Dia 56+14


Há manhãs em que o café sai bem, as notícias não falam em grandes dramas. Manhãs em que se fica com a sensação que hoje vai ser um bom dia.
Há manhãs em que se consegue resolver uma data de assuntos, em que se fecham coisas que estavam em aberto há demasiado tempo. Manhãs em que se sai de muros, em que se caminha pelo passeio, e em que se regressa a casa enquanto as miúdas ainda dormem.
Manhãs em que se lava e estende roupa, manhãs em que se dá mimos à gata que finalmente está melhor.

Há tardes em que as coisas correm bem. Em que os trabalhos são feitos sem que tal seja pedido; em que se pede uma borracha porque a letra não ficou perfeitinha.
Tardes em que o Mimos só destrói um chinelo, em que as miúdas saem para brincar sem que eu tenha de pedir duas vezes.
Tardes em que as coisas fluem, tardes que parecem desenrolar-se sozinhas e que a nós só nos cabe deixar-nos ir.

Hoje o dia foi assim. Com sol, com riso, com luz, feito de horas calmas, de pequenas surpresas, de minutos de abraços e “gosto muito de ti”. Minutos de colo para ganhar forças, minutos de colo para acalmar. Minutos de colo para saber, com toda a força do coração, que vai correr tudo bem.

(a rena da foto decidiu que hoje queria fazer tudo bem feito, e cedo – bem cedo. e fez. posso-me queixar de cansaço, mas nunca de monotonia 🙂 )

Dia 56+13


Uma das grandes lutas deste confinamento tem sido convencer uma garota de 7 anos que os trabalhos de casa são para se fazer. Que são para se fazer no dia, não dois dias depois. Que se não os fizer, não sou eu que vou explicar isso à professora: se decide não fazer, é uma decisão dela, depois que lide com o que aparecer.
É pesado para uma criança tão pequena, fazê-la pensar que terá de lidar com as consequências (boas e más) das suas escolhas?
Talvez.
Mas entre lágrimas e risos e subidas para a mesa, entre um lápis que tem mesmo mesmo de ser afiado e que só pode ser afiado pela afiadeira rosa, ou a letra que tem mesmo se ser apagada pela borracha do unicórnio porque as outras não apagam bem (mentiram, apagam todas), esta é uma das estratégias que vou usando. Tem resultado. Dá-me cabo da cabeça, mas tem resultado.

No final de semana os trabalhos foram alguns. Matemática na boa, Estudo do Meio marcha bem, mas o Português – as frases, as regras, a escrita – tem sido coisa para quase me tirar do sério. É porque dói a mão. É porque são muitas. É porque ainda não aprendeu aquela regra. É porque não apetece. E eu lá vou negociando, balançando o mimo com a voz mais séria, dando colo sempre que é pedido (isso nunca nego) e fingindo não rir quando a vejo a rabiar.

Ontem de manhã foi assim. Uma frase de cada vez, tirada a ferros, com histórias e brincadeiras pelo meio.
Depois, à tarde, teve ATL. E aquilo que comigo levou horas (horas? dias…) com a Sandrine levou minutos. Sempre a rir, a “palhaçar”, a dizer “sei mais uma, sei mais uma”.
E eu com cara de idiota aliviada, erguendo as mãos ao céu e pensando que se fosse assim todos os dias eu teria, ao dia de hoje, menos 10 cabelos brancos.

Mais tarde, contei este episódio a uma grande amiga. Entre as gargalhadas que soltou, conseguiu dizer “é bom, Mónica, é bom. É sinal que continuas a ser ‘a Mãe’ “.
E eu pensei que ela tem razão (como sempre, aliás). Eu sou a mãe. Não sou a professora, não sou a educadora, não sou outra coisa a não ser *a mãe*.
E com as mães é suposto ser assim mesmo: negociar, fingir que se chora, fazer birra, pedir colo, dar mimo, dizer que não, agora sim, mas é muita coisa, então está bem.
O facto de, nestes dias, se estar a ser professora de apoio, explicadora, educadora, cozinheira, arrumadora, o facto de se estar a trabalhar em casa e na casa, de sobrepor às oito horas de trabalho todas as outras camadas que caíram em cima estes dias, não pode anular o que representa, para elas, a mãe.

Hoje houve de novo trabalhos. Ainda não estão todos feitos (claro), mas a esta hora essa é uma guerra que não me está a apetecer comprar.
Vou dizer para arrumarem os brinquedos que estão no chão da sala.
Vão reclamar, vão negociar, vão vencer.
São dez horas. E o que eu quero, agora e até elas irem dormir, é ser apenas mãe.

Dia 56+12


São quase sete e meia e volto ao computador, para fechar coisas que ficaram por terminar.
Não me queixo.

O dia começou cedo, acordar com a casa em silêncio. Ao tentar sair para dizer olá ao Mimos, reparo que não tenho a chave de casa – ficou no carro, que ficou na garagem. Para abrir a garagem, é preciso a chave que ficou no carro. Pescadinha de rabo na boca, portanto, mas não faz mal: sai-se pela janela, entra-se pela mesma via. Está sol, apetece estar lá fora, o resto são detalhes sem importância.

A manhã corre bem, a concentração voltou, sabe bem trabalhar.
Almoça-se cedo, porque a tarde é longa.
Zoom da Mariana às duas e às três; moodle e música às três e meia; à mesma hora, Magui tem sessão com os amigos do ATL 🙂, termina os trabalhos de casa em minutos (os mesmos que, comigo, levam duas horas e trinta e duas lágrimas para ficarem concluídos). Depois da Magui, Mariana. No meio eu, a reunir por telefone.
Foi confuso? Mais ou menos. Cansativo? Nem por isso, hoje o ânimo é outro.

Fechadas as aulas, terminado o telefonema, “tudo lá para fora apanhar sol”.
Fizemos isto hoje, pouco antes de almoço. Voltámos a fazer agora, pouco antes do jantar. Faz falta o sol, o correr na relva, o brincar com o Mimos, o fugir da gata, faz falta rir.
“Mãe, tira uma foto!”
Há muito que não tiramos fotos. Estar em casa é estar despenteada, é não ter tempo nem vontade para vestir melhor, é colocar camadas e camadas de roupa quando está frio e ir tirando à medida que o tempo fica mais ameno.
Mas hoje tirámos fotos. Muitas 🙂, e foi tão bom!
Tenho as calças com manchas nos joelhos – que espero sejam de água… – o cabelo uma miséria, dói-me a barriga de tanto rir.

Estar em casa dos meus pais, com os meus pais, trouxe-me à alma o ânimo que andava a faltar. Estar com eles, ouvir-lhes a voz, ver-lhes o rosto, sentir-lhes o riso, carregou as baterias e mostrou, mais uma vez, que o que realmente importa é isto: viver, estar com quem amamos, rir e chorar com os nossos.
Os tempos não mudaram, apesar das notícias tudo continua na mesma. E isso dói. E porque dói, preciso de reaprender a viver. Seja com máscara e desinfetante, seja lavando a roupa a 90º, seja usando lixívia com água fria. Arriscando o mínimo, para viver o máximo que estes tempos permitem.
No fundo, é desejar (com a mesma força e desespero do início) que tudo corra bem. Que tudo corra mesmo bem.
Até lá, até ao dia em que poderemos dizer isso, aproveitam-se os dias de sol, as horas roubadas, as tiradas do pai e o riso da mãe. Traz-se para casa abacates, sopa fresca e fermento para fazer pão.

Ontem carreguei as minhas energias.
Hoje, carreguei as energias delas.

Dia 56+11


Hoje não desci a Avenida da Liberdade, mas fui a casa dos meus pais. Poderia dizer muito sobre isto, mas a Inês Maria Menezes resume tudo numa só frase:
“Depois destes meses parece que temos de escolher entre ficar tristes muito tempo ou arriscar viver (com cautelas).”

Não quero mais ficar triste, não aguento ficar mais triste. Preciso aprender a viver com cautelas.
Um domingo de cada vez.

Dia 56+10


O quarto das meninas está limpo, as paredes foram passadas a lixívia de alto a baixo. Roupa de cama mudada, tapete lavado, seco e de novo no seu lugar. Cortinas a cheirar a Skip e Comfort de sândalo e madressilva.
O resto da casa também está em ordem, mas hoje o quarto delas mereceu a atenção especial.
Os lençóis polares deram lugar aos de algodão, feitos pela avó Maria e que têm o tamanho certinho das camas delas. Os casacos foram lavados, secaram e estão guardados, e as camisolas mais grossas já não espreitam pelas gavetas.
É um cheiro bom, este. Cheiro a limpo, mas um limpo onde existe vida. Um limpo onde vai saber bem dormir.

Percebo nestes sessenta dias que ou mudei muito, ou então nunca me conheci bem. Dizia-me noctívaga, e agora acordo cedo para receber o novo dia; dizia-me gostar de dias de chuva, e agora o sol faz-me falta. Preciso dele, do sol, da luz, do calor. Pudesse, e voltava a refazer as janelas da minha casa, alargava-as de parede a parede. E são janelas de três metros… mas, nestes dias de estar fechada, parece que não chegam.
Por isso, antes do almoço, saí para apanhar sol. Estendi-me na varanda, Mimos a morder-me os dedos e as orelhas, e fiquei assim, a receber sol nas mãos e nos pés. Nunca, como até estes dias, percebi a falta que me faz o sol. A luz. O vento. O calor.

À tarde, o homem da casa foi cortar lenha. É assim a vida do campo, aproveitar o sol para acautelar os dias de frio. Mariana pede para ir ao monte, com o pai e a avó. Senta-se no trator que já foi do bisavô Rafael, que o avô Carlos conduziu vezes sem conta e que agora é (poucas vezes, muito poucas vezes) usado pelo papá, e pergunta se algum dia será capaz de o conduzir.
“Este não sei. Mas se quiseres conduzir um igual, é só teres idade e aprender”.
Crescem a saber que não há coisa que menina não faça. Que não há coisa que menino não possa fazer. O pai trata da roupa, a mãe da casa. A mãe arranja as torneiras, descarna fios, faz ligações em tomadas, o pai arruma a cozinha. Todos cuidam, todos tratam.Um dia será a vez delas tratarem, de serem elas a decidir.
Até lá, os pais cuidam.
E é bom – e sabe bem – cuidar de quem se ama.