. As bananas que na semana passada estavam verdes já amadureceram.
Ninguém as quer comer – nem eu, que não gosto de bananas –
e começo a desconfiar que as que antes enviava nas lancheiras eram oferecidas a colegas, e não comidas pelas miúdas.
Elas – as miúdas – sentem a falta dos amigos.
Noto-o nos olhos da Mariana,
noto-o na forma como a Magui vai buscar a foto da turma e a coloca na parede,
ao lado da mesa de trabalho.
Estão a adaptar-se a esta vida a quatro.
Gostam, mas nota-se que precisam (todos precisamos) de mais.
Volto a pegar num livro que li há pouco tempo, “Nós e os outros, o poder dos laços sociais”.
Ajudou-me na altura, ajuda-me agora.
Ler sobre aquilo de que sinto falta não me deixa mais triste:
deixa-me com mais certezas daquilo que para mim é importante: o amor e o carinho dos meus.
Ouço agora um barulho na sala, e um “não foi nada, mãe”
(nunca é. a seguir ao barulho vem o silêncio, depois o riso, depois o “se quiseres já podes vir”.
e há menos qualquer coisa na sala, um espaço que agora é menos cheio. e eu nem percebo o que se partiu – era algo, não era alguém. era só mais uma coisa, das centenas de coisas que ocupam os espaços que me custa deixar vazios).
Quando isto passar – porque vai passar – faremos uma grande festa.
E vamos dar aquilo que não nos faz falta,
porque nestes dias percebemos que o que nos faz falta, aquilo que realmente precisamos,
é o que mais queremos ter junto de nós:
os nossos pais, os nossos irmãos, a nossa família.
Estamos a aguentar-nos, um dia de cada vez.
por nós, pelos amigos que estão na linha da frente,
pelos que continuam a sair para trabalhar.
porque é assim que tem de ser.