Dia 56+10


O quarto das meninas está limpo, as paredes foram passadas a lixívia de alto a baixo. Roupa de cama mudada, tapete lavado, seco e de novo no seu lugar. Cortinas a cheirar a Skip e Comfort de sândalo e madressilva.
O resto da casa também está em ordem, mas hoje o quarto delas mereceu a atenção especial.
Os lençóis polares deram lugar aos de algodão, feitos pela avó Maria e que têm o tamanho certinho das camas delas. Os casacos foram lavados, secaram e estão guardados, e as camisolas mais grossas já não espreitam pelas gavetas.
É um cheiro bom, este. Cheiro a limpo, mas um limpo onde existe vida. Um limpo onde vai saber bem dormir.

Percebo nestes sessenta dias que ou mudei muito, ou então nunca me conheci bem. Dizia-me noctívaga, e agora acordo cedo para receber o novo dia; dizia-me gostar de dias de chuva, e agora o sol faz-me falta. Preciso dele, do sol, da luz, do calor. Pudesse, e voltava a refazer as janelas da minha casa, alargava-as de parede a parede. E são janelas de três metros… mas, nestes dias de estar fechada, parece que não chegam.
Por isso, antes do almoço, saí para apanhar sol. Estendi-me na varanda, Mimos a morder-me os dedos e as orelhas, e fiquei assim, a receber sol nas mãos e nos pés. Nunca, como até estes dias, percebi a falta que me faz o sol. A luz. O vento. O calor.

À tarde, o homem da casa foi cortar lenha. É assim a vida do campo, aproveitar o sol para acautelar os dias de frio. Mariana pede para ir ao monte, com o pai e a avó. Senta-se no trator que já foi do bisavô Rafael, que o avô Carlos conduziu vezes sem conta e que agora é (poucas vezes, muito poucas vezes) usado pelo papá, e pergunta se algum dia será capaz de o conduzir.
“Este não sei. Mas se quiseres conduzir um igual, é só teres idade e aprender”.
Crescem a saber que não há coisa que menina não faça. Que não há coisa que menino não possa fazer. O pai trata da roupa, a mãe da casa. A mãe arranja as torneiras, descarna fios, faz ligações em tomadas, o pai arruma a cozinha. Todos cuidam, todos tratam.Um dia será a vez delas tratarem, de serem elas a decidir.
Até lá, os pais cuidam.
E é bom – e sabe bem – cuidar de quem se ama.

Dia 56+9


Hoje não me apetece escrever. Disseram (li) que não se vai poder ir à praia, que vamos ter de ficar em 9m2 e eu, que nem gosto de praia e no ano passado só lá fui três vezes, fiz birra e fiquei como o tempo: cinzenta, chata, aborrecida.
Há dias, quando falava com a minha mãe sobre estes dias de clausura voluntária, dizia-lhe que nunca tínhamos passado por isto. E ela recordou que, no tempo dela, passou fome e frio; que muitas vezes não havia que comer em casa; não tinham calçado, andavam descalços. Mas que podiam correr, podiam subir e descer montes. Não havia dinheiro, não havia quase nada, mas havia o sentimento de liberdade de não estar preso, de poder correr.
É certo que eram crianças – a minha avó, adulta, devia achar a privação de liberdade algo muito inferior à fome ou ao frio. Mas a minha mãe, que passou muito e passou por muito, diz-me que “pelo menos podíamos brincar”.

Esta ideia de não saber o que aí vem, de não saber como vai ser, é assustadora. O modelo que temos agora – pais em casa com os filhos, quando tal é possível – não é sustentável a longo prazo. Estamos a aguentar porque entretanto chegam as férias e há uma pausa. Mas imaginar este sistema no início do ano, e durante um ano letivo inteiro? Assusta. Da mesma forma que assusta pensar em deixá-las na escola, entregues à sua ainda pequena responsabilidade.

É. Hoje não me apetece escrever. Estou de birra, como as crianças.
Acho que vou amarrar o burro, beber chá, e esperar que o sono cure o mau humor.

Dia 56+8, Dia de Margarida


Arrebata-me o coração todos os dias. Leva-me a respirar fundo quase outros tantos. É doçura e força, riso solto e lágrima fácil. É música, dança, movimento, é maquilhagens e fitas ou pijama todo o dia.
A Margarida é uma explosão de luz, um calor forte que invade o peito. É o meu anjo loiro, amor da minha vida, bebé pequenino que ainda se enrosca no meu braço para dormir.

Há sete anos, nascia a que até então era para mim a irmã da Mariana. No segundo em que ma colocaram ao colo, chorei de felicidade e soube que este amor imenso, este amor gigante, vinha para ficar. Que não ia precisar de conquistar espaço, porque o espaço já era dela por direito.

O meu amor pequenino faz hoje sete anos. Houve bolo, houve festa, há folhados de salsicha e batatas-fritas de pacote. Sente falta dos amigos e da família, mas – com o seu jeito de “se tem de ser, que seja” – adapta-se à nova realidade como se sempre tivesse sido assim.
E esta maneira de ser, tão própria e tão autêntica, sem manias nem disfarces, ensina-me que a vida é como é, com altos e baixos, com momentos que planeamos e outros que não controlamos e que nos tiram o chão.

Há sete anos, a Magui chegou.
E a nossa vida nunca mais foi a mesma 🙂🌼

Dia 56+6


Esta foto tem 19 anos, e não foi tirada a preto e branco.
Na altura, as fotos eram a cores, feitas por fotógrafos. E eram depois entregues as provas, e depois o álbum, um caderno enorme com fotos 16×20 que procuravam resumir um dia que deveria ser único, especial.

E foi.

Eu queria casar, ele não. Eu queria Igreja e alianças, ele usou-a apenas nesse dia.
Reparei nele por causa das pernas, gostei dele por causa dos valores. Nunca esquecerei a forma como num dia de praia levou pela mão o avô ajudando-o a chegar à areia. Nunca esquecerei a forma como coloca a família em primeiro lugar.
Ele aprendeu a controlar os nervos, eu aprendi a controlar os amuos. Ele não cozinha, e não reclama do que eu faço para o jantar.
Quando me vê séria, pergunta “está tudo bem?” e não insiste, porque sabe que não estou bem e preciso de tempo para pensar.
Foi ele quem me apresentou “Star Wars”, fui eu quem lhe deu a conhecer “O Senhor dos Anéis”.
Apareceu na minha vida quando andava perdida e ajudou-me a encontrar um rumo.
Come as gomas das garotas, e temos de esconder as cookies junto do arroz para que ele não as encontre e assim durem mais que um dia.
Não oferece prendas porque não tem esse gesto por hábito, mas sabe que me deu (e dá todos os dias) aquilo que eu mais quero no mundo: uma família.

Há 19 anos, chovia como o caraças. Estava um frio de rachar. Não houve quinta, apenas restaurante, não houve música nem DJ e a festa acabou cedo.
Mas a vida a dois+dois, esta que está a ser construída, continua a ser motivo de festa e celebrada todos os dias.

Amo-te, GT 😛Assim muito, e um bocadinho mais ^-^