Dia 6

. Acordar e fazer a cama.
Reunir, falar com alunos.
Ligar aos pais, pela terceira (ou quinta?) vez.
Falar com os irmãos.

Mentalizar que vai passar – porque vai -, só não se sabe quando.
Nem como. Mas vai passar.

Pensar nos amigos que trabalham nos hospitais, nas clínicas.
Enviar um abraço em pensamento, porque a atenção deles não deve ser perturbada por nada.
Pensar na(s) Ana(s), na(s) Rita(s), na(s) Sara(s), no(s) Júlio(s).
Pensar nos professores (da Mariana, da Margarida), nos educadores.
Perceber que há uma razão para a educação de infância ser uma profissão e não um serviço de voluntariado…

Apanhar tangerinas.
Fazer sopa.

Ovar prepara-se para declarar estado de calamidade.
As urgências pediátricas de Aveiro fecham.

A Margarida perdeu (mais) um dente.
Esta noite, a #FadaDosDentes vai estar de serviço 

Dia 5


. (mais) um paper aceite, outro rejeitado.
Elas trabalham, eu tento trabalhar. Prazos de candidaturas adiados mais umas semanas, e um alívio indescritível.
Re-perceber que trabalhar com filhos é trabalhar a 60%.
Os outros 40% são para elas.


Pedir-lhes que me digam “vai tudo correr bem”,
hábito que temos quando estamos preocupados com alguma coisa:
não se pergunta “o quê?”,
diz-se apenas “vai tudo correr bem”.
Perceber que uma chamada Skype pode dar alento para mais uns dias.
Falar com os pais, sentir (mais) saudades (que o costume).
Ouvir nas notícias que há uma primeira vítima mortal.
Re-perceber que somos pequeninos. E grandes ao mesmo tempo.


(esta noite sonhei que não tinha cenouras em casa. acordei, e demorei quase uma hora a adormecer. o cérebro sabe as preocupações que o coração tenta disfarçar)

Dia 3


. não fosse pelas notícias, e até parecia que estamos de férias.

(a gestão e o doseamento do esforço são, para mim,
das coisas mais importantes quando se tem de estar em casa.
Aprendi isso nos primeiros meses da Mariana, quando – tendo sido várias vezes convidada a sair de estabelecimentos comerciais – “optei” por ficar por casa.
Uns dias é normal, uma semana é aborrecido, três meses é uma …
Há uma grande diferença entre ficar em casa porque se quer, e porque há condicionantes que no-lo obrigam/forçam/conduzem a fazer)

Dia 1

. Não nego que estamos assustados.
Desde a indicação de “fecho” da UA, ontem, que o grau de alerta aumentou.
Não queremos entrar em pânico, mas se a minha entidade patronal me diz que devemos /podemos ficar em casa, sou coerente e elas ficam também.

Não foi um dia muito produtivo.
Não é fácil trabalhar com crianças em casa: a solução seria aliená-las com os telefones, mas não pode ser assim durante todo o dia.
Fui acompanhando as notícias, ouvindo online, e continuo preocupada por, quando tudo ou quase tudo está a parar – por uma questão de prevenção, de consciência – as escolas se manterem abertas.
Não há condições para ter as crianças em casa porque não temos condições, em termos de estrutura, para nós (pais) ficarmos em casa.
Eu posso.
Na minha família há quem não possa.

Amanhã a Mariana tem teste.
Está a estudar, eu olho para ela e questiono-me se estarei a ser paranóica, se estou a exagerar, se daqui a uma semana me vou arrepender de não ter tido a calma que tanto gosto de dizer que tenho.

Vejo o noticiário das 19, e na conferência de imprensa os intervenientes já não falam normalmente, passam a ler os papéis que trazem consigo.

Eu posso ficar em casa.
E quem não pode?