para quando um “plano nacional de escrita”?

.  quando eu era (mais) pequena havia um ritual que se repetia a cada quinze dias: a deslocação à biblioteca, acompanhada pelo meu pai e pelos meus irmãos. o facto de a senhora da biblioteca – figura que na altura era para mim uma espécie de S. Pedro – já nos conhecer pelo nome facilitava a coisa e permitia-nos, ocasionalmente, levar quatro livros no lugar dos três da praxe.

eram tardes mágicas: entrar, entregar os livros já lidos, passar para a sala e sentar na alcatifa, diante de umas estantes imensas que estavam cheias de histórias que ainda não conhecia. o tirar o livro, ver o número de páginas (as viagens ainda eram longas pelo que livros com menos de 50 folhas eram eliminados à partida), ler um bocado, ver se o texto estava escrito na 1ª pessoa (corte!!!), enfim…

e, depois de ouvir o carimbo a validar o empréstimo, regressar a casa com os 3 volumes, escolher qual ler primeiro, forrar a capa com papel branco e escolher o marcador para assinalar a página em que a leitura ficava em suspenso até à noite seguinte. lá em casa nunca – nunca – se dobrou o canto de um livro. aliás, é coisa que ainda hoje me arrepia.

depois era o consolo: ler até os olhos quase rebentarem. se acaso a minha mãe passava antes e desligava a luz, era esperar até ouvir a porta do quatro fechar e acender o candeeiro, debaixo dos cobertores, para ler mais um bocado. sim, porque um capítulo – como uma conversa – nunca se deve deixar a meio.

esta coisa de ler tornou bastante fácil a “coisa de escrever”.

não sei – nem me interessa – se escrevo bem ou mal. escrevo porque gosto, como outras pessoas gostam de cantar, de dançar, de subir a postes ou de dormir na praia. sabe-me bem, e isso basta-me. penso, até, que deveria ser uma arte – a da escrita – a incentivar nas escolas, tal como se incentiva a leitura. porque nos devia ser incutida, desde pequenos, a “obrigação moral” de deixar, para quem quiser conhecer, um bocadinho de nós feito palavras. sejam elas histórias, contos, relatos reais, seja o que for. o ser humano é tão complexo, a alma é tão grandiosa, o sentimento é tão poderoso, que não deveria terminar quando nós terminamos.

todos devíamos ter a obrigação de, à semelhança das “histórias de vida” das Novas Oportunidades, deixar um relato escrito daquilo que somos, daquilo que gostamos, daquilo em que pensamos. do nosso “porquê” das coisas, das nossas emoções, dos nossos arrepios.

Fernando Pessoa escreveu que : “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.”

Eu acrescentaria: e o que é meu, deixo-o para todos vós.

para memória futura :)

.  No dia 21 de Julho de 1974 os nossos pais decidiram deixar de ser duas pessoas e passar a ser um casal. A partir desse dia formaram uma sociedade, com quotas iguais, que dura há 36 anos.

Mas 36 anos de casados significa muito mais do 36 anos de amor e casamento.

Significa que souberam ser capazes de fazer as pazes de cada vez que se zangaram. Significa que souberam respirar fundo. Que souberam negociar e chegar a acordo. Que souberam ver o que era importante e deixar, para outras conversas, aquilo que não interessava.

Significa que souberam gerir os bens imóveis e os móveis – os filhos.

Sabemos que fomos fáceis de criar – eu nunca amuei, o mano nunca deu noites sem dormir, a mana nunca se zangou 😛 – mas mesmo assim devemos ter dado algum trabalho. Durante grande parte destes 36 anos fomos uma bagagem às vezes um pouco difícil de arrumar.

.Agora, que já somos crescidos, são os nossos filhos que amuam, que não dormem, que se zangam. Estes pequenos milagres – nossos e por isso também vossos – são a melhor maneira de vos demonstrar que ser filho é bom. Que nos deram o melhor do mundo: pais que souberam e sabem ser pais, pais que sabem mostrar o que é o amor.

.Os nossos pais são o melhor exemplo daquilo que um dia poderemos ser. E é por isso que vos agradecemos, todos os dias.

200.9

.  quando a Mariana entrou nas nossas vidas sob a forma de um número, a primeira coisa que fiz – depois de respirar, me acalmar e quase chorar – foi prometer, baixinho, que nunca iria perder a paciência com ela. que não deixaria que as coisas e os problemas do dia-a-dia, e que não faziam parte do mundinho dela nem por ela seriam controláveis, mexessem ou interferissem na forma como nos relacionaríamos. que sempre teria tempo para ela, mesmo que isso implicasse não ter tempo para mim. e que, acima de tudo, a ia amar independentemente do comprimento dos dias e dos escuros das noites.

quando a Mariana chegou às nossas vidas na forma de uma surpresa, um ouricinho tão pequenino quanto exigente, não sabia ainda – nem estava preparada – para todas as mudanças, todas as alterações que trazia com ela.

a Mariana ensinou-me que nem todos os bebés são como os descrevem nos livros. que há aqueles que não dormem 16 horas por dia, que há aqueles que não se acalmam com música, com bonecos, com fraldas. ensinou-me que as relações se constroem aos bocadinhos, em cada toque, em cada olhar. ensinou-me que um bebé pode chorar um dia inteiro e dar o seu primeiro sorriso às 4 e meia da manhã. que cada segundo conta, que cada minuto é importante, que cada hora é cheia de tempo tão breve que sabe a eternidade.

até agora tenho conseguido cumprir a promessa que lhe fiz, promessa que renovo cada dia. estes últimos cinco (quase seis) meses têm sido cheios de música, de sons, de toques. enche-nos de paz, encontrar alguém que responde ao nosso beijo com um sorriso, que adormece quando cantamos baixinho, alguém cujos olhos brilham quando ouve a nossa voz. a quem podemos dizer “gosto de ti” vezes sem conta. e, mesmo que agora a separação doa mais, não me arrependo de lhe ter dedicado cada segundo destes cinco meses da minha vida. porque não é por não nos entregarmos que ficamos mais resistentes. porque não é por a anteciparmos que a dor dói menos.

a Mariana vai crescer e vai chegar o dia em que não vai precisar tanto de mim, eu sei. mas também sei – tenho a certeza – que vou precisar sempre dela.

Até breve

_ Foi ontem, numa manhã cheia de sol, que nos despedimos da Mónica.

Dizer que a Mónica era especial é dizer pouco. Conheci-a quando orientava a catequese juvenil, há já alguns anos, e foi impossível deixar de ficar impressionada  com aquela morenita cheia de vida e boa disposição. Tinha sempre tempo para tudo: para estudar, para ser enfermeira, para dar catequese, para orientar os grupos de jovens, para escrever para o Jornal da Paróquia. Sempre sorridente, sempre bem disposta, sempre activa.

A igreja de S. Tiago estava cheia com as pessoas que a conheciam e que lhe queriam bem. O coro, feito com os amigos e os jovens, ofereceu-lhe uma eucaristia cheia com os cânticos que ela tanto gostava: vivos, animados, alegres.

A passagem da Mónica pela nossa vida vai deixar saudades. Para quem acredita que as coisas não terminam aqui – como disse o Padre Vasco – não é um “adeus” mas apenas um “até breve”. Cheio de carinho, de amizade, de saudade.

Até breve, Mónica.

mariana

.  a mariana fez-se de pedaços de um sono sonhado em segredo,
de um sonho a medo. murmúrio meigo e suave.
mariana é luz. quente. é toque, é dedos, é pés, é beijo e riso.

é sal e sol, é sabor a quase tudo e um cheiro a coisa boa.
é sopro.
é brisa leve, arrepio que sabe bem.
é abraço que se recebe dos olhos e sorriso que apenas se pede.

é sono, é pele, é cheiro.
entranha-se, sente-se, vive-se.

mariana é fechar os olhos e respirar baixinho.

é sentir os gestos e as coisas nas palmas das mãos…
e desejar que esse segundo permaneça para sempre.