, pouco mais. Uma vontade de terminar todos os trabalhos, um querer fazer as coisas bem feitas. Um escrever, apagar, voltar a escrever.
Ao início da tarde, unhas pintadas e “mãe, faz-me uns totós”. Na parede ao lado da mesa de trabalho, a foto dos amigos e os desenhos de figuras onde se leem alguns nomes: Lara, Rodrigo, Margarida… obra do quinto dia quando, percebendo que não voltaria à escola e não encontrando a foto de turma, pegou numa pasta de trabalhos manuais e reconstruiu, na parede do quarto-escritório, a companhia de todos os dias.

Hoje a Magui teve a sua primeira aula online. Viu os amigos, contou-os, disse “ainda falta um”, pôs a mão no ar para responder, disse “professoooooora, ó professoooooora” quando sabia a resposta. No fim, deu-me um abraço do tamanho do mundo e disse “este foi o melhor dia de sempre”. E eu tive a oportunidade de a ver naquele mundo onde se canta o H mudo, onde se passeia na Aldeia dos Tracinhos, onde se aprende com gestos e se festeja a escola com palmas.

Quando elas entraram na Escola, o meu medo era que o formalismo e o rigor lhes retirassem a vontade de aprender. Que lhes secasse a sede de saber mais. Que se sentissem tão apertadas e carregadas que a escola – que para mim sempre fora um espaço mágico – fosse fonte de angústia, medo, preocupação.

É tão, mas tão bom, saber que não é assim 🙂

Dia 35

. Manhã.
O escritório-quarto-estaleiro onde trabalho todos os dias está confuso de vozes e do som das ventoinhas dos computadores. Há música calma a sair da coluna, pela janela ouve-se a chuva, elas trabalham ou fingem que sim.
Têm sido pacientes comigo, como eu tenho sido paciente com elas.

Para quem gosta de silêncio, não é fácil trabalhar com tanto som misturado.
Desisto dos auscultadores ao terceiro “mãe”, digo que sim, que podem fazer uma pausa, vigio o tempo até ser hora de regressar.

Querem fazer os trabalhos mas pedem ajuda.
Não se lembra como se escreve o G maiúsculo, quer o telemóvel para ver como se desenha um leão.
Pergunta se pode fazer o texto mais tarde, não se recorda do nome dos oceanos, diz que é matéria nova que já estão a aprender.

Por volta da uma, o toque curto da campainha.
“É a avó Lúcia!!!”.
E, debaixo de chuva que teima em cair espaçada, recebo um saco com um almoço acabado de fazer.
“Adoro o sabor da comida da avó”, dizem.
E eu respondo que sim: que a sopa dela é das melhores que conheço, e que as ervilhas que ela fez só para nós são a coisa mais deliciosa que comi esta semana.

À tarde, sentada no meu colo, a Magui fala com a professora e com os amigos.
Ri ao ver quem não vê há muito, rosto rosado e olhos brilhantes.
“Falta ainda o meu amigo”, diz. E salta quando vê a imagem do amigo a aparecer.

A Mariana faz mais uma ficha, trabalha no meu computador “que é tão lindo e tão moderno”, diz que posso ir tratar da vida enquanto ela termina o que está a fazer.
E eu olho para ela, tão crescida em tão pouco tempo (dez anos não é nada), a tentar aprender esta coisa de estudar sem ser na escola, de num repente poder trabalhar com as mesmas ferramentas dos pais.

E estes, agora, são os meus cinco minutos. Aqueles que separam o dia intenso da noite calma. Aqueles em que eu digo que “já volto” mas em que me demoro mais um bocado.
Aqueles em que me sento, coloco os auscultadores, escolho a música, viajo um bocadinho, bebo chá ainda quente, coloco as coisas e as ideias em ordem.

Daqui a pouco regresso à sala, digo “são horas de dormir”, finjo que não ouço os protestos, cedo ao “ainda não estiveste aqui connosco”, sento-me uns minutos no sofá.
A Magui vai-se sentar ao meu colo enquanto esconde os pés sem meias, a Mariana vai-se encostar ao meu ombro e pedir que lhe dê a mão.
E dia que começou calmo e continuou agitado até se tornar calmo outra vez
vai docemente terminar.
Para, daqui a nada, começar um novo dia.


Dia 34

. O dia em que voltei a acordar cedo, a beber café, a sentar uns minutos no sofá.
O dia em que voltei a esticar o corpo antes de começar a trabalhar.
O dia em que as acordei de novo com a canção do Bom Dia, e as levei para a sala ao colo e pela mão.

O dia em que o tempo passou num ápice, sem que nada de relevante se tivesse feito.
Ou o dia que parecia esticar-se infinitamente, em que falei e ouvi e escrevi,
e expliquei e dei almoço e voltei, e desliguei câmara para dar abraço e voltei a ligar para dar feedback.

O dia em que se reclamou porque se queria fazer uma pausa,
e quando era a hora da pausa se insistiu em trabalhar.
O dia em que se disse “as saudades que eu tinha da sopa da avó”,
enquanto se comia deliciada a sopa que a avó deixou no muro.

O dia em que só houve duas birras pequenas,
o dia em que se brincou um pouco menos,
o dia em que o jantar se serve mais tarde
para que se aproveite o sol que ainda está lá fora.

Não estamos a construir a escola do futuro, estamos a construir a escola possível, dentro do que é possível. Aquela que se alicerça realmente nos professores e nos pais.

Este foi o primeiro dia de um modelo diferente.
Amanhã há mais 😛


Dia 33

. Manhã.
As meninas brincam lá fora, correndo atrás do Mimos que corre atrás delas, rostos redondos e rosados e olhos brilhantes de animação. Pedem que me junte a elas, e eu digo “é só terminar isto e já vou”.
Magui vem para dentro, senta-se ao meu lado, pede para fazer uma pesquisa no google, e eu peço que espere só mais um bocadinho.

Antevejo o que será amanhã: eu com aulas, elas com aulas, tudo no mesmo dia. Um recomeçar a três (ou a quatro, dado que o papá também volta ao trabalho após uns dias de merecido descanso).
A partir de amanhã, voltamos ao acordar à hora certa, aos pequenos almoços por volta das oito, ao deixar de estar em pijama e ao brincar com o Mimos só nas horas de descanso.

A Magui pergunta se volta à escola, e eu tenho de lhe explicar que a escola ainda não será com os colegas, lado a lado, na mesma mesa e a partilhar os lápis e as borrachas: que será em casa, a falar com os amigos pelo computador, a fazer os trabalhos que a professora manda.
(o trabalhar online, que a mim está a assustar um pouco, é para elas fonte de entusiasmo e de boa antecipação. Assim seja. Para receios e antevisões de problemas que poderão nem existir, basta uma 🙂 )

Fim de dia.
Peço que arrumem o que ficou ainda espalhado na mesa da sala, que juntem o que ainda está disperso.
A Mariana termina o desenho, “uma menina que está a espalhar a sua energia pelo mundo. Está a levitar, e de dentro dela sai a luz”.
Ontem vimos “a canção do Mar” (a RTP2 tem a melhor programação do mundo) e a imagem da luz que todos temos, e com a qual conseguimos iluminar os outros, ficou-lhe no pensamento e concretizou-se no desenho que agora terminou.

Hoje é segunda.

Amanhã é terça, segundo dia da semana, primeiro dia de uma nova forma de estar na escola, de estar na vida.
Não sei como vamos sair destes dias, mas sei que estar com elas tem-me dado a energia e a paz que necessito.
Estar com elas – ainda que nas condições particulares que vivemos, pelos motivos que a isto nos obrigam e com os medos que não consigo deixar de sentir – tem tornado estes dias nos melhores dias da minha vida.