Dia 56+16


Sexta, dia normal.

O despertador tocou às sete, levantei-me, fui até à sala e desliguei-o. Depois, voltei ao quarto e enrosquei-me na Margarida (que fugiu a meio da noite para a nossa cama) e fiquei assim, durante meia hora, até o alarme soar de novo.
Não sei porque mantenho o toque das sete. Já foi preciso acordar mais cedo, já não é preciso roubar meia hora ao sono: o Mimos anda à solta, a telescola só começa às nove, só começo a trabalhar às oito. Mesmo assim, esta forma estranha de acordar aos bocados ficou.

A manhã correu bem. A telescola correu bem. A Magui fez ginástica. A Mariana terminou os trabalhos.O vídeo que a professora enviou, onde descrevia passo-a-passo uma experiência com água, fê-la entender o que é volume e o que é massa, quanto espaço ocupa a água e o espaço que ocupa o gelo. E eu penso com carinho nesta gente que ensina, que prepara fichas e faz vídeos, quando seria tão mais fácil ficar-se pelos mínimos. E continuo a pensar que, enquanto formos capazes e não enlouquecermos, esse esforço será correspondido com o nosso esforço.
Porque mesmo que chegue ao fim do dia estourada, mesmo que por vezes o tempo pareça que não dá para tudo, as miúdas continuam a aprender; continuam a gostar da escola; continuam a fazer os trabalhos. Elas não desistiram. E, por respeito a elas e a quem as ensina, nós também (ainda) não.
Temos agora uma garrafa de água no congelador, à espera de congelar. Se rebentar, a experiência correu bem 🙂

À tarde apanhámos sol. Aproveito as pausas que o corpo e a cabeça pedem e saio com elas para o jardim, para andar no baloiço. Mariana faz a roda, Margarida faz ioga, Mimos corre atrás delas, Riscas olha com ar de enfado.
Ao lanche, faço panquecas.
E porque hoje é sexta e o dia até estava a correr bem, despejo o iogurte para uma taça, junto-lhe doce de morango (que eu fiz!!!!!!!) e preparo um prato bonito.
E, sentada a trabalhar/a comer, como fazia antes disto tudo, constado que o modo sobrevivência está a passar. Que (re)começo a gostar das coisas bonitas, e não apenas das coisas funcionais.
Podia ter lanchado no balcão da cozinha, o iogurte do Intermarché no copo de plástico e o doce comido à colher diretamente do frasco. Mas não… hoje, não.

Não sei se é de ter começado a ver os meus pais (com máscara, do outro lado do muro, a dois metros de distância), se é por ter estado com a minha sogra, se é pelo arroz de ervilhas que ela trouxe, se é por estar sol ou por as hortenses começarem a abrir.
Mas depois de ontem ter ficado com o coração apertado, ao ler sobre máscaras e níveis de proteção, ao perceber que isto ainda não passou e que a realidade tão cedo não irá ser nem um pouco parecida com aquela que conhecíamos, hoje sinto uma energia diferente, uma força que vem das raizes.
Um estado de alma que sei que se aguenta, que é capaz de olhar o medo e dizer “eu sei, estás aí. e eu também estou”.

Dia 56+15


Ganhei o hábito de, todos os dias, tirar uma fotografia. Não a mim, nem sempre a elas, mas todos os dias procuro registar uma imagem, um momento, um detalhe que fez este dia (ainda mais) único.
Esta manhã, depois do pequeno-almoço e da telescola e antes de começarem a trabalhar a sério, abri a porta e deixei o Mimos entrar.
E a alegria delas ao vê-lo dentro de casa, o espanto ao perceberem que eu tinha deixado, foi ainda maior do que aquele que eu esperava.
O Mimos anda lá fora porque lá fora tem mais espaço que dentro de casa. Tem uma caminha, tem comida e água fresca, tem coleira mas não tem trela. Acorda quando quer, corre, trata dos seus serviços; dorme na varanda-alpendre, quando a tijoleira está quente do sol; corre para o muro, a ladrar a cachorros maiores que ele; vai chatear a Riscas (a nossa gata velhota, que nunca pensou na terceira idade ter de aturar um cachorro sem noção); volta a beber água, a roer o tapete, a arrancar a roupa do estendal, e volta a dormir.
Fiz-lhes perceber isso, quando há dois meses insistiram para ele continuar “cá dentro”. E ainda que sintamos a falta daquele focinho pousado no nosso colo, o Mimos fica lá fora.

Hoje, porque as regras são para se contornar de vez em quando, o Mimos voltou à nossa sala. Não roeu nada, não mordeu nada. Saltou para o colo delas, deu-lhes imensas lambidelas 😛, e depois enroscou-se e adormeceu.
E elas ficaram ali, enroscadas nele, sem fazer barulho… como os pais fazem quando têm filhos pequenos.

Hoje não aconteceu nada digno de registo. Pelo menos há pouco, quando pensei “pronto, hoje não escrevo nada e fecho este ciclo”, pensava que não.
Por isso fui ver as fotos; ver o que eu tinha, hoje, achado digno de registar.
Duas filhas e um cão 🙂

Dia 56+14


Há manhãs em que o café sai bem, as notícias não falam em grandes dramas. Manhãs em que se fica com a sensação que hoje vai ser um bom dia.
Há manhãs em que se consegue resolver uma data de assuntos, em que se fecham coisas que estavam em aberto há demasiado tempo. Manhãs em que se sai de muros, em que se caminha pelo passeio, e em que se regressa a casa enquanto as miúdas ainda dormem.
Manhãs em que se lava e estende roupa, manhãs em que se dá mimos à gata que finalmente está melhor.

Há tardes em que as coisas correm bem. Em que os trabalhos são feitos sem que tal seja pedido; em que se pede uma borracha porque a letra não ficou perfeitinha.
Tardes em que o Mimos só destrói um chinelo, em que as miúdas saem para brincar sem que eu tenha de pedir duas vezes.
Tardes em que as coisas fluem, tardes que parecem desenrolar-se sozinhas e que a nós só nos cabe deixar-nos ir.

Hoje o dia foi assim. Com sol, com riso, com luz, feito de horas calmas, de pequenas surpresas, de minutos de abraços e “gosto muito de ti”. Minutos de colo para ganhar forças, minutos de colo para acalmar. Minutos de colo para saber, com toda a força do coração, que vai correr tudo bem.

(a rena da foto decidiu que hoje queria fazer tudo bem feito, e cedo – bem cedo. e fez. posso-me queixar de cansaço, mas nunca de monotonia 🙂 )

Dia 56+13


Uma das grandes lutas deste confinamento tem sido convencer uma garota de 7 anos que os trabalhos de casa são para se fazer. Que são para se fazer no dia, não dois dias depois. Que se não os fizer, não sou eu que vou explicar isso à professora: se decide não fazer, é uma decisão dela, depois que lide com o que aparecer.
É pesado para uma criança tão pequena, fazê-la pensar que terá de lidar com as consequências (boas e más) das suas escolhas?
Talvez.
Mas entre lágrimas e risos e subidas para a mesa, entre um lápis que tem mesmo mesmo de ser afiado e que só pode ser afiado pela afiadeira rosa, ou a letra que tem mesmo se ser apagada pela borracha do unicórnio porque as outras não apagam bem (mentiram, apagam todas), esta é uma das estratégias que vou usando. Tem resultado. Dá-me cabo da cabeça, mas tem resultado.

No final de semana os trabalhos foram alguns. Matemática na boa, Estudo do Meio marcha bem, mas o Português – as frases, as regras, a escrita – tem sido coisa para quase me tirar do sério. É porque dói a mão. É porque são muitas. É porque ainda não aprendeu aquela regra. É porque não apetece. E eu lá vou negociando, balançando o mimo com a voz mais séria, dando colo sempre que é pedido (isso nunca nego) e fingindo não rir quando a vejo a rabiar.

Ontem de manhã foi assim. Uma frase de cada vez, tirada a ferros, com histórias e brincadeiras pelo meio.
Depois, à tarde, teve ATL. E aquilo que comigo levou horas (horas? dias…) com a Sandrine levou minutos. Sempre a rir, a “palhaçar”, a dizer “sei mais uma, sei mais uma”.
E eu com cara de idiota aliviada, erguendo as mãos ao céu e pensando que se fosse assim todos os dias eu teria, ao dia de hoje, menos 10 cabelos brancos.

Mais tarde, contei este episódio a uma grande amiga. Entre as gargalhadas que soltou, conseguiu dizer “é bom, Mónica, é bom. É sinal que continuas a ser ‘a Mãe’ “.
E eu pensei que ela tem razão (como sempre, aliás). Eu sou a mãe. Não sou a professora, não sou a educadora, não sou outra coisa a não ser *a mãe*.
E com as mães é suposto ser assim mesmo: negociar, fingir que se chora, fazer birra, pedir colo, dar mimo, dizer que não, agora sim, mas é muita coisa, então está bem.
O facto de, nestes dias, se estar a ser professora de apoio, explicadora, educadora, cozinheira, arrumadora, o facto de se estar a trabalhar em casa e na casa, de sobrepor às oito horas de trabalho todas as outras camadas que caíram em cima estes dias, não pode anular o que representa, para elas, a mãe.

Hoje houve de novo trabalhos. Ainda não estão todos feitos (claro), mas a esta hora essa é uma guerra que não me está a apetecer comprar.
Vou dizer para arrumarem os brinquedos que estão no chão da sala.
Vão reclamar, vão negociar, vão vencer.
São dez horas. E o que eu quero, agora e até elas irem dormir, é ser apenas mãe.

Dia 56+12


São quase sete e meia e volto ao computador, para fechar coisas que ficaram por terminar.
Não me queixo.

O dia começou cedo, acordar com a casa em silêncio. Ao tentar sair para dizer olá ao Mimos, reparo que não tenho a chave de casa – ficou no carro, que ficou na garagem. Para abrir a garagem, é preciso a chave que ficou no carro. Pescadinha de rabo na boca, portanto, mas não faz mal: sai-se pela janela, entra-se pela mesma via. Está sol, apetece estar lá fora, o resto são detalhes sem importância.

A manhã corre bem, a concentração voltou, sabe bem trabalhar.
Almoça-se cedo, porque a tarde é longa.
Zoom da Mariana às duas e às três; moodle e música às três e meia; à mesma hora, Magui tem sessão com os amigos do ATL 🙂, termina os trabalhos de casa em minutos (os mesmos que, comigo, levam duas horas e trinta e duas lágrimas para ficarem concluídos). Depois da Magui, Mariana. No meio eu, a reunir por telefone.
Foi confuso? Mais ou menos. Cansativo? Nem por isso, hoje o ânimo é outro.

Fechadas as aulas, terminado o telefonema, “tudo lá para fora apanhar sol”.
Fizemos isto hoje, pouco antes de almoço. Voltámos a fazer agora, pouco antes do jantar. Faz falta o sol, o correr na relva, o brincar com o Mimos, o fugir da gata, faz falta rir.
“Mãe, tira uma foto!”
Há muito que não tiramos fotos. Estar em casa é estar despenteada, é não ter tempo nem vontade para vestir melhor, é colocar camadas e camadas de roupa quando está frio e ir tirando à medida que o tempo fica mais ameno.
Mas hoje tirámos fotos. Muitas 🙂, e foi tão bom!
Tenho as calças com manchas nos joelhos – que espero sejam de água… – o cabelo uma miséria, dói-me a barriga de tanto rir.

Estar em casa dos meus pais, com os meus pais, trouxe-me à alma o ânimo que andava a faltar. Estar com eles, ouvir-lhes a voz, ver-lhes o rosto, sentir-lhes o riso, carregou as baterias e mostrou, mais uma vez, que o que realmente importa é isto: viver, estar com quem amamos, rir e chorar com os nossos.
Os tempos não mudaram, apesar das notícias tudo continua na mesma. E isso dói. E porque dói, preciso de reaprender a viver. Seja com máscara e desinfetante, seja lavando a roupa a 90º, seja usando lixívia com água fria. Arriscando o mínimo, para viver o máximo que estes tempos permitem.
No fundo, é desejar (com a mesma força e desespero do início) que tudo corra bem. Que tudo corra mesmo bem.
Até lá, até ao dia em que poderemos dizer isso, aproveitam-se os dias de sol, as horas roubadas, as tiradas do pai e o riso da mãe. Traz-se para casa abacates, sopa fresca e fermento para fazer pão.

Ontem carreguei as minhas energias.
Hoje, carreguei as energias delas.