Dia 56+9


Hoje não me apetece escrever. Disseram (li) que não se vai poder ir à praia, que vamos ter de ficar em 9m2 e eu, que nem gosto de praia e no ano passado só lá fui três vezes, fiz birra e fiquei como o tempo: cinzenta, chata, aborrecida.
Há dias, quando falava com a minha mãe sobre estes dias de clausura voluntária, dizia-lhe que nunca tínhamos passado por isto. E ela recordou que, no tempo dela, passou fome e frio; que muitas vezes não havia que comer em casa; não tinham calçado, andavam descalços. Mas que podiam correr, podiam subir e descer montes. Não havia dinheiro, não havia quase nada, mas havia o sentimento de liberdade de não estar preso, de poder correr.
É certo que eram crianças – a minha avó, adulta, devia achar a privação de liberdade algo muito inferior à fome ou ao frio. Mas a minha mãe, que passou muito e passou por muito, diz-me que “pelo menos podíamos brincar”.

Esta ideia de não saber o que aí vem, de não saber como vai ser, é assustadora. O modelo que temos agora – pais em casa com os filhos, quando tal é possível – não é sustentável a longo prazo. Estamos a aguentar porque entretanto chegam as férias e há uma pausa. Mas imaginar este sistema no início do ano, e durante um ano letivo inteiro? Assusta. Da mesma forma que assusta pensar em deixá-las na escola, entregues à sua ainda pequena responsabilidade.

É. Hoje não me apetece escrever. Estou de birra, como as crianças.
Acho que vou amarrar o burro, beber chá, e esperar que o sono cure o mau humor.

Dia 56+8, Dia de Margarida


Arrebata-me o coração todos os dias. Leva-me a respirar fundo quase outros tantos. É doçura e força, riso solto e lágrima fácil. É música, dança, movimento, é maquilhagens e fitas ou pijama todo o dia.
A Margarida é uma explosão de luz, um calor forte que invade o peito. É o meu anjo loiro, amor da minha vida, bebé pequenino que ainda se enrosca no meu braço para dormir.

Há sete anos, nascia a que até então era para mim a irmã da Mariana. No segundo em que ma colocaram ao colo, chorei de felicidade e soube que este amor imenso, este amor gigante, vinha para ficar. Que não ia precisar de conquistar espaço, porque o espaço já era dela por direito.

O meu amor pequenino faz hoje sete anos. Houve bolo, houve festa, há folhados de salsicha e batatas-fritas de pacote. Sente falta dos amigos e da família, mas – com o seu jeito de “se tem de ser, que seja” – adapta-se à nova realidade como se sempre tivesse sido assim.
E esta maneira de ser, tão própria e tão autêntica, sem manias nem disfarces, ensina-me que a vida é como é, com altos e baixos, com momentos que planeamos e outros que não controlamos e que nos tiram o chão.

Há sete anos, a Magui chegou.
E a nossa vida nunca mais foi a mesma 🙂🌼

Dia 56+6


Esta foto tem 19 anos, e não foi tirada a preto e branco.
Na altura, as fotos eram a cores, feitas por fotógrafos. E eram depois entregues as provas, e depois o álbum, um caderno enorme com fotos 16×20 que procuravam resumir um dia que deveria ser único, especial.

E foi.

Eu queria casar, ele não. Eu queria Igreja e alianças, ele usou-a apenas nesse dia.
Reparei nele por causa das pernas, gostei dele por causa dos valores. Nunca esquecerei a forma como num dia de praia levou pela mão o avô ajudando-o a chegar à areia. Nunca esquecerei a forma como coloca a família em primeiro lugar.
Ele aprendeu a controlar os nervos, eu aprendi a controlar os amuos. Ele não cozinha, e não reclama do que eu faço para o jantar.
Quando me vê séria, pergunta “está tudo bem?” e não insiste, porque sabe que não estou bem e preciso de tempo para pensar.
Foi ele quem me apresentou “Star Wars”, fui eu quem lhe deu a conhecer “O Senhor dos Anéis”.
Apareceu na minha vida quando andava perdida e ajudou-me a encontrar um rumo.
Come as gomas das garotas, e temos de esconder as cookies junto do arroz para que ele não as encontre e assim durem mais que um dia.
Não oferece prendas porque não tem esse gesto por hábito, mas sabe que me deu (e dá todos os dias) aquilo que eu mais quero no mundo: uma família.

Há 19 anos, chovia como o caraças. Estava um frio de rachar. Não houve quinta, apenas restaurante, não houve música nem DJ e a festa acabou cedo.
Mas a vida a dois+dois, esta que está a ser construída, continua a ser motivo de festa e celebrada todos os dias.

Amo-te, GT 😛Assim muito, e um bocadinho mais ^-^

Dia 56+5


Segunda-feira. Recomeço de telescola, recomeço de trabalhos de casa, recomeço de almoços a horas certas, de Zoom e de Teams.
O dia começou cedo. Continuo a acordar às sete, ainda que já não haja projetos para submeter e não seja (tão) preciso aproveitar as horas que antecedem a hora em que elas acordam. Continuo a tomar o pequeno-almoço sentada no chão da sala (nestes dias perdi o hábito do sofá), e a confirmar que ainda consigo chegar com os dedos para além da ponta dos pés. Antes das oito e meia, vou ao quarto acordar quem ainda dorme.

Às nove começa a telescola, começa o dia de paciência. A atenção ao que se expõe já é maior, mas ainda assim é preciso picar ponto, estar lá, não deixar dispersar.
A Mariana, com aulas à tarde, senta-se na secretária e faz os trabalhos do dia. O plano da semana, afixado na parede do lado, diz-lhe o que tem para fazer e ela segue-o, faz as contas, conta as letras, escreve os números. Guarda as perguntas para o fim, em vez de as fazer a cada minuto, e eu confirmo que na escola (como em casa) os estão a preparar para a autonomia. E isso é bom.
A Magui, seis-anos-quase-sete, sol e chuva no mesmo dia, pede colo. Que o colo da mãe ajuda a fazer os trabalhos, que o colo da mãe é a melhor cadeira do mundo. Desde a semana passada que o colo é em maior quantidade, a mãe já não tem de trabalhar à noite, e pequenos tiques que surgiram com a mudança começam lenta mas firmemente a passar. Pede colo, eu dou colo. Marcamos o tempo (a mãe tem de trabalhar), e eu fecho os olhos por dois minutos enquanto ela escreve os números de 10 em 10, até chegar ao 100.
Às oito e meia da noite, quase 12 horas depois do início do dia, os trabalhos de casa – feitos com 1300 intervalos à mistura – estão feitos.
Por hoje terminámos. Amanhã, por volta das nove, (re)começamos outra vez.