Dia 56+34


Fosse este um ano normal, e estaríamos agora a caminho de Párris Frránce, a caminho da Eurodisney. Iríamos ver a Torre Eiffel e conhecer a cidade da Lady Bug e do Gato Noir, iríamos ao castelo das princesas, eu iria tentar superar o meu medo de pessoas mascaradas e seria um aniversário diferente, marcante.
Afinal, não é todo o ano que se faz quarenta e cinco!

Mas – because of Covid – as coisas tiveram de seguir outro rumo, os planos tiveram de ser desplaneados, e Paris de France ficará para outra altura.
Hoje, tive direito a pequeno-almoço na cama. Depois, uma peça de teatro. Depois e durante todo o dia, abraços e mimos.
Telefonema do meu ti Firmino, que nunca se esquece de ligar 🙂.
Telefonema dos meus sobrinhos.
Telefonema da Anabela.
Telefonema da Tia Antónia. Mensagens, muitas.

Tive os meus pais e a minha sogra connosco. Comemos sardinhas, entrecosto e batatas fritas. O espaço é grande, é muito, montámos três mesas e quase pareceu um casamento com lugares marcados.

Fiz um bolo que não cresceu, mas não importa.
Não tinha uma vela com o número “cinco”, mas não importa.
Comprei um vestido que chegou a tempo, para usar algo novo neste dia, e que vou ter de devolver porque assenta que nem uma bata, mas não importa.

Hoje é o 90º dia desde aquele primeiro, e eu faço 45 anos.
Tive os meus pais comigo. Tive a minha sogra comigo. Estive com os meus sobrinhos pequenos. Estou com o meu marido, o amor da minha vida. Estou com as minhas meninas, as luzes dos meus dias. Estamos todos. Estamos todos bem.
Está a ser um dia bom 🙂
Que este seja um ano bom 🙂

(obrigada a todos, todos, todos. terem pensado em mim, darem um pouco do vosso tempo para me desejar felicidades é bom, é coisa boa que aquece o coração. obrigada, mesmo ❤ ).

Dia 56+31, 32 e 33


Ontem fomos almoçar a casa dos meus pais. Comida da mãe, comida boa, café bebido no jardim e tarde passada a conversar sobre tudo e coisa nenhuma.
Soube bem, sabe sempre bem, sabe ainda “mais bem”.
Aos poucos, com máscaras e distâncias, vamos reconquistando território que já não pisávamos há muito, espaço que ainda é nosso mas que já quase não reconhece os nossos pés.

Hoje, segunda, final de dia.
Trabalhos todos feitos, dia de amanhã preparado.
Jantadas, falta arrumar a cozinha e ver desenhos animados antes de ir dormir.
Foi um dia dentro de casa, dentro do computador, tanto para mim como para elas. Aulas, ATL, zoom.
Adaptam-se como sempre se adaptaram, sabem que há tempo para tudo.
Amanhã é terça, véspera de quarta, véspera do dia em que a mãe faz anos 🙂. Mariana tem a prenda pronta, Magui diz que ainda a vai fazer.
Lá fora ainda há luz, o sol ainda se mostra.
E eu venho aqui numa fugida, dizer(-me) o que se passou hoje, deixar o registo escrito daquilo que, para mim, tem feito o passar dos dias.

Dia 56+30


Dia em que o Mimos foi à vacina, as meninas foram a casa da Avó Maria e eu fui ao Lidl 🙂

Sair de casa sempre foi um filme: é uma que se esquece do chapéu, é outra que já dentro do carro avisa que está de chinelos, é o ter de esperar para se preparar a carteira.
Agora, a isto, juntam-se as máscaras, o álcool e um cão.
“Porque ele pode ter sede”, “porque ele pode ter fome”, porque “onde está o brinquedo?”, porque “está de trela e pensa que está de castigo”. E eu? Eu só espero que ele não faça as necessidades pelo caminho, que não fique indisposto, que se mantenha lá atrás entre as garotas, que não se lembre de começar a ladrar.

A vacina correu bem, a veterinária é um amor. Mais vacinas daqui a um mês, evitar o sol durante o dia de hoje, e lá vamos nós para casa da avó Maria.
Deixo lá as meninas, deixo lá o cachorro, confirmo que “tem a certeza que não vão incomodar?” e saio rumo ao Lidl, para tentar em meia hora trazer tudo o que nos vai manter afastados dos supermercados durante duas semanas.
Não fosse a máscara, não fossem as linhas marcadas no chão, não fosse eu não ter ido sem óculos, e teria sido uma ida como as de antes: corredores largos, ordenados, ar fresco, evitar os queijos, olha molho novo de pizzas, devia levar integral, até que enfim aveia bio, olha os salgadinhos em promoção.
Na fila para pagar, um senhor com uma garrafa de água passa à minha frente. Depois volta-se, ar surpreso, pede desculpa, diz que não reparou. Só lhe vejo os olhos, mas sinto que diz a verdade. “Eu ia-lhe dizer mesmo para passar, só leva uma garrafa”, “desculpe, não a vi, tem a certeza que não se importa?”.
Sorrio, e repito que não há problema. O senhor insiste, tem certeza? E eu penso que, na verdade, o sorriso que se vê nos lábios faz falta. Que pode tranquilizar, dar força à palavra, que o sorriso só pela metade (aquele que se consegue ver nos olhos que espreitam por cima da máscara) nem sempre é o suficiente para nos fazermos entender.

Vou buscar as meninas, vá digam xau aos avós. Abraços dados nas costas, beijinhos atirados com os dedos. Não é tudo, já é alguma coisa.

Em casa, depois de arrumar as compras e limpar o carro (ficou indisposto…), respiro profundamente.
A minha casa, o meu lar, o espaço que sempre senti como o meu espaço, assume o papel de santuário. De lugar onde se respira, onde se ri de olhos e lábios, lugar onde se dá beijos e onde os braços se enrolam.
Diziam (e eu também) que não há lugar como a nossa casa.
Nestes dias, isso tornou-se ainda mais verdadeiro.

Dia 56+28


Hoje saímos de casa para comprar comida. Dito assim, parece assunto sério – mas não é: há atum, há arroz, há frango, há grão-de-bico e feijão frade (cujos frascos, suspeito, vão ficar por abrir até à próxima pandemia). Há pão, leite, manteiga, mirtilos, cerejas, abóbora, batatas e cebola.
Mas hoje apetecia algo… bom 🙂

A Magui terminou os trabalhos antes das 11 da manhã (terá por eu ter ficado ao lado dela, a elogiar cada letra?), Mariana orientada, trabalho em ordem, cesto da roupa ainda quase vazio. Pequenas coisas, pequenos pontos altos do dia que mereciam celebração.
“Vamos ao Burger King!”, disse-lhes. “YEEEEEY”, responderam.
Ao abrir a garagem, vejo que o esposo levou carro preto e deixou ficar a banheira, o avião, o T0 que dá pelo nome de Passat. O carro onde me sinto ainda mais pequena, onde não consigo perceber onde o muro começa e a chapa acaba, o carro que só conduzo em situação de emergência porque foi concebido para gente grande e eu nunca passei do metro e cinquenta e quatro.
“Vamos antes mais logo, quando o papá chegar”, propus. Que não, que elas nem falavam durante a viagem “para a mamã não se distrair”, que era rápido e que eu tinha de ter coragem – isto Margarida; Mariana, sabendo como eu não gosto de conduzir carros grandes, tinha ficado convencida logo ao ver o meu ar de “porra…”

Saímos. Devagar, pela estrada da Senhora do Socorro (evitando a nacional), banco chegado à frente, miúdas caladas que nem ratos, duas mãos a agarrar firmemente o volante na posição das “dez para as duas”.
Quando chegámos ao Burger King, Drive Through, tomei mais uma vez consciência do que significa nestes dias sair de casa: põe máscara, abre janela, faz pedido, avança um pouco, diz bom dia, sorri mesmo sabendo que quem nos atende não vê; passa cartão, recebe cartão, não coloca cartão na carteira, recebe comida, desinfeta mãos, diz “obrigada” e arranca enquanto fecha a janela.
A moça, simpática e de olhos grandes e bonitos, fazia tudo com método e segurança, cumprindo um ritual que já deve estar mais que treinado.
Regresso pela mesma estrada, entrar na garagem, sair do carro, perceber que a traseira do T0 ficou de fora, voltar a entrar no carro, puxar à frente, fechar a porta, entrar em casa. Sapatos ficam cá fora, ainda que não tenha saído do carro: se se tornar um hábito, fica mais difícil de se esquecer.
Limpar garrafas, retirar tudo das embalagens, comer no chão da sala. Mãos enlambuzadas, risos a saber a coisa boa 🙂

Da última vez que as meninas foram assim, ao Burger King, foi com o Gonçalo ainda antes destes 56+28 dias. Já nessa altura não entraram, e a comida foi pedida pela janela: “não quis arriscar em locais com muita gente”, disse-me o Gonçalo quando cheguei a casa, vinda de um jantar com colegas de Coimbra.

As coisas mudaram, e nós vamo-nos adaptando a elas. Começamos a incorporar pequenos rituais ou celebrações de outros tempos, quando os beijos se davam e as mãos se apertavam com força, nesta realidade que é agora a nossa.Assim se vive, em terras da Branca 🙂

(a foto é de hoje. deixei o Mimos entrar para brincar com as meninas, mas o pai não sabe. e, como não lê nada do que publico aqui no Facebook, penso que não saberá tão cedo 😛)