Dia 47


. Estes têm sido tempos de tempo diferente. Muito lento nos primeiros dias, em que o medo imperava e cada noticiário era seguido com angústia e ansiedade. Em que a cada chamada tentava adivinhar sinais de tosse ou de fraqueza. Dias em que o medo tomou conta.
Depois, dias estranhos, a meio gás. Com manhãs de acordar cedo e fazer muito, tardes letárgicas e fins de dia acelerados.
Demorei a encontrar um ritmo – penso até que ainda não o encontrei. Mas tentar implementar rotinas (para mim, não para elas) tem-me feito adormecer mais cansada e descansada, e acordar com a sensação que o dia já não vai correr em roda-livre.

Hoje acordámos cedo. Vimos a telescola. Ouvimos a história cantada e a história contada.
Magui ao meu colo, Mariana ao meu lado.
Depois deixei-as sozinhas, a gerir o seu tempo, enquanto eu geria o meu.
Ao almoço, sopa e empadão da avó.
À tarde, Mariana crescida, faz os trabalhos do dia e fala com os colegas em Zoom. Vejo-a ao meu lado, serena e atenta, a tomar notas e a escrever nos cadernos enquanto ouve a professora; ouço-a a ler o texto que treinou no fim-de-semana. E fico orgulhosa de todos eles: dela, dos colegas, da professora, dos pais que – à sua maneira e sabe Deus como – estão a conseguir aguentar o barco.

Fim do dia. Hoje choveu, fez frio, caiu granizo, fez sol.Aos segundos raios mais estáveis, “Meninas, já lá para fora!”.
E elas deixam os Youtubes e saem para brincar. A casa faz-se de silêncio, só lá fora se ouve rir.
“Estamos a fazer uma prenda para o dia da mãe, mas não podes ver o que é” (elas sabem que para mim, o melhor não é a surpresa mas a antecipação de a receber, e que – para mim – o melhor é sempre o caminho que se faz e não o destino a onde se chega).

Cai a noite. A Mariana entra no escritório-estaleiro, e pergunta a diferença entre óleo de cozinha e óleo alimentar. Diz que é uma curiosidade, e eu – em modo trabalho – respondo sem pensar no estranho de tal questão.
Dez minutos. E as duas entram na divisão, trazendo “uma surpresa para o dia da mãe mas que se calhar vamos dar hoje”. Um chupa-chupa de caramelo, feito às escondidas entre açúcar, óleo, kits de atividades e micro-ondas.
“Ninguém se queimou?” pergunto, sentindo-me má mãe.
“Não. Lemos as indicações, e fizemos tudo em segurança. Se fosse perigoso não fazíamos”.
E eu percebo que tenho de confiar. Que não vou estar aqui sempre nem para sempre, e que elas mais cedo ou mais tarde (se é que não agora e antes de hoje) vão tentar sozinhas, vão experimentar, vão descobrir.
E que aquilo que me cabe, enquanto mãe, é tentar dar-lhes todas as competências necessárias e partilhar todas as experiências que considere úteis, para as preparar para o futuro que há-de vir.

Dia 46


. Balanço do dia de hoje: já não há bolachas de massa folhada.

As cookies foram-se todas, ainda temos bolacha maria, e pelo menos há regueifa fresquinha. Mas já não há queijo. Já não há cerveja, nem moscatel. Há vinho do Porto, uma garrafa vintage aberta para a Páscoa e que tem servido para temperar a carne.
Há água, há café, há gin. E ainda temos água tónica.

Há maçãs e ainda há morangos, e na fruteira quatro peras abacates amadurecem devagar.
Há cereais, há Nestum, há daquelas coisas com fibra e três frascos de feijão-frade por encetar.
Mudaram-se para cá por engano, pedi grão e veio feijão, e suspeito que vão ficar escondidos mais algum tempo. Pelo menos até eu aprender a fazer migas.

Apetece-me broa de milho, mas não temos. Apetece-me gelado de chocolate, mas já acabou. E queria muito – muito – arroz doce, mas nem para risotto tenho paciência e já deixei queimar o doce três vezes.
Apetece-me a broa frita da minha mãe, e o bolo com creme de leite que a minha sogra faz tão bem.

Hoje foi dia de arrumar a dispensa.
De perceber o que tenho, o que preciso, do que sinto falta.
A vida também se vive pelo paladar, pelas memórias que se constroem e pela comida que no-las faz recordar. Quem leu “Como água para chocolate” sabe do que falo.

São dez e meia.
Acho que vou atrasar a hora de deitar, e vamos as três fazer um bolo 🙂

Dia 45


. Liberdade é poder acordar um pouco mais tarde.
Liberdade é poder beber um segundo café.
É ter pão, é ter maçãs.
Liberdade é poder comer morangos silvestres, é apanhar o louro da árvore.
É ainda ter laranjas, e já ver a macieira a florir.

Liberdade é abraçar as filhas.
Liberdade é ter comida na mesa.
Liberdade é não ter medo.

Liberdade é ter um jardim diante dos olhos,
liberdade é ter amigos,

liberdade é poder viver. #25Abril

Dia 44


. Hoje foi dia de trabalhar muito e descansar pouco.
De escrever um dia inteiro, de não ver notícias, dia de não ler uma página de um livro, dia de não ver um minuto de TV.
Dia de não saber como andam as coisas lá fora.

Dia de as deixar “a crescer sozinhas”, assistindo à tele-escola e fazendo os trabalhos possíveis, dentro do que lhes é possível fazer.
Dia de comer massa com carne, deixada pela avó Lúcia do lado de dentro do muro, e de perceber que esta é a melhor “comida de conforto” do mundo. Dia de ouvir “a tua comida é boa mãe. e adoro a massa da avó”.

Dia de dizer três vezes “vão brincar lá para fora”, e de as ver entrar em casa de faces rosadas e olhos brilhantes.
Dia de só fazer três festas ao Mimos, de lhe dizer “és o meu cachorrinho lindo”, de perceber que afinal não sou pessoa de gatos mas sim de cães.Dia de varrer a varanda num minuto e apanhar roupa noutro.
Dia de dizer alto “vão arrumar o que deixaram lá fora”, e de sair para recolher o que ficou esquecido.
Dia de lhes pedir paciência. De lhes pedir que deixassem a mãe trabalhar. Dia de roubar minutos à família, e dia de os recuperar – ainda não é meia noite, e tenho meia hora para enterrar o rosto nos cabelos delas.

Amanhã é 25 de Abril, dia de Liberdade.

Que cada um a viva, à sua forma, celebrando aquilo que – nestes dias tão fora da realidade – aprendemos a valorizar mais do que nunca.

Dia 43


. Hoje invertemos os horários e organizámo-nos de forma diferente.
Hoje, parei.

Estes dias têm sido de muito trabalho (muito), e ontem foi preciso deixá-las à solta.
Ontem assistiram à tele-escola no sofá, comeram cereais enquanto respondiam a perguntas, fizeram metade dos trabalhos, a outra metade ficou por fazer.
Ontem foi um daqueles dias em que quase não me levantei da cadeira, em que a cabeça doeu de tanto pensar, em que olhei para a página cento e tal de um documento/formulário e pensei “só faltam mais 52”.
Foi dia de massa e atum, a comida dos tempos de guerra. Não houve tempo para mais, não houve energia para mais.Hoje invertemos horários. Elas assistiram às aulas enquanto tomavam o pequeno-almoço, mas às dez e meia já estavam a fazer o que ficou de ontem.

E eu parei.

Estive com uma a fazer contas em prédios, e com a outra a corrigir a pronúncia do inglês.
E parei porque percebi que não há multitasking, há alternância rápida entre tarefas, e que esta alternância me anda a gastar por dentro.
Por isso, parei.

Parei, elas pararam, parámos. Fizemos as coisas com um bocadinho mais de calma.

Passo a passo, tempo a tempo.
E recuperou-se o tempo de ontem, e as tarefas ficaram feitas, e houve tempo para ir para o jardim correr e brincar.
Às cinco e meia aula zoom. Margarida num computador.
Às seis aula zoom, Mariana noutro computador.

E eu parei.
Durante a meia hora em que as aulas coincidiram, parei. Não tinha computador para mim. Parei.
E fui adiantar o jantar. E fiz silêncio uns segundos, e percebi que durante aquela meia hora em que as aulas coincidiram, elas estavam no mundo que é delas: o da escola.
Com as professoras, e os colegas, e os amigos.

E eu percebi que naquela meia hora, a mãe não era precisa. Havia uma professora de cada lado, a dizer sem palavras “eu agora tomo conta”.
E soube bem descansar aqueles 30 minutos.
Soube muito bem, durante 30 minutos, ser só eu: não mamã, não professora, não educadora, só eu.

E assim são oito e meia, e assim volto a trabalhar.
Invertemos os horários, jantámos muito mais cedo, elas brincam na sala com o pai. E eu posso trabalhar mais um bocado.
Trabalhar em casa, com filhos, não é pera doce. Nunca foi. Trabalhei ano e meio em casa, com a Magui bebé, e só conseguia avançar quando a colocava diante da televisão – esse mundo que os fascina e os desliga do mundo real.
Parei, na altura, porque cheguei ao ponto em que aquilo já me afligia.
E parei porque voltei a trabalhar.

Quem sai para trabalhar merece aplausos e elogios.
O Gonçalo, que não ficou um dia em casa, anda de máscara e de viseira, deixa as botas fora de casa, toma banho ainda antes de nos abraçar.
O casal que se reinventou, que antes vendia gomas e agora vende fruta à porta.
O homem que acorda cedo, e que antes das oito já está a trabalhar na terra que precisa de quem cuide dela.

E nós também.
Os que ficamos em casa a ser pais e professores, a ser pais e empresários, a ser pais e educadores.
Estes dias estão a ser uma prova de fogo para todos nós.
Mas acho, sinceramente, que com dias melhores e dias piores, até não nos estamos a sair nada mal.