há um antes e um depois delas. se na Mariana encontro a serenidade, a Margarida é luz e força. nas duas, o amor – o amor que brota em torrentes, feito de riso e de sabor a sol. valeu a pena esperar por um amor assim. valeu a espera. por um amor assim, vale tudo
Dia de agradecer. Ontem foi dia de arrumar, de limpar mesas de trabalho (delas), de organizar papéis, pastas e ficheiros. Foi um fechar (ou colocar em pausa?) de um ciclo. A Margarida continua na mesma escola, a Mariana transita para outra escola e vai avançar no ensino articulado.
E por isso mesmo – pelo apoio dado pela Armab, pela professora Eliana e pela professora Eva (que nos atura desde os tempos da Probranca), pela professora Márcia e pela professora Sónia – é dia de agradecer. Por não terem desistido dos alunos, por terem insistido com os pais , por terem dado às duas cá de casa o apoio e acompanhamento necessários para as fazer ficar presas, a um sábado de manhã e a um sábado à tarde, a mais umas aulas em Zoom. Por tudo isto, e muito mais, obrigada
No sábado passado foi o concerto final de encerramento, partilhado no YouTube. E esta – Song for Health – foi a peça tocada pela classe de flautas, onde a Mariana vai fazendo caminho.
Dia de ir buscar o que ficou na escola, de subir as escadas que levam ao primeiro piso, de falar com a professora. Dia de falar, dia de ouvir. Uma conversa curta, filtrada, escutada nos olhos e nos movimentos das mãos. Gosto da professora da Mariana. Gosto desde o primeiro dia. Vamos continuar a gostar.
Fim do dia, regressam cansadas. Foi dia de caminhada, de skate park, de brincadeiras, tantas que no meio de tudo quase se esquecem das novas regras de convivência social: o trocar o calçado, o lavar mais uma vez as mãos, o usar a máscara, o almoçar cadeira sim cadeira não. O regresso à Probranca, ao ATL, está-nos a fazer bem. Eu tenho tempo durante o dia para trabalhar, tenho tempo à hora de almoço para pensar no que ainda precisa ser pensado. E elas têm tempo para brincar, para estar com outros miúdos, para re-sentir o cheiro àquelas paredes que também são as delas há alguns anos.
Antes dos banhos, Mariana pede para ler em voz alta os trabalhos da escola. Folheia-os um a um, “não entendo como só tive Bom neste desenho”, passamos pela matemática, terminamos com o Inglês. É aqui que peço que espere um bocadinho. E vou buscar o chapéu que fará a vez da cartola, o caldeirão que fará a vez do penico, a vela que fará a vez da bengala. E digo-lhe que este este é o ano em que muda de escola. Que este é um ano em que navegou em águas calmas e depois mais agitadas. E é o ano em que conseguiu conquistar tudo o que havia a ser conquistado nestes mates. E digo-lhe que neste ano teve de misturar um bocadinho de escola e de casa, de mexer tudo muito bem, de temperar com ou duas lágrimas e de salpicar com muitos risos. E que tudo isso resultou na poção mágica que nos deu mais força nestes dias. E digo-lhe que nestes dias, nestes meses, tem sido luz. A luz que me ilumina, a luz que ilumina os outros. Que muitas vezes me apontou o caminho, e me deixou ver para além das nuvens escuras. E depois passo-lhe o diploma do 4º ano para as mãos.
E ela sorri, olhos castanhos cheios de luz, solta um “obrigada!” e num abraço onde não há reservas diz, com aquele jeitinho que é só dela: “Obrigada por isto. És a melhor mãe do mundo”.
Dia 110 Amanhã elas voltam ao ATL. 110 dias depois do primeiro, não vamos estar juntas as 24 horas do dia. Elas vão, eu fico. E eu (mesmo com/ por causa da dureza que foram todos estes dias) já estou cheia de saudades delas.
E às 16 horas e 08 minutos do dia 27 de junho de 2020……. depois de muitas digitalizações, gravações, audições, avaliações, provas, concursos, zooms, hangouts, whatsapps…… depois de muito esforço e algum ânimo e desânimo e depois ânimo de novo, de problemas de rede, de telescola, de trabalhos para casa feitos em casa a partir de aulas recebidas em casa…… elas entram oficialmente de férias.
Dia… Já não sei que dia é. Deixei de os contar quando chegaram aos 90, quando eu cheguei aos 45, quando um novo ano começou. Neste dias, desde o 90º até ao de hoje, fomos voltando (devagarinho, e por algumas horas) a estar com quem mais amamos: com os pais/avós. Nestes dias, fomos intercalando os telefonemas com os abraços dados pelas costas. Ainda não damos beijinhos, mas os “Adeus, avó!” já não ficam pelo som, leem-se nos olhos e nos sorrisos e nos acenos a dois metros. Aos bocadinhos, vamos avançando. Não com medo, mas com respeito. Às vezes chegando mais perto, depois dando um passo atrás, para se aproximar pouco depois.
Ontem disse-lhes que íamos à praia. Hoje acordaram cedo, com um entusiasmo e felicidade que se ouvia em cada riso. A Torreira linda como só ela sabe ser: areia a perder de vista, ar a cheirar a sal, mar de ondas quase sem som. A Torreira – que consegue ser tão agreste – hoje recebeu-nos como se tivesse saudades. Ou como se soubesse as saudades que temos dela.
Aos poucos, devagarinho, vamos saindo. Primeiro até casa de quem amamos. Depois para a praia, aquela que sempre foi e sempre será a minha. A praia que depois de hoje – suspeito – elas também começam a sentir como sua.