Dia 32, Dia de Páscoa


. Durante anos a Páscoa foi celebrada em casa do meu avô.
Depois, quando a Páscoa deixou de ser “à segunda-feira”, passámos a celebrá-la em casa.

E era o início de tarde a tentar ouvir as campainhas, e era o João a passear com um sino,
e era o meu pai a ir ler ou falar com o Sr. Francisco,
e era todos a regressarmos à cozinha para comer o folar que a Alice tinha trazido depois da Vigília Pascal.
Para sair, passados minutos, a correr para o portão e a gritar “vem aí, vem aí!!”.

E havia sempre alguém na casa de banho
e havia sempre muita gente e pouco espaço
e havia sempre o meu pai a cantar “Ressuscitou, Ressuscitou!”
enquanto a minha mãe dizia “Tozé, a cruz já está cá dentro”.

E era a Bênção, e o beijar da cruz,
e o “então, ainda vos faltam muitas casas?” e o “até pró ano, até pró ano”.
Depois era regressar à cozinha, voltar a comer pão doce com Castelões e beber Vinho do Porto, com aquela sensação de “Páscoa feita”.

Desde que vim para a Branca que a Páscoa é em casa dos meus sogros, ou da avó do Gonçalo.
A custo e com tempo, consegui convencer quem precisava ser convencido que queria que a visita viesse cá a casa.
Que não valia a pena, que já beijávamos a cruz em outros lados e ainda tínhamos de ir a Estarreja.

E eu insistia. E tanto insisti que convenci.

E o Domingo de Páscoa era passado em corrida,
primeiro lá, depois a correr para cá, todos enfiados num carro
enquanto quem já tinha sido convencido fazia questão em vir a pé,
e era o acender da vela e levar uns tapetes para o quarto de trás para que,
à hora que o Senhor entrasse em nossa casa,
estivéssemos prontos para O receber.

Este ano não houve corridas.
Não houve carne assada, não houve folar,
houve um pão meio doce que eu fiz e que está bom para torradas.

Mas de manhã a Mariana pegou no postal que ficou do ano passado e proclamou a Bênção.
E eu, que estava a arrumar qualquer coisa, parei por minutos e respondi.
E naquele meu hall de entrada, onde hoje a cruz não entrou, fez-se Páscoa.
Senti Páscoa.

Para o ano estaremos todos juntos 🙂

Dia 30, Sexta-feira Santa

. Acordei uns minutos antes das oito, uma hora antes de todos.
E ainda antes de beber café, saí para o jardim.

A calçada brilhava com a chuva, espelhando o céu ainda cinzento,
o ar a cheirava a frio, e havia um cão a correr no jardim.

Foi diferente, despertar sem café.
O ar frio acorda, e a névoa – a que lembra filmes de vikings e que se entranha na roupa e nos cabelos – obriga o sono a render-se a afastar-se devagarinho.

A manhã correu como correm as manhãs destes dias de férias delas:
fazer pequenos almoços, preparar almoços.
“Margarida, já comeste?”, “Mamã, quero mais cereais”

Almoço, limpar, arrumar,
fingir que não é feriado e trabalhar mais um bocadinho.

(três horas. Sexta-feira Santa.
Não tenho rezado, apenas consigo fazer silêncio,
mas estas Sextas são diferentes – sempre foram.
Na celebração via YouTube, panos vermelhos cobrem os santos da igreja que continua a ser a minha.
E entre os curtos silêncios que separam uma leitura da outra,
é possível ouvir o som dos pássaros que (adivinho) continuam a fazer ninhos naqueles beirais.
“Não beijar filhos e netos é agora sinal de amor”, ouço.
Nós, que sempre gostámos de procurar o abraço e o colo dos outros,
estamos agora privados disso.
E, nas imagens que chegam daquela igreja vazia de gente,
quase se consegue sentir a solidão da sexta-feira que se tornou Santa)

Um barulho lá fora, gargalhadas sinceras, uma filha e um cão.
E percebo que esta janela é a imagem que guardo deste período em que devemos ficar em casa.
Não é uma janela da alma, é uma janela apenas, mas é por ela e através dela que o mundo me chega todos os dias.

Um dia ora cinzento e húmido, com névoas que lembram os filmes de viking,
ora com vento e chuva forte, ora com sol.

Ora com uma filha, e um cão 🙂


Dia 29


. Amanhã fará um mês que estamos em casa.

Um mês sem ir a casa da avó Lúcia, um mês sem ir a casa da avó Maria. Um mês sem procurar na gaveta dos chocolates e perguntar “há surpresas, avó?”. Um mês sem trazer as bandas desenhadas e os descobre as diferenças que o avô Zé recorta e guarda todos os dias.

Um mês em que trabalho a partir de casa, um mês em que voltei a cozinhar cinco vezes ao dia, e em que voltei a fazer sopa a todas as refeições (nunca fiz tanta sopa como agora). Um mês em que não almoçamos com a minha sogra ou com os meus pais.

Sinto falta do arroz da D. Lúcia, com as ervilhas estufadas à parte que eu como como se não houvesse amanhã.

E de ouvir a minha mãe a dizer “olha que hoje não fiz nada de especial para o almoço” enquanto coloca na mesa carne assada no forno, com batatas douradas e broa frita.

Sinto falta de perguntar “o papá, onde está?”, e de ouvir “está no escritório a ler”. E do “avô Zéeeeeeee, avó Mariiiiia” que a Magui solta quando entramos lá em casa, como que a dizer “já cheguei, estou aqui”.São saudades que não estão guardadas em caixas, como as memórias dos tempos que recuperamos quando precisamos de os recordar.

São saudades diferentes, respiram e movem-se connosco.

Porra, custa muito estar longe de quem gostamos.

Dia 28

. Se hoje fosse a Mariana a escrever, diria que hoje acordou cedo.
E que foi ter com a mãe à cozinha, onde pediu o pequeno-almoço.

Diria que não o tomou logo.

E que quando comeu os cereais,
não o fez como sempre sentada no sofá mas sim à mesa, distante do chão.
E que comeu rápido – muito rápido – para que a manhã não fosse gasta em coisas tão básicas como comer.

Diria que hoje não pediu o telemóvel, que viu pouco Youtube.
E que esperou pelo acordar da irmã para sair para o jardim.

Depois, diria que o dia se resumiu a sair para brincar,
entrar para descansar, voltar a sair, entrar em casa, sair de novo.
Diria que está a ser responsável.
E que ontem – e hoje – foi o dia mais feliz da vida dela.

Como é a mãe a escrever, digo que acordei cedo e que não tomei logo o pequeno-almoço.
Antes disso, limpei o chão.
E que não me enrosquei no sofá como de costume, a beber o café.
Que o tomei em pé, porque sentar não era opção.

Digo que hoje trabalhei muito, compensando o dia de ontem em que – a pedido dela e por ser o seu aniversário – não escrevi nem um parágrafo.
Que quase nem saí para o jardim.
E digo que nunca, mas nunca, esquecerei como os olhos dela se encheram de lágrimas e de como, corada, enterrou o rosto naquelas orelhas peludas.
Nem de como se afastou num segundo, escondendo a vergonha por estar a chorar.

Há formas de “vermos” a felicidade.
As lágrimas da Mariana, ontem, foram a manifestação visível da felicidade mais simples, mais pura, mais profunda que alguma vez tive o privilégio de ver.

Mimos, bem vindo a casa