Dia 27

. Hoje acordei mas não saí logo da cama.
Não me levantei mais cedo.
Não me sosseguei um pouco no sofá, naqueles minutos que são tão importantes para mim.

Hoje não me sentei a trabalhar.
Não escrevi um parágrafo.
Não fiz uma video-chamada, não participei num Teams.

Hoje não dei almoços à pressa,
não voltei às duas da tarde, não trabalhei até serem seis.

Hoje, mais do que os outros dias, o dia é dela.
Deste amor grande que demorou a chegar,
e que quando chegou me arrebatou a alma e me mudou a vida.

Deste amor que me fez crescer.
Que me fez inteira.
Que me fez sentir uma felicidade que nunca pensei ser possível sentir.

Deste amor que ainda se enrosca em mim, que ainda procura um espacinho nos meus braços, e que – quando eu digo “daqui a uns tempos já não te consigo levar ao colo” – me diz “quando não conseguires levar-me ao colo, levas-me pela mão”.

Dez anos de Mariana.
Amo-te imenso, meu amor.


Dia 26

. Dia de acordar cedo, de beber café, de enroscar no sofá durante uns minutos.
De entrar no escritório e começar a escrever.

É de manhã que avanço mais: no silêncio, as ideias não encontram barreiras.
O som da respiração leve chega de mansinho, traz paz.
Tiro os fones por uns instantes, escuto.
Mais uma volta na cama, apenas isso.

Recomeço.

A manhã ainda mal começou, e há que ganhar tempo enquanto o tempo é só meu.

Dez horas. Risos, barulhos de braços pequenos a afastar os lençóis.
Deixo de escrever, caminho até ao quarto, enrosco-me no meio delas.
“Mãe, é tão bom quando estás connosco”. “És a minha almofada preferida”.

Agora sim, começa o dia.
O nosso, partilhado, vivido a três enquanto o papá não chega.
A casa entregue às mulheres.

A tarde é mais comprida, divide-se em três lanches e dois “queria mais bolachas”.
E há leite quente que precisa de chocolate.
E há “mais um queque, posso comer?”.
E um “quando vens brincar connosco?”

(estes “quando” são o que mais custa. Elas sabem que não estou de férias, mas tentam a todo o custo trazer a mãe para o mundo delas, tirá-la do mundo onde usa óculos e divide a atenção com outras pessoas)

Fim do dia, o papá chegou.
Ao jantar temos rissóis, porque já passa das sete e meia e não há tempo para inventar muito.
Daqui a pouco o sofá vai ser pequeno para os quatro,
e a Magui vai pedir para ficar no meu colo.
“És a minha almofada preferida”, irá dizer.

E assim o meu dia, que começou há tantas horas,
termina da mesma forma como começou:
entre as duas, adormecida nos seus abraços.



Dia 25


. Dia 25, Dia de Ramos

Acordar a meio da noite com o barulho da chuva,
pensar nos tapetes deixados no estendal a secar,
virar para o outro lado, enroscar num cabelo a cheirar a flores.

Hoje é Domingo de Ramos.
Um Domingo diferente, vivido da forma a que as circunstâncias obrigam:
sem procissão, sem Eucaristia, sem o cheiro a incenso e alecrim.
Onde antes se cantava “Hossana”, estende-se agora silêncio.

É um Domingo de Ramos diferente, um em que as cruzes e os ramos deixam as Igrejas e se espalham pelas portas de quem – nestes tempos e com medo – sente esta falta de viver a Fé.

Hoje é domingo.
Dia de bacalhau com natas e queques de chocolate, de lanche de regueifa com manteiga, de ficar no sofá com o telemóvel da mãe e de ver um pedaço de um filme que se estava a guardar há séculos.
O dia em que a família se junta no mesmo espaço e se descansa, distrai.

Dia em que cada um faz a sua mochila, reúne as suas forças, arruma o seu coração, para amanhã continuar.

Dia 24

. Passa das oito, a casa está limpa, a roupa secou, daqui a nada vamos jantar.

Lá fora, parece, começa a chover.

Acordei cedo, bebi café.

Do outro lado da casa, tudo dorme.

Não sou pessoa de acordares maus, a sério que não. Mas aqueles minutos que separam o acordar do início do dia são uma necessidade a viver sozinha, em silêncio, são o sair de um mundo que vive na minha cabeça para entrar no mundo onde vivem todos os outros.

Devagar. Com calma.

Acordam ao mesmo tempo, deixamos o papá dormir. Pequeno-almoço embrulhado em mantas, um despertar vagaroso que eu sei que lhes sabe bem.

Pedem que me sente com elas, mas digo que “Hoje é sábado” e elas sabem o que quero dizer: é dia de cuidar da casa, de preparar uma semana, de abrir janelas e de limpar o chão.

Dia quente, almoçar lá fora. Tarde de sol, brincar no jardim.

A Mariana diz “gosto da nossa casa”, a Magui diz “anda brincar connosco. A pele está corada das corridas e da bola, os amuos passam rápido quando o ar cheira a relva e flores.

Fim do dia, hora de banho. O regresso ao cheiro a flores e erva-doce. O secar os cabelos, o dar um beijo nos narizes molhados. “Gosto muito de ti”, digo. “Eu sei”, ouço em resposta.

Gosto dos sábados. Sempre gostei.

Só acho que nunca percebi a importância de o dizer.


Dia 23

. Acordar durante a noite e ver se as meninas estão bem tapadas. Acordar de manhã bem cedo e sair do quarto sem fazer barulho.

A playlist do Spotify mudou, o Lo-Fi beats cedeu lugar a Happy Folk. Há uma necessidade de movimento, de mudança, de algo que se agite nestes dias em que o tempo parece não se mover.

Contabilizo o trabalho feito e vejo que esta semana avancei mais do que nas outras.
São as férias. Os dias sem trabalhos, as rotinas levadas ao mínimo, as horas que se estendem, o relaxar dos dias mais quentes.
A casa está o caos: é o preço a pagar pela produtividade.
Há brinquedos e bolas e restos de tecidos pelo chão, as mesas cobrem-se de lápis por afiar, há mantas por todo o lado e só a minha mesa permanece organizada.
Relaxei, elas relaxaram. Era preciso.
São as férias – iguais aos outros dias, com três em casa e um fora, sem escola e sem família alargada… mas com esta diferença, este folgar das rédeas, este “deixa estar” que nestes dias representa um tempo que se quer diferente.

Amanhã é sábado, e arrumamos.
Por hoje, arranjamos um espaço no sofá – nem que seja expulsando a última almofada que ainda lá permanece – e regressamos às sextas feiras, quando os tempos eram normais.