Dia 56+31, 32 e 33


Ontem fomos almoçar a casa dos meus pais. Comida da mãe, comida boa, café bebido no jardim e tarde passada a conversar sobre tudo e coisa nenhuma.
Soube bem, sabe sempre bem, sabe ainda “mais bem”.
Aos poucos, com máscaras e distâncias, vamos reconquistando território que já não pisávamos há muito, espaço que ainda é nosso mas que já quase não reconhece os nossos pés.

Hoje, segunda, final de dia.
Trabalhos todos feitos, dia de amanhã preparado.
Jantadas, falta arrumar a cozinha e ver desenhos animados antes de ir dormir.
Foi um dia dentro de casa, dentro do computador, tanto para mim como para elas. Aulas, ATL, zoom.
Adaptam-se como sempre se adaptaram, sabem que há tempo para tudo.
Amanhã é terça, véspera de quarta, véspera do dia em que a mãe faz anos 🙂. Mariana tem a prenda pronta, Magui diz que ainda a vai fazer.
Lá fora ainda há luz, o sol ainda se mostra.
E eu venho aqui numa fugida, dizer(-me) o que se passou hoje, deixar o registo escrito daquilo que, para mim, tem feito o passar dos dias.

Dia 56+30


Dia em que o Mimos foi à vacina, as meninas foram a casa da Avó Maria e eu fui ao Lidl 🙂

Sair de casa sempre foi um filme: é uma que se esquece do chapéu, é outra que já dentro do carro avisa que está de chinelos, é o ter de esperar para se preparar a carteira.
Agora, a isto, juntam-se as máscaras, o álcool e um cão.
“Porque ele pode ter sede”, “porque ele pode ter fome”, porque “onde está o brinquedo?”, porque “está de trela e pensa que está de castigo”. E eu? Eu só espero que ele não faça as necessidades pelo caminho, que não fique indisposto, que se mantenha lá atrás entre as garotas, que não se lembre de começar a ladrar.

A vacina correu bem, a veterinária é um amor. Mais vacinas daqui a um mês, evitar o sol durante o dia de hoje, e lá vamos nós para casa da avó Maria.
Deixo lá as meninas, deixo lá o cachorro, confirmo que “tem a certeza que não vão incomodar?” e saio rumo ao Lidl, para tentar em meia hora trazer tudo o que nos vai manter afastados dos supermercados durante duas semanas.
Não fosse a máscara, não fossem as linhas marcadas no chão, não fosse eu não ter ido sem óculos, e teria sido uma ida como as de antes: corredores largos, ordenados, ar fresco, evitar os queijos, olha molho novo de pizzas, devia levar integral, até que enfim aveia bio, olha os salgadinhos em promoção.
Na fila para pagar, um senhor com uma garrafa de água passa à minha frente. Depois volta-se, ar surpreso, pede desculpa, diz que não reparou. Só lhe vejo os olhos, mas sinto que diz a verdade. “Eu ia-lhe dizer mesmo para passar, só leva uma garrafa”, “desculpe, não a vi, tem a certeza que não se importa?”.
Sorrio, e repito que não há problema. O senhor insiste, tem certeza? E eu penso que, na verdade, o sorriso que se vê nos lábios faz falta. Que pode tranquilizar, dar força à palavra, que o sorriso só pela metade (aquele que se consegue ver nos olhos que espreitam por cima da máscara) nem sempre é o suficiente para nos fazermos entender.

Vou buscar as meninas, vá digam xau aos avós. Abraços dados nas costas, beijinhos atirados com os dedos. Não é tudo, já é alguma coisa.

Em casa, depois de arrumar as compras e limpar o carro (ficou indisposto…), respiro profundamente.
A minha casa, o meu lar, o espaço que sempre senti como o meu espaço, assume o papel de santuário. De lugar onde se respira, onde se ri de olhos e lábios, lugar onde se dá beijos e onde os braços se enrolam.
Diziam (e eu também) que não há lugar como a nossa casa.
Nestes dias, isso tornou-se ainda mais verdadeiro.

Dia 56+29


Hoje foi um dia diferente. Durante pouco mais de 45 minutos, conversei um pouco sobre anúncios no Facebook, sobre cuidados a ter no desenho e divulgação de ideias, produtos, empresas.
Não sou especialista na área, não tenho pretensão de o ser, mas os anos em que lidei com este tema – primeiro investigando, depois implementando – permitem-me, pelo menos, ter uma opinião sustentada sobre o tema.Foi bom, pelo menos para mim 😃
Revisitei mentalmente locais antigos, molhei os pés nas águas do copy, da imagem, da segmentação, dos indicadores, métricas e resultados. E, por minutos, voltei a sentir o bichinho que é criar conteúdos para outros, conteúdos para serem vistos, partilhados. Voltei a sentir aquela agitação de experimentar públicos, trabalhar o detalhe de uma imagem, ver as coisas a encaixarem uma na outra e na outra e na outra até todo o produto (neste caso a comunicação) fazer sentido.

Claro que em tudo ou quase tudo há um reverso: na medalha das redes sociais, o lado menos bonito é tomarmos consciência que somos conduzidos, que há masterminds a planear isto tudo, que quase nada acontece por acaso e que se “por acaso” nos encontramos com algo que nem sabíamos que andávamos à procura, isso não é serendipity mas sim o resultado de uma estratégia de comunicação muito bem afinada, muito bem testada, muito bem planeada e implementada.

Nos dias de hoje, esta noção – que somos linhas numa base de dados, que pertencemos a segmentos e categorias com preferências e comportamentos previsíveis – assume um papel ainda mais importante. Estamos expostos a comunicação online muito bem feita, muito bem desenhada. O conhecimento sobre “o algoritmo” (essa entidade…), sobre o que impele a comentar, a partilhar, qual o discurso mais viral, faz parte dos manuais de figuras que vemos todos os dias nas TVs, nos jornais, na Internet.Nos dias de hoje, mais do que nunca, esta noção de que temos de ser cada vez mais críticos e mais conscientes na forma como publicamos, reagimos, partilhamos e interagimos na rede é algo que deve ser falado, discutido, analisado.
A rede e as redes fazem parte da nossa vida há décadas, e fazem parte da vida dos nossos filhos desde que nasceram. Não há como fugir dela, não é preciso fugir dela, não faz sentido fugir dela.O que é preciso – isso sim – é aprender a usá-la de forma crítica.

Dia 56+28


Hoje saímos de casa para comprar comida. Dito assim, parece assunto sério – mas não é: há atum, há arroz, há frango, há grão-de-bico e feijão frade (cujos frascos, suspeito, vão ficar por abrir até à próxima pandemia). Há pão, leite, manteiga, mirtilos, cerejas, abóbora, batatas e cebola.
Mas hoje apetecia algo… bom 🙂

A Magui terminou os trabalhos antes das 11 da manhã (terá por eu ter ficado ao lado dela, a elogiar cada letra?), Mariana orientada, trabalho em ordem, cesto da roupa ainda quase vazio. Pequenas coisas, pequenos pontos altos do dia que mereciam celebração.
“Vamos ao Burger King!”, disse-lhes. “YEEEEEY”, responderam.
Ao abrir a garagem, vejo que o esposo levou carro preto e deixou ficar a banheira, o avião, o T0 que dá pelo nome de Passat. O carro onde me sinto ainda mais pequena, onde não consigo perceber onde o muro começa e a chapa acaba, o carro que só conduzo em situação de emergência porque foi concebido para gente grande e eu nunca passei do metro e cinquenta e quatro.
“Vamos antes mais logo, quando o papá chegar”, propus. Que não, que elas nem falavam durante a viagem “para a mamã não se distrair”, que era rápido e que eu tinha de ter coragem – isto Margarida; Mariana, sabendo como eu não gosto de conduzir carros grandes, tinha ficado convencida logo ao ver o meu ar de “porra…”

Saímos. Devagar, pela estrada da Senhora do Socorro (evitando a nacional), banco chegado à frente, miúdas caladas que nem ratos, duas mãos a agarrar firmemente o volante na posição das “dez para as duas”.
Quando chegámos ao Burger King, Drive Through, tomei mais uma vez consciência do que significa nestes dias sair de casa: põe máscara, abre janela, faz pedido, avança um pouco, diz bom dia, sorri mesmo sabendo que quem nos atende não vê; passa cartão, recebe cartão, não coloca cartão na carteira, recebe comida, desinfeta mãos, diz “obrigada” e arranca enquanto fecha a janela.
A moça, simpática e de olhos grandes e bonitos, fazia tudo com método e segurança, cumprindo um ritual que já deve estar mais que treinado.
Regresso pela mesma estrada, entrar na garagem, sair do carro, perceber que a traseira do T0 ficou de fora, voltar a entrar no carro, puxar à frente, fechar a porta, entrar em casa. Sapatos ficam cá fora, ainda que não tenha saído do carro: se se tornar um hábito, fica mais difícil de se esquecer.
Limpar garrafas, retirar tudo das embalagens, comer no chão da sala. Mãos enlambuzadas, risos a saber a coisa boa 🙂

Da última vez que as meninas foram assim, ao Burger King, foi com o Gonçalo ainda antes destes 56+28 dias. Já nessa altura não entraram, e a comida foi pedida pela janela: “não quis arriscar em locais com muita gente”, disse-me o Gonçalo quando cheguei a casa, vinda de um jantar com colegas de Coimbra.

As coisas mudaram, e nós vamo-nos adaptando a elas. Começamos a incorporar pequenos rituais ou celebrações de outros tempos, quando os beijos se davam e as mãos se apertavam com força, nesta realidade que é agora a nossa.Assim se vive, em terras da Branca 🙂

(a foto é de hoje. deixei o Mimos entrar para brincar com as meninas, mas o pai não sabe. e, como não lê nada do que publico aqui no Facebook, penso que não saberá tão cedo 😛)

Dia 56+27


É impossível passar o dia de hoje sem se falar naquilo que, hoje, fez parte dos assuntos do dia: as fotos negras de perfil, e tudo o que a elas está associado.
Hoje, dia de aulas e de alunos, as miúdas tiveram folga. Vamos trabalhar daqui a pouco, tentar ganhar fora de horas as horas que não trabalhámos durante o dia, mas como hoje fecho o computador mais cedo – e durante o dia fui eu e o computador, com intervalo para refeições – não posso falar do que ainda não aconteceu.

Quem me conhece sabe que sou tolerante, por vezes em demasia, e que me custa (muito, tanto), impor limites ao discurso dos outros. Aguento até onde consigo, tento colocar-me na posição do outro, faço um esforço. Normalmente saio destes exercícios cansada, a contar o que devia ter dito e não disse, a indexar argumentos que não usei nem nunca irei usar.
Quem me conhece bem, sabe que quando algum ponto nuclear é tocado, quando esses comentários e conversas (de circunstância, de café ou de debate) mexem com os meus valores core, acabo por me levantar e sair para não ouvir. Ficar sentado e nada dizer nem sempre significa concordar; ainda assim, e como um dia vi numa magnífica série de televisão, não posso (nem devo) impedir alguém de falar. Mas também não me podem obrigar a ouvir.
Quem me conhece mesmo, mesmo bem, sabe que raramente entro em conflitos. Que preservo a paz de espírito acima de tudo. E quem me conhece mesmo, mesmo bem, sabe que essa paz de espírito, na última década – desde que a Mariana nasceu – me leva algumas vezes a intervir. A interromper. A dizer que “não é bem assim”.
Ser mãe fez-me tomar posição. Ser mãe, ser um primeiro modelo ou exemplo – primeiro, elas terão tantos, bons e maus e assim-assim – fez-me perceber que há coisas, há assuntos, há temas, em que temos de assumir uma posição.
A generalização, que muitas vezes é o primeiro passo para a desumanização, é um dos pontos que me faz agir, que me faz interromper. A generalização, o tomar a parte pelo todo, o classificar pessoas pela cor da pele, etnia, religião, nível socio-económico, é coisa que me incomoda profundamente. Não é por se ser político que se é corrupto; não é por se ser patrão ou ter dinheiro que se é explorador; não é por se ser cigano que se é ladrão; não é por se ser polícia que se é violento; não é por se ser católico que se é ignorante; não é por se ser padre que se é pedófilo. A generalização, primeiro passo para a desumanização, não deve continuar e tem mesmo de ser combatida. E as frases que escrevi acima, infelizmente, ouvi-as de pessoas que respeito, que gosto, pelas quais tenho consideração. São generalizações, frases feitas, lugares comuns. E podem ser o primeiro passo para algo mais sério.

No início deste ano letivo, comprei às miúdas uma caixa de lápis de cor especial, os “skin tones” da Giotto. Não foram baratos, não foram comprados porque estavam na moda ou simplesmente porque ficava bonito.
Quando os comprei, e os dei às garotas com a indicação de que “são para usar, podem emprestar aos outros meninos, têm aqui todos os tons de pele”, fi-lo com a intenção de lhes mostrar (numa caixa de lápis, é certo) que não há um tom, uma pele. Que o rosa-claro é da pele da Margarida; que o castanho é a cor da Mariana; que o castanho escuro é a cor do colega novo; que o rosa avermelhado é a cor da pele da mãe.
E este exercício com os tons de peles podem ser alargados a outros campos, outros assuntos, outros domínios.
Tento fazê-lo nas nossas conversas, humanizando os casos e as situações, explicando que há pessoas que são boas e há pessoas que são más, que há pessoas que agem bem e há pessoas que agem mal. Que a cor da pele, a nacionalidade, a etnia, a religião, definem-nos enquanto pessoa, na medida em que são parte daquilo que somos e nos ajudam a construir comunidade, a pertencer a comunidade.
Mas que não podem, NUNCA, ser motivo de discriminação. Que isso é coisa que não podemos tolerar com silêncio, ou permitir afastando-nos do que nos incomoda.
Que isso sim, é coisa que nos deve impelir a assumir uma posição.