. Estes têm sido tempos de tempo diferente. Muito lento nos primeiros dias, em que o medo imperava e cada noticiário era seguido com angústia e ansiedade. Em que a cada chamada tentava adivinhar sinais de tosse ou de fraqueza. Dias em que o medo tomou conta.
Depois, dias estranhos, a meio gás. Com manhãs de acordar cedo e fazer muito, tardes letárgicas e fins de dia acelerados.
Demorei a encontrar um ritmo – penso até que ainda não o encontrei. Mas tentar implementar rotinas (para mim, não para elas) tem-me feito adormecer mais cansada e descansada, e acordar com a sensação que o dia já não vai correr em roda-livre.
Hoje acordámos cedo. Vimos a telescola. Ouvimos a história cantada e a história contada.
Magui ao meu colo, Mariana ao meu lado.
Depois deixei-as sozinhas, a gerir o seu tempo, enquanto eu geria o meu.
Ao almoço, sopa e empadão da avó.
À tarde, Mariana crescida, faz os trabalhos do dia e fala com os colegas em Zoom. Vejo-a ao meu lado, serena e atenta, a tomar notas e a escrever nos cadernos enquanto ouve a professora; ouço-a a ler o texto que treinou no fim-de-semana. E fico orgulhosa de todos eles: dela, dos colegas, da professora, dos pais que – à sua maneira e sabe Deus como – estão a conseguir aguentar o barco.
Fim do dia. Hoje choveu, fez frio, caiu granizo, fez sol.Aos segundos raios mais estáveis, “Meninas, já lá para fora!”.
E elas deixam os Youtubes e saem para brincar. A casa faz-se de silêncio, só lá fora se ouve rir.
“Estamos a fazer uma prenda para o dia da mãe, mas não podes ver o que é” (elas sabem que para mim, o melhor não é a surpresa mas a antecipação de a receber, e que – para mim – o melhor é sempre o caminho que se faz e não o destino a onde se chega).
Cai a noite. A Mariana entra no escritório-estaleiro, e pergunta a diferença entre óleo de cozinha e óleo alimentar. Diz que é uma curiosidade, e eu – em modo trabalho – respondo sem pensar no estranho de tal questão.
Dez minutos. E as duas entram na divisão, trazendo “uma surpresa para o dia da mãe mas que se calhar vamos dar hoje”. Um chupa-chupa de caramelo, feito às escondidas entre açúcar, óleo, kits de atividades e micro-ondas.
“Ninguém se queimou?” pergunto, sentindo-me má mãe.
“Não. Lemos as indicações, e fizemos tudo em segurança. Se fosse perigoso não fazíamos”.
E eu percebo que tenho de confiar. Que não vou estar aqui sempre nem para sempre, e que elas mais cedo ou mais tarde (se é que não agora e antes de hoje) vão tentar sozinhas, vão experimentar, vão descobrir.
E que aquilo que me cabe, enquanto mãe, é tentar dar-lhes todas as competências necessárias e partilhar todas as experiências que considere úteis, para as preparar para o futuro que há-de vir.