há um antes e um depois delas. se na Mariana encontro a serenidade, a Margarida é luz e força. nas duas, o amor – o amor que brota em torrentes, feito de riso e de sabor a sol. valeu a pena esperar por um amor assim. valeu a espera. por um amor assim, vale tudo
Dia de ter muito trabalho e de dar graças por isso, ainda que esteja cansada e o dia (de trabalho) ainda vá durar mais umas horas. Dia de as deixar assistir à telescola no sofá, e de as fazer sentar à mesa do escritório para fazerem os trabalhos. Dia de lhes pedir muita, muita paciência. E de almoçar sopa e massa com atum. Dia de ver a Mariana a ajudar a irmã.
De a ver a falar com a professora e os colegas. De sentir um pequeno orgulho em ver esta gente que trabalha em casa e a partir de casa, ou que sai para trabalhar todos os dias; que trabalha e luta, e faz sopa e trata da roupa e tenta não desistir. E orgulho em fazer, de certa forma, parte desta gente. Mesmo que o cansaço seja grande, mesmo que não se saiba quando vamos poder entrar no novo-normal.
“Venham cá, que vos quero tirar uma foto. Já não tiramos uma há muito tempo”
E elas fizeram a pose, e fizeram beicinho (acho que é assim, nas poses, que se percebe que a filha está a crescer). E quiseram ver como ficou, “oh mãe, eu fiquei despenteada”, e “podemos tirar outra?, por favor diz que sim”.
E enquanto percorriam as fotos tiradas, a ver qual ficava melhor, percebi que elas estão bem. Que estão a aguentar isto como mulheres, reconhecendo o que sentem falta e ajustando a vida para tudo o resto que continuam a ter.
Estão a aguentar-se bem. Não viraram as costas à mudança, enchem o peito de ar e dizem “podes ligar a câmara”. Saltam de um trabalho ou de uma aula para outra, respiram fundo, e continuam.
Não sei como vai ser o futuro, ninguém sabe.
Mas, pelo menos para já, estão a conseguir lidar muito bem com tudo isto.
. Não sei se é de ter acordado cedo, ter estado com o Mimos, ter voltado para casa e (porque era mesmo muito cedo) ter ficado meia hora a re-adormecer no sofá. Não sei se é por ter mudado os lençóis, ter lavado as toalhas. Ou se é por ter estado um dia bom para secar roupa.
Não sei se é por ter visto as duas garotas a falar com as professoras de música, a tentar desbravar – tão mais cedo que a mãe – este mundo do ensino que agora se faz à distância. Não sei se é por ter ouvido a Magui a dizer à professora que o melhor da Páscoa foi ter recebido um cão, ou se foi por ter escutado a Mariana enquanto tocava flauta de uma forma quase perfeita.
Não sei se é por ter a casa limpa, as miúdas de banho tomado. Não sei se é por estar cansada dos sábados que cansam o corpo mas aliviam o espírito, não sei se é por a cozinha cheirar a pão. Não sei se é por faltar pouco para ser noite-noite, e daqui a nada estarmos as três no sofá a ver Vaiana e a comer pipocas. Não sei se é por ter morangos. Se é por abrir a porta do frigorífico e ver as coisas adiantadas para a semana. Se é por ver que, felizmente, do que é preciso nada falta.
Não sei se é por ter acordado cedo, se é por ter estado um dia bom para secar roupa, se é por lhes ter lavado os cabelos ou por sentir que hoje cuidei dos meus. Talvez seja por tudo isto. Não sei. Mas sei que agora, quando o dia se despede e a noite chega, sinto o coração cheio de luz
. No primeiro dia que passámos em casa a Margarida fez a mala. Pegou na mala de cabine e colocou lá dentro tudo o que considerou importante colocar: mudas de roupa, calçado, bandoletes; um boneco; verniz laranja e roxo; perfume, escova, e um saco com pipocas para micro-ondas. Disse-lhe que não entendia, que não era preciso e que tão cedo não iríamos sair de casa. Respondeu que sabia, e que assim quando se pudesse sair/quando fosse preciso, já estava pronta.
Confesso que por vezes me assustam estas convicções de gente ainda tão pequena. Parece que sabem mais que nós, que anteveem o futuro, que têm um sétimo sentido ainda não desbotado pela idade que os deixa ver um pouco mais além. Nesse dia, nessa primeira semana de um tempo que não se sabia – e ainda não se sabe – quanto iria durar, fiquei a pensar nesta ideia de estar preparado, de ter consigo tudo o que se precisa para continuar noutro lado qualquer.
Hoje o dia foi relativamente tranquilo, e correu melhor do que eu esperava: três birras e dois amuos, pouco mais. Uma vontade de terminar todos os trabalhos, um querer fazer as coisas bem feitas. Um escrever, apagar, voltar a escrever. Ao início da tarde, unhas pintadas e “mãe, faz-me uns totós”. Na parede ao lado da mesa de trabalho, a foto dos amigos e os desenhos de figuras onde se leem alguns nomes: Lara, Rodrigo, Margarida… obra do quinto dia quando, percebendo que não voltaria à escola e não encontrando a foto de turma, pegou numa pasta de trabalhos manuais e reconstruiu, na parede do quarto-escritório, a companhia de todos os dias.
Hoje a Magui teve a sua primeira aula online. Viu os amigos, contou-os, disse “ainda falta um”, pôs a mão no ar para responder, disse “professoooooora, ó professoooooora” quando sabia a resposta. No fim, deu-me um abraço do tamanho do mundo e disse “este foi o melhor dia de sempre”. E eu tive a oportunidade de a ver naquele mundo onde se canta o H mudo, onde se passeia na Aldeia dos Tracinhos, onde se aprende com gestos e se festeja a escola com palmas.
Quando elas entraram na Escola, o meu medo era que o formalismo e o rigor lhes retirassem a vontade de aprender. Que lhes secasse a sede de saber mais. Que se sentissem tão apertadas e carregadas que a escola – que para mim sempre fora um espaço mágico – fosse fonte de angústia, medo, preocupação.
. Manhã. O escritório-quarto-estaleiro onde trabalho todos os dias está confuso de vozes e do som das ventoinhas dos computadores. Há música calma a sair da coluna, pela janela ouve-se a chuva, elas trabalham ou fingem que sim. Têm sido pacientes comigo, como eu tenho sido paciente com elas.
Para quem gosta de silêncio, não é fácil trabalhar com tanto som misturado. Desisto dos auscultadores ao terceiro “mãe”, digo que sim, que podem fazer uma pausa, vigio o tempo até ser hora de regressar.
Querem fazer os trabalhos mas pedem ajuda. Não se lembra como se escreve o G maiúsculo, quer o telemóvel para ver como se desenha um leão. Pergunta se pode fazer o texto mais tarde, não se recorda do nome dos oceanos, diz que é matéria nova que já estão a aprender.
Por volta da uma, o toque curto da campainha. “É a avó Lúcia!!!”. E, debaixo de chuva que teima em cair espaçada, recebo um saco com um almoço acabado de fazer. “Adoro o sabor da comida da avó”, dizem. E eu respondo que sim: que a sopa dela é das melhores que conheço, e que as ervilhas que ela fez só para nós são a coisa mais deliciosa que comi esta semana.
À tarde, sentada no meu colo, a Magui fala com a professora e com os amigos. Ri ao ver quem não vê há muito, rosto rosado e olhos brilhantes. “Falta ainda o meu amigo”, diz. E salta quando vê a imagem do amigo a aparecer.
A Mariana faz mais uma ficha, trabalha no meu computador “que é tão lindo e tão moderno”, diz que posso ir tratar da vida enquanto ela termina o que está a fazer. E eu olho para ela, tão crescida em tão pouco tempo (dez anos não é nada), a tentar aprender esta coisa de estudar sem ser na escola, de num repente poder trabalhar com as mesmas ferramentas dos pais.
E estes, agora, são os meus cinco minutos. Aqueles que separam o dia intenso da noite calma. Aqueles em que eu digo que “já volto” mas em que me demoro mais um bocado. Aqueles em que me sento, coloco os auscultadores, escolho a música, viajo um bocadinho, bebo chá ainda quente, coloco as coisas e as ideias em ordem.
Daqui a pouco regresso à sala, digo “são horas de dormir”, finjo que não ouço os protestos, cedo ao “ainda não estiveste aqui connosco”, sento-me uns minutos no sofá. A Magui vai-se sentar ao meu colo enquanto esconde os pés sem meias, a Mariana vai-se encostar ao meu ombro e pedir que lhe dê a mão. E dia que começou calmo e continuou agitado até se tornar calmo outra vez vai docemente terminar. Para, daqui a nada, começar um novo dia.