Dia 56+11


Hoje não desci a Avenida da Liberdade, mas fui a casa dos meus pais. Poderia dizer muito sobre isto, mas a Inês Maria Menezes resume tudo numa só frase:
“Depois destes meses parece que temos de escolher entre ficar tristes muito tempo ou arriscar viver (com cautelas).”

Não quero mais ficar triste, não aguento ficar mais triste. Preciso aprender a viver com cautelas.
Um domingo de cada vez.

Dia 56+10


O quarto das meninas está limpo, as paredes foram passadas a lixívia de alto a baixo. Roupa de cama mudada, tapete lavado, seco e de novo no seu lugar. Cortinas a cheirar a Skip e Comfort de sândalo e madressilva.
O resto da casa também está em ordem, mas hoje o quarto delas mereceu a atenção especial.
Os lençóis polares deram lugar aos de algodão, feitos pela avó Maria e que têm o tamanho certinho das camas delas. Os casacos foram lavados, secaram e estão guardados, e as camisolas mais grossas já não espreitam pelas gavetas.
É um cheiro bom, este. Cheiro a limpo, mas um limpo onde existe vida. Um limpo onde vai saber bem dormir.

Percebo nestes sessenta dias que ou mudei muito, ou então nunca me conheci bem. Dizia-me noctívaga, e agora acordo cedo para receber o novo dia; dizia-me gostar de dias de chuva, e agora o sol faz-me falta. Preciso dele, do sol, da luz, do calor. Pudesse, e voltava a refazer as janelas da minha casa, alargava-as de parede a parede. E são janelas de três metros… mas, nestes dias de estar fechada, parece que não chegam.
Por isso, antes do almoço, saí para apanhar sol. Estendi-me na varanda, Mimos a morder-me os dedos e as orelhas, e fiquei assim, a receber sol nas mãos e nos pés. Nunca, como até estes dias, percebi a falta que me faz o sol. A luz. O vento. O calor.

À tarde, o homem da casa foi cortar lenha. É assim a vida do campo, aproveitar o sol para acautelar os dias de frio. Mariana pede para ir ao monte, com o pai e a avó. Senta-se no trator que já foi do bisavô Rafael, que o avô Carlos conduziu vezes sem conta e que agora é (poucas vezes, muito poucas vezes) usado pelo papá, e pergunta se algum dia será capaz de o conduzir.
“Este não sei. Mas se quiseres conduzir um igual, é só teres idade e aprender”.
Crescem a saber que não há coisa que menina não faça. Que não há coisa que menino não possa fazer. O pai trata da roupa, a mãe da casa. A mãe arranja as torneiras, descarna fios, faz ligações em tomadas, o pai arruma a cozinha. Todos cuidam, todos tratam.Um dia será a vez delas tratarem, de serem elas a decidir.
Até lá, os pais cuidam.
E é bom – e sabe bem – cuidar de quem se ama.

Dia 56+9


Hoje não me apetece escrever. Disseram (li) que não se vai poder ir à praia, que vamos ter de ficar em 9m2 e eu, que nem gosto de praia e no ano passado só lá fui três vezes, fiz birra e fiquei como o tempo: cinzenta, chata, aborrecida.
Há dias, quando falava com a minha mãe sobre estes dias de clausura voluntária, dizia-lhe que nunca tínhamos passado por isto. E ela recordou que, no tempo dela, passou fome e frio; que muitas vezes não havia que comer em casa; não tinham calçado, andavam descalços. Mas que podiam correr, podiam subir e descer montes. Não havia dinheiro, não havia quase nada, mas havia o sentimento de liberdade de não estar preso, de poder correr.
É certo que eram crianças – a minha avó, adulta, devia achar a privação de liberdade algo muito inferior à fome ou ao frio. Mas a minha mãe, que passou muito e passou por muito, diz-me que “pelo menos podíamos brincar”.

Esta ideia de não saber o que aí vem, de não saber como vai ser, é assustadora. O modelo que temos agora – pais em casa com os filhos, quando tal é possível – não é sustentável a longo prazo. Estamos a aguentar porque entretanto chegam as férias e há uma pausa. Mas imaginar este sistema no início do ano, e durante um ano letivo inteiro? Assusta. Da mesma forma que assusta pensar em deixá-las na escola, entregues à sua ainda pequena responsabilidade.

É. Hoje não me apetece escrever. Estou de birra, como as crianças.
Acho que vou amarrar o burro, beber chá, e esperar que o sono cure o mau humor.

Dia 56+8, Dia de Margarida


Arrebata-me o coração todos os dias. Leva-me a respirar fundo quase outros tantos. É doçura e força, riso solto e lágrima fácil. É música, dança, movimento, é maquilhagens e fitas ou pijama todo o dia.
A Margarida é uma explosão de luz, um calor forte que invade o peito. É o meu anjo loiro, amor da minha vida, bebé pequenino que ainda se enrosca no meu braço para dormir.

Há sete anos, nascia a que até então era para mim a irmã da Mariana. No segundo em que ma colocaram ao colo, chorei de felicidade e soube que este amor imenso, este amor gigante, vinha para ficar. Que não ia precisar de conquistar espaço, porque o espaço já era dela por direito.

O meu amor pequenino faz hoje sete anos. Houve bolo, houve festa, há folhados de salsicha e batatas-fritas de pacote. Sente falta dos amigos e da família, mas – com o seu jeito de “se tem de ser, que seja” – adapta-se à nova realidade como se sempre tivesse sido assim.
E esta maneira de ser, tão própria e tão autêntica, sem manias nem disfarces, ensina-me que a vida é como é, com altos e baixos, com momentos que planeamos e outros que não controlamos e que nos tiram o chão.

Há sete anos, a Magui chegou.
E a nossa vida nunca mais foi a mesma 🙂🌼