Dia 11


. Dia de altos e baixos.
De perceber que a primavera se instalou e eu nem sequer a vi chegar.
Dia de enfeitar a coroa que penduramos na porta, e tarde de fazer bolo.

Dia de atender o telefone e passar a tarde a tentar ajudar quem não conheço.
De ligar aos pais e sentir saudades.
De desligar e respirar de alívio, por mais um fim-de-semana já ter passado.
De abraçar o Gonçalo e de beijar as minhas filhas.
De limpar e arrumar e preparar os dias mais próximos,
e de olhar para as listas e pensar que “são só planos, apenas planos”.
De me irritar, de respirar fundo, de sorrir e de me irritar de novo.
De admitir que irritar também é preciso.
De sentir que esta casa é um lugar seguro,
mesmo que não estejamos seguros que assim o seja.


Amanhã é segunda.
Aos que andam na rua, a cuidar e para cuidar de nós,
a minha mais profunda e sincera gratidão.

Dia 10


. Há um tempo para tudo.
Um tempo para amar, um tempo para chorar,
um tempo para rir e um tempo para abraçar.
Há um tempo para ser forte,
e um tempo para se deixar levar.
Um tempo para insistir, outro para desistir.

Há um tempo para parar e olhar o caminho,
e outro para pegar na mochila e fazer estrada.
Há um tempo para sonhar.
E fazer planos. E pensar no que ainda está para vir.

Há um tempo para encher de mimos.
Um tempo para dizer que “te amo”,
outro para dizer “te odeio”,
outro para “não posso mais viver sem ti”.
Um tempo para enrolar, um tempo para sorrir, um tempo para beijar.

Há um tempo que se faz de lágrimas,
que se desenha de dor.
Um tempo em que choramos por dentro,
enquanto não somos capazes de sorrir por fora.
Um tempo só nosso. Fundo. Escuro. Negro. Vazio.

Há um tempo para sair.
O tempo em que a respiração pára e o olhar cresce.
O tempo do medo, do anseio, do desejo.
O tempo do “é agora”, o tempo do “já está”.

Há o tempo de ficar quieto. De ouvir e escutar.
De baixar os olhos e respirar baixinho.
De deixar sair o ar sem um ruído.

Há um tempo para tudo.
Tempo para lutar e um tempo para descansar.
Tempo para escrever e tempo para ler.
Tempo para estender a mão.
Tempo para entregar o corpo.
Tempo para desvendar a alma.

E tempo para ser feliz


(publicado pela primeira vez em abril 2014. recuperado agora)

Dia 9


. Acordar, fazer a cama. Fazer café, enroscar cinco minutos no sofá. Aguardar.

As miúdas adaptam-se maravilhosamente a este novo ritmo sem ritmo, organizado em “duas horas de manhã e duas horas à tarde”. O resto do tempo é delas (nem sempre para elas), para fazerem o que mais gostam.

Já quase não há bolo, “mãe, este é mesmo o melhor do mundo!”
As professoras enviam exercícios, mas – também elas em casa com os filhos? – têm uma sabedoria imensa e doseiam tudo com redobrado cuidado.
Elas sabem aquilo que nós dizemos que “o meu filho não!”: que a criança não aguenta muito tempo sentada, que a atenção dispersa, que o cansaço cresce.
Que isto é uma maratona, não um sprint.
Que é preciso gerir o esforço.

Hoje é sexta.
Acordei, fiz pilates, tomei banho, pus máscara no cabelo, tenho caracóis: é a primeira vez em nove dias que não seco o cabelo à bruta e o apanho com elástico logo a seguir.
A fase de “angústia turbulenta” está a passar.
Mantém-se o medo, o susto, a ansiedade, mas a angústia – que anda aqui desde a semana passada – já se instalou e já não incomodada tanto. Assentou, ganhou raízes, aguenta-se sozinha e já não requer que eu olhe por ela.
Aprende-se a viver assim.

Agora chove, e hoje é sexta.
Vamos fazer pipocas, enroscar no sofá e ver filmes até adormecer. Depois vou pegar numa e noutra, e levá-las ao colo até à cama.
Há coisas que mudam.
Felizmente, há outras que não 🙂

Boa semana, valentes.

Dia 8


. A roupa que ontem secou descansa agora nas gavetas.
Há um cheiro bom a limpo, um aroma a dias normais.

Hoje é Dia do Pai, e vamos fazer bolo:
“De chocolate, para depois guardarmos em caixas e o pai levar para o trabalho”.
E elas dizem que “o teu arroz já sabe ao da avó”,
e eu percebo que é o sal, esse sabor que elas começam a sentir falta.

A avó – que continua na luta, a ajudar os que mais precisam – deixou gomas na beira do muro.
Comem-nas duas a duas, quatro a quatro,
e eu deixo porque nestes dias mornos precisamos de coisas assim: fortes, doces, salgadas.
De coisas que nos arranquem destes dias em que um é igual ao outro,
e ao outro,
e ao outro,
e ao outro.

Precisamos, sobretudo, de sentir.
Mesmo que seja medo.
Mesmo que seja receio.
Mesmo que seja saudade.
Mas precisamos de sentir.

eu preciso.


(hoje foi a Margarida quem fez a cama 🙂 )

Dia 7


. Fazer a cama. Arrumar o que ficou disperso.

O ar cheira à roupa que foi lavada, o vento secou o que havia para secar.
Apanhei tangerinas, reguei os vasos.
As meninas tomaram banho, e o cabelo da Margarida cheira a flores e a erva-doce.

Há uma calma em tudo, uma ausência de barulho, que torna estes dias irreais.
Há um mundo aqui entre muros, e outro lá fora.
Lá fora, andam os bravos, os que continuam a trabalhar para que nada nos falte: comida, assistência, segurança, saúde.
Lá fora andam os meus amigos, o meu irmão, a minha sogra, o meu marido.

Esta noite o Gonçalo já dormiu noutro quarto.
Mas o cabelo da Margarida cheira a flores, a erva-doce e a dias de sol.
Cheira aos dias das coisas boas.
Cheira aos dias. das coisas boas.


P.S. – no mercado, já não há carne de porco. há de vaca, a 14 euros o quilo. siga. amanhã é Dia do Pai, e comeremos o melhor bife de todo o sempre.