Dia 26

. Dia de acordar cedo, de beber café, de enroscar no sofá durante uns minutos.
De entrar no escritório e começar a escrever.

É de manhã que avanço mais: no silêncio, as ideias não encontram barreiras.
O som da respiração leve chega de mansinho, traz paz.
Tiro os fones por uns instantes, escuto.
Mais uma volta na cama, apenas isso.

Recomeço.

A manhã ainda mal começou, e há que ganhar tempo enquanto o tempo é só meu.

Dez horas. Risos, barulhos de braços pequenos a afastar os lençóis.
Deixo de escrever, caminho até ao quarto, enrosco-me no meio delas.
“Mãe, é tão bom quando estás connosco”. “És a minha almofada preferida”.

Agora sim, começa o dia.
O nosso, partilhado, vivido a três enquanto o papá não chega.
A casa entregue às mulheres.

A tarde é mais comprida, divide-se em três lanches e dois “queria mais bolachas”.
E há leite quente que precisa de chocolate.
E há “mais um queque, posso comer?”.
E um “quando vens brincar connosco?”

(estes “quando” são o que mais custa. Elas sabem que não estou de férias, mas tentam a todo o custo trazer a mãe para o mundo delas, tirá-la do mundo onde usa óculos e divide a atenção com outras pessoas)

Fim do dia, o papá chegou.
Ao jantar temos rissóis, porque já passa das sete e meia e não há tempo para inventar muito.
Daqui a pouco o sofá vai ser pequeno para os quatro,
e a Magui vai pedir para ficar no meu colo.
“És a minha almofada preferida”, irá dizer.

E assim o meu dia, que começou há tantas horas,
termina da mesma forma como começou:
entre as duas, adormecida nos seus abraços.



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