eu e o palco

. há qualquer coisa nos palcos que me atrai. não sei se é o cheiro a madeira, a cera, se é das luzes, do som oco dos passos, de ter uma plateia inteira (e de preferência vazia) à minha frente, mas o certo é que os palcos me atraem desde pequenina.

experiência de palco tenho pouca, e mesmo assim essa pouca pouco é mais que umas quantas representações em festas de escola. mas, mesmo essas – num palco que não cheirava a madeira, a cera, e que não tinha uma plateia vazia – tornaram-se momentos de liberdade que são, ainda hoje, impossíveis de esquecer.

percebo perfeitamente o que dizem quando dizem que “o palco transforma-nos”, que “no palco somos outra pessoa” ou, ainda, que “quando saio daquele chão volto a ser eu”. porque também já experimentei isso, ainda que tenha sido (apenas) em peças de escola.

quando se sobe a um palco ganha-se uma liberdade de acção, de discurso, de atitude e sentimento que na maior parte das vezes não é possível na vida real. o palco, enquanto ambiente circunscrito a uns metros e contextualizado a um tempo definido, torna lógico o comportamento e a expressividade mais dissonante. no palco poderia dizer “queria que todas as pessoas desaparecessem e me deixassem só, comigo e com eu mesma”, que ninguém viria perguntar se eu estava bem, a quem me referia em particular ou pedir desculpa por não terem reparado nos meus problemas.

porque às vezes não os há. às vezes apetece, apenas, inventar diálogos e conversas que só existem na imaginação, que não são auto-retratos nem resultado de uma análise profunda e introspectiva. apetece fingir que se é outra pessoa apenas pelo prazer que tiramos disso, sem estar a tecer qualquer crítica ou a mostrar, representando, que não se está bem com aquilo que se é.

imaginar.

falta-nos imaginação. falta-nos, sobretudo, acreditar nessa capacidade que tínhamos em pequeninos e que o tempo e o crescimento se encarregou de desvalorizar.

deve ser isso que me atrai no palco. no palco em si, não na ideia de palco. porque no palco posso declamar a balada da neve, fazer uma pirueta e abraçar-me enquanto faço uma vénia, e não correr o risco de receber, no final, o sempre e eterno comentário “tu não és assim”. porque há o palco, e há a vida.

gostava que, um dia, esta caixa fosse o meu palco 🙂

sobre a dignidade e/ou o direito de dar resposta

.  há pessoas cruéis. podem vir com aquela do “todos temos um lado negro”, com o “de génio e de louco todos tempos um pouco” mas crueldade, daquela que corrói, que mancha, que dá mau sabor na boca, essa é coisa de gente doente ou pura e simplesmente má.

recebi agora um e-mail de uma pessoa má. não me era dirigido directamente mas a maldade era tanta, o fel era tão espesso, que não consegui deixar de me sentir afectada pelas palavras tão conscenciosa e maldosamente escolhidas. mas… e agora?

aquela coisa da “dignidade” impõe que não se dê resposta. que não se dê à pessoa má a satisfação de ver a sua maldade explicada, dissecada, combatida. impõe-se (ainda mais pela delicadeza e natureza do assunto) que se deixe a pessoa falar, e repetir, e voltar a falar e voltar a repetir, até que se canse.

mas está mal. quando somos insultados e maltratados, ainda que apenas por e-mail, deveríamos ter a obrigação – porque o direito já o temos – de responder da mesma forma. de, a um “falta de imparcialidade” responder com um “prepotência”, de a um “falta de integridade” responder com um “idem”.

devíamos poder responder à letra. letra a letra. palavra a palavra.

mas não. porque somos superiores (ou inferiores), porque somos mais dignos, porque a pessoa não merece, não respondemos no mesmo tom. ou, pior ainda, não respondemos mesmo.

e deixamos que o fel continue a crescer naquela pessoa, que ela continue a falar mal na nossa frente e nas nossas costas, que continue a arrasar o nosso trabalho só porque não é o seu trabalho, que continue a ser como é: má. cruel.

está mal.

por isso é que eu falo a sério quando digo que queria acabar os meus dias velha, muito velha, e ligeiramente louca. para poder dizer “e tu és feia” quando me dizem “tu estás gordinha”. para poder dizer “não gosto de ti” a quem sempre me fez a vida negra. para poder dizer um “vai à merda” quando me apetecesse.

uma velha, ligeiramente louca, com acesso à internet. ah, isso sim, seria um bom final.

talvez nesse dia decidisse ser má.

mas, para já, resigno-me em ser digna. e a não dar resposta.

coisas simples

.  já sentia a falta de escutar música. de me deixar embrulhar nos sons, de sentir o ritmo percorrer a pele e misturar-se com o pulsar do sangue. em casa não é possível, uma vez que todos os meus sentidos estão ajustados à Mariana (é engraçado como, no meio do som da TV, dos monólogos “com” o GT e do som do ventilador, consigo ouvir os murmúrios ou gemidos da pequenina, duas divisões ao lado. a ligação wireless é mesmo boa 🙂 )

sabe bem ouvir música, senti-la crescer. ouvir de novo, perceber outro ritmo, uma nova base, é um exercício que me dá prazer e enche os sentidos. fechar os olhos por segundos. fingir que não existe mais nada. ou, quando se proporciona, encostar a mão às colunas e deixar que as vibrações dos graves percorram os dedos, braços e ombros, e se espalhem naquele espaço entre o pescoço e o crânio onde os sons fazem a festa.

esta é uma música que me faz sentir pequenina. insignificante perante a grandeza do som.

hoje está a ser um dia bom 🙂

hoje foi um dia bom :)

. há muitos anos – mais precisamente em 93 – trabalhei como monitora na colónia de férias da Torreira. para quem na altura tinha 18 anos os 50 contos que se ganhava em 15 dias de trabalho era uma fortuna. para quem na altura tinha 18 anos, estar responsável por um grupo de 12 meninas vindas de famílias desestruturadas era um desafio, uma angústia e uma fonte de grandes preocupações. mas também de grandes alegrias.

nunca me vou esquecer das férias que lá passei a trabalhar, a dar um pouco – e às vezes tudo – de mim àquelas crianças. da forma como lhes ensinei a usar os talheres, a brincar, a dar beijos e abraços. da forma como consegui, junto com as outras monitoras, fazer com que se esquecessem – pelo menos durante duas semanas – da vida mais escura e triste que tinham em casa.

hoje percebi que também não fui esquecida. há pouco, via facebook, uma daquelas meninas de olhos grandes pediu desculpa pela ousadia de me pedir “amizade” e perguntou se eu era a Mónica Aresta que tinha brincado com ela há tanto tempo atrás.

de um momento para o outro a minha tarde ficou cheia de sol, de luz, de saudades e de alegria.

e isto sabe tão bem… 🙂