Amanhã é dia da mãe

.  Não o que está no calendário – esse é só para a semana – , mas o meu dia da mãe.

Amanhã vai ser dia de mãe e filha, daqueles que tínhamos antes e dos quais já sinto falta: eu e ela, a passear, a brincar, a correr, a ver livros e a fazer desenhos. Um dia nosso. Uma prenda minha. Da minha prenda. Para mim 🙂

a culpa é dos filmes

.  Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. A reserva que instintivamente se coloca nos relacionamentos – aquela que vai sendo negociada, gerida, até chegar à entrega confiante – deixou de ter sentido com a chegada deste ser pequenino e exigente.

Ao longo da vida – por muito curta que ainda seja – vamos acumulando experiências que, de uma forma mais ou menos clara, influenciam a maneira como nos comportamos em relação aos outros. A experiência da perda, por exemplo, pode-nos levar a erguer barreiras aos sentimentos mais intensos: tomámos consciência da fragilidade da vida, o que amamos pode-nos ser tirado. E o cérebro aprende, e a alma guarda. E tornamo-nos defensivos. Cautelosos. Tristes. E, como um caminho que ainda não conhecemos mas achamos que já sabemos onde vai terminar, recusamo-nos a percorrer a estrada potencialmente cheia de alegrias. Mais vale não amar do que sofrer por amar demais, não é?

Foi então que a Mariana chegou. E ensinou-me – aos bocadinhos – que viver com medo não é tão romântico quanto parece nos filmes. Que a consciência do efémero não é sempre sinal de maturidade ou experiência, mas que pode ser uma cadeia, uma zona de conforto desconfortável. Ela, pequenina, foi-me vencendo aos poucos. E foi-me ensinando a confiar nela, e a acreditar que coisas boas acontecem.

Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. E sabe bem amar assim.

18 meses

.  A Mariana faz hoje dezoito meses. Dezoito. Muitos dias e muitas horas de uma vida que começou ainda antes de ela nascer, quando era só uma coisa mais pressentida que sentida e na qual tinha medo em acreditar.

Dezoito meses plenos, cheios, vividos de uma forma que quase parecem dezoito anos. Está connosco há poucos meses e parece que fez parte de nós a vida inteira. E está tão grande e tão pequena…

Reconhece as formas e sabe encaixar peças, tem boa memória, gosta de livros e de escrever. Dança quando ouve música, corre a casa toda. Coloca os papéis no ecoponto e gosta de fazer construções com os pacotes de leite que vai buscar à despensa. Sorri – muito. Tem um sorriso que lhe chega aos olhos, feito de mimo e da certeza de ser amada.

Faz asneiras e desafia-me todos os dias. Quando me vê de cara feia (e Deus sabe o esforço que faço para a manter) faz beicinho e vem-me dar beijos cheios das desculpas que ainda não sabe dizer. E gosta de colo. Gosta muito. Quase tanto quanto eu gosto de o dar.

A cama dela continua ali, ao lado da minha, numa persistência que vai contra todas (ou quase todas) as regras que ditam os livros mas que me faz bem ao coração. Adormeço a olhar para ela, e é ela que me acorda ainda antes de o despertador tocar. Dou-lhe colo, muito colo. Dou-lhe beijos, tantos quantos consigo dar. E sento-me com ela, no chão, a aprender como ela descobre as cores e as formas. E quando aqueles olhos que não são verdes nem castanhos me olham a sorrir, sinto um calor na alma que me faz ter a certeza de que estou a fazer um bom trabalho.

Sou mãe há dezoito meses. Há dezoito meses que não tenho uma noite completa, que não vou ao cinema, que não tenho uma refeição descansada. Dezoito meses de reconstrução daquilo que eu pensava que devia ser. E nunca, mas nunca, me senti tão plena e tão feliz.

Parabéns, pequeno amor da minha vida 🙂

sobre fé

.  ter fé é acreditar sem provas. acreditar que sim, que vai correr bem, que não nos vamos estampar nem cair. a fé é uma coisa que se embrulha na alma e no coração e que desfaz, um a um, todos argumentos e provas de que “não” que a razão vai buscar.

fé é antónimo de cinismo. é olhar para as coisas e para as pessoas com olhos limpos, não turvos. fé é quando a Mariana olha para mim e me agarra o dedo, sabendo – acreditando – que eu não a vou largar. é quando o Gonçalo me diz “isto vai passar”, numa pergunta sem interrogação. é quando alguém me pede “lês isto? sei que vais perceber e dizer o que pensas”, mesmo que só me conheça há dois ou três meses.

fé é acreditar. em nós e nos outros. e, se é bom ter fé, é melhor ainda sentir que os outros têm fé em nós.

é coisa para encher o coração. e para partir todos os argumentos e porcarias que a razão nos tenta enfiar na alma.

Marianices

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_ a Mariana gosta:

– de arroz, massa, batatas e nabo aos bocadinhos; que se sentem com ela; que lhe leiam livros; de brinquedos onde pode enfiar o dedo indicador; de cores; que cantem para ela; que a embalem; de andar ao colo, no sling; que dancem para ela; de bater palminhas; do papá e da mamã; de canções com gestos, como a dos “olhinhos vermelhos”; de andar de carro; de pessoas com óculos; de um biberão às três da manhã; da girafa pequenina; das gotinhas de Vigantol; de fazer cócegas, com o indicador, no meu polegar; de brincar na mantinha dela; de comer; de rosnar; de gatinhar para trás; de livros com cores e sons; da música do Pingo Doce; de pão; da minha mão na dela.

A Mariana não gosta muito:

– de homens com barba; quando aparecem animais na televisão / quando aparecem pessoas na televisão; de dormir; que lhe vistam camisolas; de meias; da chupeta; de ficar sozinha.

A Mariana não gosta mesmo:

– do barulho do aspirador.

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(Mónica, a acordar cedo desde Abril de 2010)