fim de um ciclo, início de outro

. hoje deixei de amamentar. sei que a Mariana já tem oito meses (e uma semana), sei que já come sopa e papas e fruta, sei disso tudo. sei que já é hora, que o meio ano recomendado pelos pediatras já lá vai há um bocadinho, mas mesmo assim não consigo deixar de ficar triste. aqueles minutos que só a nós pertenciam, aquela sensação de conseguir, sozinha, dar à minha menina tudo o que ela precisava, vai desaparecer aos bocadinhos. sinto-me um pouco mais vazia, menos rica. são laços físicos e emocionais muito fortes, que custam quebrar.

se a Mariana sente falta? deve sentir, mas não se manifesta :). os bebés têm uma maneira muito inteligente de lidar com as coisas, se lhes falta algo complementam com outra coisa. como já não pode tocar no meu peito enquanto bebe o leite (e ando agora a tentar aprender esta coisa de biberões e fórmulas e águas e pós), acaricia a minha mão enquanto me olha de frente, olhos nos olhos. é diferente, mas é bom. a minha menina está a crescer, e a ajudar-me a crescer. quem diria que seria uma coisinha tão pequena a ensinar-me a seguir em frente, não é?

mas hoje outro ciclo começa :). a pequena andava a dar luta há uma data de noites, protestando como uma sindicalista em dia de greve sempre que a tentava levar para a cama. não quer dormir, quer brincar, e palrar, e rolar, e rir. e eu quero que ela durma :P. decidimos, por isso, fazer metade do caminho: eu brinco com ela no quarto, luzes médias, música leve, ambiente quentinho… e ela, quando esfrega os olhos, deixa que eu a deite devagarinho, lhe cante a canção (do Vitinho) e a história da menina, do cãozinho, do gatinho e do passarinho, e depois deixa-se dormir. sem luta, sem choro, sem protesto.

se é ilusão ou ideia da minha  parte esta coisa do “meio caminho”? pode ser :). mas só quem lidou com esta pequena desde o início sabe o tormento que é para ela adormecer, a luta diária para que ela se deixe caír no sono.

a Mariana é inteligente, e sabe  (melhor que a mãe) escolher as suas lutas. e eu tenho a certeza que ela decidiu que esta – a do sono – fica guardada na gaveta até outros dias 🙂

sobre amizades

.  sempre dei valor àquele sentido que alguns chama sexto mas que eu chamo “instinto”: aquele que nos faz fugir diante de um perigo que ainda não se concretizou, ou que nos faz gostar de alguém que ainda não conhecemos só porque sentimos que há ali algo de bom.

todos nós temos este sentido, com maior ou menor intensidade. alguns, contudo, deixaram-se convencer que esta coisa “de bicho” não era mais que preconceito ou pré-conceito, passaram a acreditar – mesmo sem saber porquê – que só a experiência vale, que esta coisa de sentir o que não tem ainda corpo é algo de estranho e esotérico e que, por isso mesmo – por ser estranho e esotérico – deve ficar fechado e guardado nos livros e nos filmes.

quando me dizem estas coisas sorrio, ou digo “tá bem”. mas, como cheguei àquela idade em que gosto de ser o que sou, continuo a deixar-me levar por este instinto.

deve ser por isso que, agora, faço amizades com facilidade. não me entrego facilmente nem crio laços com qualquer um, nada disso. faço amizades com facilidade porque deixo que este sentido – que alguns chama de sexto – me diga, na pele e na alma, se a pessoa que fala comigo merece ou não que perca tempo com ela, se vale ou não a pena. e não me tenho enganado 🙂 .uma das maiores amizades que tenho e prezo foi construída assim, na base do sentimento, e uma outra – que tenho vindo a cultivar devagarinho – assenta no mesmo princípio.

é que se deixarmos esse “sentido” falar mais alto e sobrepor-se às vozes da razão e da consciência, conseguimos ver no outro os valores que regem a sua vida, as emoções ou até mesmo o seu estado de alma.

quando a Mariana nasceu deixei, por instantes, que a razão e a consciência, e as razões e consciências das outras pessoas, falassem mais alto. durante uns instantes – que foram umas semanas – deixei-me invadir pela angústia de lidar com o que eu sentia que era correcto e o que eu tinha aprendido que era correcto. foi uma luta que me deixou quase exausta e, sobretudo, que me deixou com dúvidas quanto à minha própria maneira de ser.

agora – um agora que dura há uns bons meses – deixo-me levar pela maré, deixo que o instinto fale mais alto. se ela quer colo dou colo, se quer mimo dou mimo.

e, quando ela acorda e sorri para mim… sei que estou no bom caminho 🙂

quando eu for grande

.  quando eu for grande quero reunir os meus amigos e a minha família na mesma festa de anos. quando eu for grande, quero rir às gargalhadas sem me preocupar se inclino a cabeça demasiado para trás. quando eu for grande, quero poder sentar-me no chão, em cima da mesa e no lancil do passeio.

quando eu for grande quero apontar para as núvens e dizer que tanto consigo ver a água a condensar-se como um coelho a fugir de um ovo gigante. quando for grande quero não ter vergonha de dizer que gosto quando o chocolate se derrete nos dedos, porque os dedos de chocolate são o chocolate mais gostoso que existe.

quando for grande quero dizer que ainda gostava de escrever cartas ao pai natal e que, se dependesse de mim, todos os animais abandonados dormiriam debaixo da minha cama.

quando eu for grande quero  fazer estas coisas todas.

mas ainda sou pequenina 🙂

por ela

.  ultimamente ando um pouco repetitiva. mais conversa menos conversa, mais post menos post, acabo por falar da Mariana com aquele entusiasmo e aquela dedicação que – não duvido – deve levar o meu interlocutor a considerar-me, no mínimo, idiota.

enquanto que na oralidade me contenho e só falo quando me perguntam (e aí é como uma barragem a descarregar água), na escrita a coisa é mais difícil. ora isto é, no mínimo, idiótico… é que sempre disse que não queria ser daquelas pessoas cujo mundo e universo e arredores andava à volta de uma criança. queria ter espaço para o resto, para outros interesses, para outros desafios.

e tenho. leio, escrevo, discuto, falo sobre redes e identidades, mas não posso negar que, no fim no fim, vai tudo ter a ela :).

se estou num dia menos bom, penso que dali a pouco tenho a Mariana nos braços. se estou triste penso nos minutos que faltam para sentir o cheirinho dela. se não me apetece almoçar nem jantar digo para mim mesma que ela ainda precisa da minha energia. se me questiono se valerá a pena todo o esforço nos estudos, penso que quero que ela tenha orgulho em mim.

são estes pensamentos que enchem o meu dia de sorrisos e os meus olhos de humidade. quando chego a casa e ela olha para mim – e, invariavelmente, começa a chorar pelo meu colo -, é como se num instante todo o dia se desfizesse e só aquele momento interessasse. pegar nela, cheirá-la, encostar a sua cabeça ao meu pescoço, são gestos que faço todos os dias e que, mesmo assim, continuam únicos.

esta coisa de ser mãe tornou-me um pouco idiota. deve ser por isso que me emociono com imagens como a que está no final do post. e que é tão verdadeira. porque quer tenhamos ou não a certeza de estarmos no bom caminho percebemos que, no fim de contas, sabemos bem porque o percorremos. mesmo que pareçamos idiotas. mesmo que sejamos repetitivos. é que, por ela, vale tudo.

a diferença entre ser inteligente e ser esperta

.  há uma diferença entre ser inteligente e ser esperta.

independentemente dos diferentes tipos de inteligência (académica, emocional, etc etc etc), do meu ponto de vista todos partilham um atributo comum: são assentes na gestão, na reflexão, na consciência. têm a ver com organização, método, limpeza. a esperteza, pelo contrário, tem a ver com sobrevivência.

enquanto que a inteligência é um dom, a esperteza – seja ela saloia ou de primeira classe – é uma competência: podemos nascer sem ela mas, a qualquer altura da vida, podemos investir e trabalhar até ficar esperto. ficar, não ser. é-se inteligente, aprende-se a ser esperto.

os meus pais sempre trabalharam no sentido de desenvolver, em cada um dos filhos, o dom da inteligência (intelectual, emocional) com que cada um nasceu. deviam, pelo contrário, ter-nos ensinado a ser espertos.

os meus pais, quando eram crianças, eram pobres. a minha mãe, em particular, era muito pobre. aos dez anos teve de saír da escola para ir trabalhar (chamava-se “servir”) para casa de desconhecidos e, desta forma, poder ajudar a família. aos três filhos – eu, o meu irmão e irmã – ensinou sempre o valor do trabalho e do esforço, e crescemos com a consciência de que tínhamos o privilégio de estudar e crescer com coisas e experiências que ela nunca teve.

nunca recebemos – NUNCA – quaisquer recompensas ou incentivos por termos boas notas. sempre nos exigiu o cumprimento das tarefas domésticas e o respeito pela hora das refeições mesmo quando estávamos em época de exames ou provas. ensinou-nos o valor do tempo, da organização, do definir prioridades. ensinou-nos que não nos devemos vender por cargos, por posições, ensinou-nos a andar de cabeça levantada por não devermos nada a ninguém.

são valores importantes, que ficam. a nossa vida sempre se regeu pela inteligência, pelo respeito pelo outro, pela dignidade. ainda hoje somos incapazes de colocar um papel no chão, nem que seja preciso andar dez metros até achar um caixote do lixo. ainda hoje damos lugar a pessoas de idade, mesmo que elas não o peçam. ainda hoje pedimos “por favor”, dizemos “com licença” e “obrigada”.

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os meus pais sempre cultivaram, em nós, o dom da inteligência.

acho que, agora, está na altura de aprendermos a ser espertos.